Bernard Madoff, as "pirâmides" financeiras e seus investimentosRoberta comenta: “Navarro, fiquei muito assustada com a tal história da pirâmide financeira que desabou nos EUA recentemente. Quer dizer que um senhor que se entitula ‘gestor de investimentos’ angariou bilhões de dólares sem sequer conseguir explicar como tamanha fortuna era investida e de onde seus retornos sempre positivos saiam? Enganar um ou outro é uma coisa, mas bancos e grandes instituições? Imagino se não existem esquemas assim mundo afora, inclusive aqui. Que tal falar do Caso Madoff e deixar algum insight para nós, pequenos investidores? Obrigada”.

O susto é mesmo universal e respinga na já abalada confiança dos investidores[bb] mundo afora. Como já amplamente alardeado pela imprensa especializada, estamos diante do maior esquema de fraude já realizado até hoje – ministrado por ninguém menos que o ex-presidente da Nasdaq, o executivo Bernard Madoff, de 70 anos. O mesmo senhor que, no dia 20 de outubro de 2007, disse que “no ambiente regulador de hoje, é praticamente impossível violar as regras”.

Praticamente? Sei. Dizem que só mesmo alguém que trabalhou por tanto tempo no mercado financeiro seria capaz de acumular tamanho respeito e autonomia para uma façanha deste tamanho. Mas, tudo isso não soa incoerente e sórdido demais? Um executivo conhecido e respeitado (e já muito rico) que decide dar um golpe em milhões de investidores? Some-se a isso sua foto recente, tirada quando ele deixava uma das audiências judiciais em torno do caso, onde ostentava um sorriso do tipo “vocês acham que me pegaram?”. Ele, de boné e roupa casual, não parecia nem um pouco preocupado. E continua assim. E ai?

“Madoff é acusado de ter formado uma gigantesca ‘pirâmide’ especulativa por meio de um fundo de investimentos. O esquema é um clássico da burla financeira: consiste em usar o dinheiro aplicado por novos investidores para remunerar os antigos. Quando a entrada de novas aplicações sofre diminuição brusca, o esquema vem abaixo.

A trajetória de retornos na faixa de 1% ao mês atraiu vários bancos, fundos e investidores de diversos países, inclusive do Brasil. Muitos aplicadores acreditavam que o sucesso da carteira de investimento de Madoff estava atrelado ao segredo da estratégia de gestão. A ‘caixa preta’, na verdade, escondia uma fraude. As perdas são estimadas em US$ 50 bilhões”. (Trecho retirado de editorial recente do jornal Folha De S. Paulo)

Por que pirâmide? Como assim?
O funcionamento de fraudes deste tipo é bastante simples. Basta que novos investidores entrem em ritmo maior que o de saída de antigos participantes. Desta forma, o dinheiro daqueles que ainda estão investindo são usados para pagar aqueles que decidiram sacar. Pirâmide justamente porque enquanto existirem mais pessoas interessadas em entrar (base da pirâmide), a base do esquema sustenta sua operação. Aqueles que sacam (topo da pirâmide) não são peças capazes de desestabilizar a estrutura.

Imagine então que, com a crise, duas coisas ocorreram:

  • Mais investidores resolveram sacar o dinheiro[bb] investido;
  • Menos investidores tinham recursos e/ou estavam dispostos a investir no produto em questão.

Assim, a relação se inverteu. Como a base da pirâmide não se sustentou, todo o esquema veio abaixo. O dinheiro para resgate não existia, nem estava aplicado nos produtos X, Y ou Z selecionados pela “estratégia” de Madoff. X, Y e Z como exemplos, já que a operação mesmo é completamente desconhecida. Tal tipo de fraude ficou conhecido também como “Esquema Ponzi” – apelido dado por conta de esquema semelhante realizado pelo italiano Carlo Ponzi.

A repercussão e algumas lições
Gestores de bancos e escritórios de investimento independentes acreditaram na estratégia de Madoff e entraram no esquema. Hoje, lutam para tentar recuperar pelo menos parte do capital de seus clientes, a esta altura desesperados e alguns milhões de dólares mais pobres. Rene-Thierry Magon, gerente francês de investimentos de 65 anos, foi encontrado morto em seu escritório de Nova York – a suspeita é que ele tenha se suicidado depois de tentar, em vão, encontrar saída para devolver cerca de US$ 1,4 bilhão de seus clientes que foram investidos na fraude.

Rosario Pujado, sócia da Practa Treinamento e profissional CFP (Certified Financial Planner), escreveu um ótimo artigo sobre a questão, publicado recentemente no jornal Valor Econômico. Entre diversas excelentes observações, encontra-se facilmente o retrato da mesma indignação demonstrada por muitos leitores. Ela questiona de forma veemente:

“A pergunta que não quer calar é: por que instituições financeiras, fundos, organizações não governamentais e megainvestidor entraram no esquema? Corrente é coisa de tolos, não é mesmo?”

Ouso acrescentar: ninguém desconfiou de nada? Grandes instituições não se preocuparam em investigar os negócios e tentar entender melhor como os retornos eram sempre tão positivos e constantes? A maioria não. Cabe ressaltar que alguns gestores e empresas desconfiaram e, sabidamente, deixaram de lado a opção pelo produto de Madoff. Infelizmente, foram poucas as vozes dissonantes. Mas, segundo Rosario completa, este é apenas mais um retrato do modus operandi do ser humano:

“Aspectos psicológicos explicam o que a lógica não consegue elucidar. Na verdade, todos somos tolos procurando ser enganados. (…) Os investidores acreditaram em Madoff como nós, reles mortais, acreditamos no aparelho de ginástica vendido na TV, ou na dieta da lua, ou nas inúmeras simpatias de final de ano. (…) Sucumbimos porque sofremos de uma constante sensação de falta que precisamos suprir de maneira mais rápida possível. Esse eterno desconforto é a manifestação do desejo, nunca satisfeito”.

Nós, pequenos investidores, também somos atraídos por armadilhas semelhantes e nem sempre menos catastróficas. Aquele carro financiado em inúmeras vezes que terá de ser devolvido ou as compras exageradas que colocam muitos brasileiros diante da necessidade de usar o cheque especial ou crédito rotativo do cartão de crédito nada têm de fraude, mas são situações igualmente apresentadas como ótimas e fantásticas para os bolsos de nossos cidadãos.

Logo, o que podemos tentar aprender?

1. Investir em algo que não conhecemos é arriscado. Procure conhecer o produto, gestor ou alternativa de investimento[bb] desejada para os planos financeiros da família. Investigue a instituição, procure compreender a estratégia utilizada pelos gestores e só invista se estiver seguro com as respostas obtidas. Na dúvida, pergunte sempre mais e aguarde até sentir-se confiante. Na dúvida, não invista. Ah, sim, cuidado com as modas;

2. Investimentos naturalmente voláteis fatalmente apresentarão oscilações, ainda que pequenas. Se o investimento é lastreado em operações no mercado de capitais[bb], através de ações e derivativos, e apresenta invariavelmente resultados muito acima da média e de produtos semelhantes operados por concorrentes, desconfie! Embora muitos gestores não concordem com minha opinião, prefiro continuar proferindo-a a plenos pulmões: prefira produtos de retornos realistas, menos mágicos, mas que você compreenda totalmente.

Sua avó, assim como a minha, já dizia: “Esmola demais, até o santo desconfia”. Especialistas da Psicologia Econômica são céticos quanto à nossa capacidade de aprender com os erros dos outros – defendem, com razão, que aprendemos mais com nossos próprios erros. Torço para que possamos romper essa barreira. Afinal, investir é um ato muito sério e que deve ser encarado como objetivo de um futuro planejado. Se você acredita em dinheiro como instrumento de independência financeira[bb], sugiro tente tirar suas conclusões e aprenda algo – juro que é o que estou tentando fazer. Em vão? Tomara que não.

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Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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