Poupança é importante!“Crediário em 99 meses pra pagar! Que ótima notícia!” Essa foi a matéria de capa do Estado de S. Paulo de segunda-feira (19/11). Crédito para compra de veículos em 99 meses? Ha, ha, ha! Só consigo rir. Uma risada sem graça, irônica, nervosa, proposital. O motivo do humor negro? O artigo publicado pelo Navarro sobre financiamentos em 84 meses. Com essa nova vantagem anunciada pelo Estadão, de poder financiar em 99 parcelas, comprar um carro com 84 meses pra pagar parece compra à vista!

Acredite, hoje já existem financiamentos de automóveis em até 99 vezes. Noventa e nove! O destaque do caderno de economia diz “Classe C anda de carro zero, com juro baixo e prazo longo”. A manchete na página B3 anuncia, em letras garrafais que a “Baixa renda já pode comprar carro zero em até 99 meses”. Vou tentar não ser crítico, não ser cínico, não ser duro, irônico, mas confesso que não vai ser fácil.

Em primeiro lugar…
…acho que comprar um carro zero pode não ser um bom negócio. A desvalorização do automóvel nos primeiros doze meses é impressionante! Segundo ponto: esse tipo de financiamento, assim como o açúcar atrai formigas, pega em cheio uma das parcelas mais ignorantes (não só financeiramente) da população brasileira. Juro é bom de receber[bb], não de pagar. Claro, exceto quando você pode usar o endividamento para alavancar-se. Não é o caso aqui.

Como é esse financiamento?
Leasing! Você não é dono do carro até pagar a última prestação. Hoje, essa modalidade de crédito domina os financiamentos concedidos para a aquisição de veículos. Atualmente, 60% dos financiamentos são feitos através de leasing e 40% através de CDC. Os juros do leasing são baixos devido a incentivos fiscais para esse tipo de crédito. É verdade, as taxas são baixas. Apenas 0,89% ao mês, 11,21% ao ano! Menos que a Selic, que hoje está em 11,25%. Ótimo negócio então? Para os financiadores sim.

Ah, mas a prestação cabe no orçamento…
E daí? O que será que pode acontecer nesses 8 anos e 3 meses com sua renda? Com seu orçamento[bb]? Com sua vida? Será que você ainda vai querer esse carro daqui a 8 anos? Será que não vai desejar trocar antes? Acho que há uma certa “euforia” por parte dos agentes financiadores, pautada na expansão da renda e do consumo da classe C. Uma certa concessionária vendeu mais de 600 carros (!!!) em apenas dois dias de feirão. Com isso, tem gente achando que vem um subprime automotivo pora aí. “Esse pode ser nosso subprime” disse Ray Young, ex-presidente da GM Brasil. O atual presidente, Jaime Ardilla, concorda com seu antecessor.

Ah, não é para tanto!
O presidente da Anef (Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras) diz que “cabe o alerta”, mas que nossa situação é bem diferente da existente nos EUA. Essa também é a opinião do presidente da Acrefi (Associação Nacional das Insitiuições de Crédito, Financiamento e Investimento). Érico Sodré diz que “Estamos muito longe da crise do subprime”. Também foi o que disseram o JP Morgan e outros bancos de investimento nos EUA algum tempo atrás. Ok, a inadimplência está estável, não vem crescendo. Mas repare nas opiniões aqui colocadas. As associações das financeiras defendendo o crédito fácil de longo prazo. É bom negócio pra quem?

Não está convencido de que é uma fria?
A reportagem mostra a história de um consumidor corajoso, que conta sua experiência de jogar pelo ralo R$ 9 mil em sete meses. Isso aconteceu quando este brasileiro decidiu financiar um carro de R$ 19 mil em “apenas” 60 parcelas de R$ 641,00, sem entrada! Ao fazer as contas, os R$ 19 mil se tornariam R$ 38,5 mil. Espere um pouco, juro de 100%? Exatamente! Este é poder dos juros compostos[bb]; transformar uma pequena taxa mensal em 100%, ou mais, em 5 anos. Por que ele fez este “excelente” negócio? Ele mesmo responde:

“Financiei o valor integral do veículo por impulso e falta de informação”

Com outros gastos como seguro, estacionamento, combustível, manutenção, aquela esponjinha com cheiro de carro novo, os dadinhos pendurados no retrovisor e a imagem de Santo Antônio no painel, os gastos aumentaram consideravelmente. Para arcar com esses gastos, nosso amigo comprometeu quase 50% de sua renda mensal. Resultado:

“Para dar conta, tomei dois empréstimos bancários e passei a rolar dívidas com cartão de crédito. O prejuízo foi de, no mínimo, R$ 9 mil”

Que cena linda! Linda para quem mesmo? Apesar de agir por impulso na hora da compra, agiu com inteligência para descascar esse abacaxi: se desfez do carro. Mas para quitar a dívida com a financeira, teve que pagar uma diferença de R$ 3,6 mil.

Então não vale a pena?
Não! Definitivamente não! A não ser que você tenha um investimento rendendo mais que o juro que você está pagando e que te permita sacar, mensalmente, o valor da prestação sem reduzir o montante investido. Isso é inteligência financeira, é alavancagem, é o mínimo que as pessoas deveriam saber sobre juros compostos. Se essa for a sua realidade, vá em frente.

De qualquer forma, sempre leve em consideração a opção de comprar um carro com um ou dois anos de uso, já com uma boa depreciação. Outra coisa, será que não é melhor financiar seu carro zero em um, dois anos apenas, dando a maior entrada possível? Me lembro de uma empresa financiando casas em 100 meses! Casas! Agora, comprar um carro para pagar em 99 meses, “tô fora”! E você?

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Arthur Gouveia é Consultor de Empresas especializado em Gestão e Estatística. Conheceu o Dinheirama e, desde então, aplica as dicas dos editores e comentaristas em seu cotidiano, buscando aumentar seu patrimônio líquido. Atualmente edita a seção de Notícias e é editor responsável pelas dicas e opiniões de nossos leitores.

Crédito da foto para Marcio Eugenio.

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