Poupança é importante!Dando seqüência ao conjunto de artigos que visa proporcionar ao leitor do Dinheirama o básico da arte de investir em ações[bb], vamos abordar hoje alguns conceitos e práticas da Análise Fundamentalista. Ela considera basicamente as informações contábeis (lucro, receita, faturamento, entre outras) e os indicadores da empresa em sua área de atuação, como produção, investimentos em infra-estrutura, ampliação, liquidez, endividamento e recursos humanos.

Fazendo-se valer de um método de cálculo denominado Fluxo de Caixa Descontado, os analistas determinam o chamado preço justo de uma ação e analisam se a saúde financeira e mercadológica da empresa, comparando seus dados com a de seus concorrentes. Aventure-se conosco nesse universo um pouco mais técnico, mas igualmente fascinante.

Entendendo o preço justo
Primeiro, entenda que o preço das ações nas bolsas não é o próprio preço justo, mas uma média de expectativas entre compradores e vendedores da ação. Lembre-se da psicologia envolvida na negociação de ações.

A cotação é um dado de mercado, enquanto o preço justo é uma avaliação individual. Em análise fundamentalista, as informações utilizadas geralmente envolvem níveis futuros e previstos da atividade econômica nacional, setorial e da empresa, além de considerações políticas que possam influenciar no comportamento de variáveis econômicas, afetando as taxas de retorno esperadas e o grau de incerteza a ela associado. O principal indicador que baliza o preço das ações é o Indicador Preço/Lucro, mais conhecido como P/L.

Principais Objetivos da Análise Fundamentalista

  • Precificação de Ações. Para investimentos em ações de uma companhia aberta, esse método é utilizado na determinação do “Preço Justo”. Para isso, basta dividir o valor econômico calculado pelo número total de ações da empresa. A relação entre o “preço justo” e seu valor de mercado (cotação em Bolsa) indicará o potencial do ativo-objeto, determinando a decisão de COMPRA ou VENDA desses papéis.
  • Fusões e Aquisições. Para determinar os valores-base em negociações de compra, venda, fusão, participações acionárias e parcerias entre empresas industriais, comerciais e de serviços (operações de M&A).
  • Projetos e “startups”. Para determinar a viabilidade econômica de projetos. Por exemplo a ampliação das instalações de uma indústria, a entrada em um novo segmento, lançamento de novos produtos ou a criação de novas empresas. (elaboração de planos de negócios).

Método de análise econômica para empresas e projetos (viabilidade)
Este é um dos modelos mais aceitos e difundidos. Como o próprio nome sugere, baseia-se nos fundamentos que a empresa ou o projeto apresentam. Sob essa ótica, para que a empresa ou o projeto sejam viáveis e tenham chance de sucesso, é imperativo a existência de um planejamento adequado e realista, que contemple toda a diversidade ambiental, temporal e estratégica envolvida nesse processo.

Dessa forma, a análise fundamentalista[bb] pode servir para avaliar projetos de empresas “start-ups” ou mesmo aquelas já em fase operacional. Em geral, esse trabalho é realizado com 2 focos principais:

  • Aspectos materiais. Informações históricas contábeis e financeiras, disponibilidade tecnológica, capacidade financeira, fontes de recursos, capital humano, histórico de desempenho empresarial dos sócios, entre outros;
  • Aspectos subjetivos. O momento/oportunidade de mercado, projeções de desempenho, cenários macroeconômicos, risco envolvidos, alternativas de investimento, valores éticos, sócio-ambientais, entre outros.

A partir da análise conjunta desses elementos são definidas as premissas para a elaboração da projeção de resultados para os próximos anos. Essa medida de desempenho permite construir os fluxos de caixa futuros (a quantidade de anos projetados depende da natureza da atividade – em geral são projetados 6 anos/exercícios).

Fluxo de Caixa Operacional (Free Operating Cash Flow)
Uma vez constituídos os fluxos de caixa da empresa/projeto, pode-se avaliar seu valor atual através da metodologia do Fluxo de Caixa Descontado, que consiste em trazer para o valor presente (VPL) os fluxos futuros a uma taxa de desconto tecnicamente definida. O exemplo mais comum e difundido em larga escala é o modelo CAPM, baseado no Beta (indicador de volatilidade) da empresa:

CAPM = RF + b*( RM – RF )

Onde:
CAPM (Capital Asset Pricing Model) – precificação do custo do capital para investimento;
(RM – RF) – Taxa de risco
RF (risk free) – taxa livre de risco (no Brasil é a Selic/CDI);
RM (risk market) – risco de mercado (varia de acordo com a natureza da atividade);
O Beta (b) é um indicador de risco da empresa em relação ao seu setor de atuação e de suas empresas concorrentes.

Assim, pode-se resumir essa metodologia através das seguintes equações:

Valor Econômico Da Empresa = Fluxos Projetados + Perpetuidade
Ou
Vo = VP (Período de Crescimento) + VP (Período de Estabilidade)
Ou
Vo = VP (Valor Explícito) + VP (Valor Residual)

O que é perpetuidade?
A perpetuidade é o valor presente dos fluxos de caixa futuros (período estável) – do último exercício projetado para o período explícito até o “infinito”. Ou seja, o método contempla a expectativa de continuidade da empresa. Dessa forma, é considerada a capacidade da companhia de obter sucesso em sua atividade por tempo indeterminado.

Análise Vertical e Horizontal
Através dessas análises podemos visualizar rapidamente variações anormais de contas de uma demonstração financeira, e, assim, elaborar estudos mais detalhados sobre essas anormalidades.

Análise Vertical
O objetivo da análise vertical é poder observar, ao longo do tempo, o comportamento das demonstrações financeiras mostrando a participação percentual em cada exercício social de subcontas em relação a uma conta base que equivale 100%.

Esta análise, ao contrário da análise horizontal, não é afetada pela inflação, uma vez que trata de contas de uma mesma demonstração financeira, e portanto, de valores que encontram-se em moeda de uma mesma data. A idéia é comparar a proporção de cada subconta dentro do cenário global e suas evoluções nas comparações com exercícios diferentes.

Repare no exemplo abaixo. Note que no ano 19X3, o Passível Circulante correspondia a 44,5% do total de Passivos (239.476), enquanto que em 19X5 representava 39,5% do do total daquele ano (275.086):

Exemplo de Análise Vertical

Análise Horizontal
O objetivo do estudo através da Análise Horizontal é comparar a evolução individual das contas que compõem as demonstrações financeiras em períodos de tempos consecutivos.

A análise horizontal pode ser exposta de duas formas. Para exemplificar, consideremos a conta “Clientes” classificada no ativo circulante do balanço patrimonial, cujos valores encontram-se em moeda constante de 31/12/X5, portanto, a variação percentual a ser apurada é real.

Forma 1. Mede a evolução da conta ao longo dos períodos, tomando-se como base o primeiro período em análise.

Exemplo de Análise Horizontal (1)

Forma 2. Mede a variação percentual ocorrida entre dois períodos sucessivos, visando analisar sua uniformidade em relação aos períodos em estudo.

Exemplo de Análise Horizontal (2)

Como podemos observar, o exercício de 19X3 obteve uma variação atípica. O uso das análises vertical e horizontal apresenta importantes informações do comportamento das demonstrações financeiras do passado, presente e oferece subsídios para projeções futuras da companhia.

O espaço é curto para tantos referênciais técnicos. Nossa proposta é iniciá-lo no mundo da análise de ações e precificação, mas fazê-lo com responsabilidade e cuidado. Teremos mais adiante artigos mais profundos sobre alguns indicadores importantíssimos como Preço/Lucro, Índice de Liquidez e Endividamento. Por enquanto, perceba que a infinidade de técnicas pode ser complexa, mas muito benéfica para sua participação no mercado. Não deixe que o “economês” o assuste. Fique de olho e comente.

Os seguintes sites foram usados como referência:

——
Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
Quem é Ricardo Pereira?
Leia todos os artigos escritos por Ricardo

Crédito da foto para Marcio Eugenio.

Aviso: Os textos assinados e publicados no Dinheirama.com não representam necessariamente a opinião editorial do Blog. Asseguramos a qualquer pessoa, empresa ou associação que se sentir atacada o direito de utilizar o mesmo espaço para sua defesa. Também ressaltamos que toda e qualquer informação ou análise contida neste blog não se constitui em solicitação ou oferta de seu autores para compra ou venda de quaisquer títulos ou ativos financeiros, para realização de operações nos mercados de valores mobiliários, ou para a aplicação em quaisquer outros instrumentos e produtos financeiros. Através das informações, dos materiais técnicos e demais conteúdos existentes neste blog, os autores não estão prestando recomendações quanto à sua rentabilidade, liquidez, adequação ou risco. As informações, os materiais técnicos e demais conteúdos existentes neste blog têm propósito exclusivamente informativo, não consistindo em recomendações financeiras, legais, fiscais, contábeis ou de qualquer outra natureza.

Comentários