Finanças pessoais, investimentos e moeda forteGustavo Comenta: “Olá, está sendo muito útil acompanhar o Dinheirama. Estamos vendo o dólar despencar a cada dia, então sugiro um artigo falando das possibilidades que essa queda do dólar traz para investimentos de médio e longo prazo. Estou pensando em comprar uns dólares para, em alta futura, vender. Obrigado.”

Olá Gustavo, obrigado pela visita. Antes de discutirmos as possibilidades de investimento[bb], vamos entender um pouquinho melhor as causas da baixa das verdinhas? Sendo bem objetivo, a principal razão é a alta oferta de dólares no país. São pessoas saindo das aplicações com menor rentabilidade no exterior, empresas novas desembarcando no país etc.

A idéia é “surfar” no ótimo momento econômico do país, usufruindo das altas taxas de juros que mantemos por aqui. Aliás, hoje é dia de reunião do Copom (Comitê de política Monetária) e a expectativa geral é pela manutenção da taxa básica, Selic, em 11,25% ao ano. Uma recente notícia da Folha de S. Paulo demonstra que voltamos ao primeiro lugar dos juros reais mundiais, deixando a Turquia para trás.

Qual foi a notícia que circulou na semana passada envolvendo o mega-investidor Warren Buffett[bb]? Ele investiu no Real e se deu muito bem. Hoje, quase qualquer investidor estrangeiro pode seguir esse caminho. O risco-país caiu e as perspectivas são melhores. Lembre-se que as taxas de juros nos EUA giram em torno de 3% ao ano, algo muito baixo se comparado aos juros brasileiros.

Hoje o país trabalha com seperávit fiscal, metas de inflação, Banco Central (quase) autônomo e, pasmem ou não, com reservas maiores que nossa dívida. Como explica um recente comunicado do Unibanco, o fluxo de capital e alta liquidez, ainda fortes mesmo com a possibilidade de recessão, empurraram o valor do dólar e de outras moedas:

“Entre os diversos fatores que influenciam o preço das moedas, um dos mais importantes recentemente tem sido a forte liquidez mundial, que, apesar da crise de crédito com origem no mercado imobiliário norte-americano, se manteve forte nos últimos meses”

A compra de dólares
Quem aqui nunca guardou dólares? Se não guardou conhece alguém que reservou um pouco de sua economia mensal para comprar dólares, certo? A prática, muito difundida durante os períodos de inflação, servia como uma proteção, uma tentativa de tentar manter o poder de compra. Hoje, ao contrário do que costumávamos observar, quase ninguém está optando pela compra de dólares como investimento.

Você se lembra que, ao final de 2002 e antes da posse do presidente Lula, o dólar chegou a ser cotado a R$ 4? Imagine ter investido na moeda e vê-la sendo vendida a 1,65. Quem manteve os dólares guardados em casa amargou uma perda considerável.

Possibilidades para o dólar
Se investir na moeda americana pode ser ruim, seu reflexo pode fazer muita diferença nas despesas familiares. Um bom exemplo são as viagens internacionais. Quem normalmente planeja suas férias ou viagens com a família tende a pagar muito menos este ano quando quiser se divertir. Com o orçamento[bb] menos comprometido por conta da queda do dólar, sobram alguns reais para mais investimentos.

É muito complicado fazer qualquer prognóstico ou estimativa acerca do dólar. Uma análise fria e cautelosa, combinada à opinião de outros especialistas, sugere que a moeda está chegando em seu ponto limite de queda. Ao mesmo tempo, há certo consenso sobre as parcas possibilidades de expressiva alta. Parece que a moeda está mesmo “estacionando”.

As variáveis são diversas, portanto essa é apenas uma opinião. A recessão norte-americana, o fluxo de capital estrangeiro e a chegada do grau de investimento (este ano ou em 2009) corroboram parte da teoria. O lado negativo é a perda da competitividade da indústria nacional, já que a importação toma grandes proporções.

Dólar como investimento
Com a economia brasileira estável, mais inteligente, previsível e inflação sob controle, a tendência é que os investimentos em moeda nacional sejam mais interessantes no longo prazo (títulos públicos, ações, fundos multimercado etc). Ainda assim, existem algumas opções atreladas ao dólar que você pode querer conhecer:

• Fundos Cambiais: São fundos que buscam acompanhar a variação do dólar por meio de títulos públicos cambiais e papéis que financiam as exportações. A indicação nesse caso é para quem tem dívidas em dólar, família no exterior e quer se proteger de variações da moeda norte-americana.

Veja, na tabela a seguir, como a variação do dólar e dos juros afetam a rentabilidade dos fundos cambiais:

Relação entre Fundo Cambial, Juros e moeda

• Fiex (Fundo de Investimento no Exterior): Também acompanham a variação cambial, pois investem no mínimo 80% de seu patrimônio em papéis da dívida externa brasileira negociada em dólar. É uma alternativa aos fundos cambiais tradicionais, já que sofrem menor pressão da variação do dólar no Brasil. Quando o dólar cai no país, os papéis da dívida externa geralmente sobem no exterior. Por outro lado, costumam render menos que os fundos cambiais quando o dólar dispara por aqui.

Encontrei, no blog do escritor Humberto Veiga, uma reflexão interessante:

“Se você acredita que o dólar vai subir e não sabe ainda onde colocar o dinheiro, o porto seguro é o DI ou a boa e velha Selic”

Traduzindo, a cotação do dólar nesse patamar atual ajuda a controlar a inflação. Aumentar demais o preço do dólar significa maior possibilidade de aumento da inflação. O Banco Central, para segurar a inflação, aumentaria a Selic.

Seja cauteloso diante das alternativas ligadas ao dólar. Com o cenário econômico desenhado até agora, investir em dólar não parece ser algo interessante. Até sexta. Um abraço.

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Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para Marcio Eugenio.

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