Aprendendo a ser cidadão com toda essa gente diferenciadaHoje tomo a liberdade de fugir um pouco dos assuntos mais buscados no Dinheirama (dinheiro, finanças pessoais e investimentos). Quero conversar sobre pessoas e tenho certeza que você, leitor, entenderá, no decorrer da leitura, porque decidi também falar da polêmica envolvendo a escolha da nova linha do metrô na cidade de São Paulo. A polêmica da “gente diferenciada” ganha mais um capítulo.

Para evitar qualquer julgamento inapropriado, cabe lembrar que boa parte da população enxerga, com preconceito, o fato de existirem pessoas que alcançaram o sucesso e que, como consequência, desfrutam da condição de riqueza. No Brasil, ser rico é considerado pecado, quase um crime. Levar isso em consideração é importante para a correta interpretação deste texto.

Nessa semana, ouvimos nascer uma grande polêmica sobre a construção de uma estação de metrô na região da Santa Cecília, mais precisamente na Avenida Angélica, em São Paulo. De acordo com o noticiado, a população do bairro pressionou a prefeitura e a direção do metro para que a estação fosse para outro lugar.

A razão alegada foi a de “evitar ocorrências” no bairro – no entender de muita gente (meu, inclusive), o grupo reclamou a fim de evitar a mistura (o choque) entre os moradores do bairro “nobre” e a população mais humilde (e de pior situação financeira) que utiliza o metrô.

Pouco interesse em temas relevantes para o Brasil
Interessante notar o poder de mobilização da Internet condenando a possível pressão dos moradores, que criaram um abaixo assinado e conseguiram fazer valer sua vontade e seus interesses. Até o momento, o Metrô informa que a mudança da estação para as proximidades da Avenida Angélica respeita critérios técnicos, não admitindo que a mudança seja resultado das pressões regionais do bairro.

Concordo com a avaliação do cronista esportivo Juca Kfouri em relação aos protestos e abaixo assinado. A atitude de segregação é ridícula, não há nem o que discutir, mas a ação do bairro é legítima, ainda que inexpressiva em termos absolutos. A situação merece interpretação: o que torna as pessoas de Higienópolis diferentes em relação a muitos que preferem apenas criticar e não enxergar fora da caixa?

Ora, o Brasil possui milhões de problemas estruturais que precisam ser discutidos e questionados com energia e muito “barulho”: educação precária, saúde perto da calamidade, carga tributária perto da imoralidade, corrupção, infraestrutura etc. Bom, até hoje não vi nenhum desses temas chegar ao Trending Topics do Twitter. A mobilização em torno destes temas continua sendo uma utopia.

Aprendizado deixado de lado
Aqui no Dinheirama, sentimos “na pele” como os brasileiros se deixam levar por questões pouco relevantes para a sua vida – cidadãos que aderem, em boa parte, a campanhas ou mesmo situações em que o menos importante é o crescimento pessoal e financeiro. É aquela velha história: educação financeira ou colheita on-line, o que dá mais audiência?

Se considerarmos a Internet como base de comparação, os nossos campeões de visitas são os sites e blogs de humor e as redes sociais, onde muitos internautas passam horas “colhendo frutas” e “cuidando” de animais virtuais. O que dizer do aprendizado, da necessidade de aprender a interpretar um bom texto? Mais uma vez, fica claro que o prazer imediato e a pouca valorização do futuro falam mais alto.

Mudança de postura
Os internautas e demais pessoas que se sentiram ofendidos ou desprestigiados com a possível “conquista” dos moradores de Higienópolis deveriam imitá-los. Sim, buscar o mínimo de organização para pressionar os poderes públicos para fazer o que deveriam, exigindo a prestação de serviços de qualidade, sem falcatruas ou jeitinhos que obedeçam apenas ao critério político.

Mais do que nunca, o Brasil merece novas oportunidades. É inegável o avanço do país em vários aspectos, sobretudo o econômico. Agora, como cidadãos, precisamos mudar a postura, precisamos fazer prevalecer nossos direitos, principalmente fazendo melhores escolhas. E se as mais de 50 mil adesões contra o movimento do bairro fossem direcionadas para a construção de novos hospitais, melhoria dos serviços públicos?

Alguém esses dias me perguntou: “Será que os moradores de Higienópolis votaram no Deputado Tiririca?” Posso até me surpreender com os resultados, mas não creio que ele tenha recebido muitos votos por lá. Fica o convite à reflexão: precisamos mudar a maneira como tratamos os assuntos que são importantes em nossa vida.

Assim, quando você perceber que existe alguma decisão com a qual não concorda, ao invés de lamentar, busque o mínimo de organização e “vá à luta”. Não importa o bairro onde você mora, o que irá prevalecer é a atitude, a dedicação e a postura em torno daquilo que se deseja. Dedicar um artigo a esta afirmação parece desnecessário, afinal trata-se de algo óbvio.

Concordo com o que diz Sérgio Malbergier em sua coluna da Folha de S. Paulo quando ele diz que ser rico não é pecado. Pecado é ficar sentado esperando as coisas acontecerem, simplesmente dizendo amém para tudo, sem lutar e buscar oportunidades de fazer diferente. Isso vale pra qualquer tipo de pessoa, diferenciadas ou não.

Foto de sxc.hu.

Ricardo Pereira
Aviso: Os textos assinados e publicados no Dinheirama.com não representam necessariamente a opinião editorial do Blog. Asseguramos a qualquer pessoa, empresa ou associação que se sentir atacada o direito de utilizar o mesmo espaço para sua defesa. Também ressaltamos que toda e qualquer informação ou análise contida neste blog não se constitui em solicitação ou oferta de seu autores para compra ou venda de quaisquer títulos ou ativos financeiros, para realização de operações nos mercados de valores mobiliários, ou para a aplicação em quaisquer outros instrumentos e produtos financeiros. Através das informações, dos materiais técnicos e demais conteúdos existentes neste blog, os autores não estão prestando recomendações quanto à sua rentabilidade, liquidez, adequação ou risco. As informações, os materiais técnicos e demais conteúdos existentes neste blog têm propósito exclusivamente informativo, não consistindo em recomendações financeiras, legais, fiscais, contábeis ou de qualquer outra natureza.

Comentários