Olá amigo leitor, tudo bem? Quem me acompanha já percebeu que não tenho pudores em contar meus tropeços pela vida e os aprendizados resultantes deles. Creio que abrindo o jogo posso fazer estas experiências terem valor também para você e demais interessados em uma vida financeira mais equilibrada.

Pois bem, no caso dos consórcios, não foi diferente. E aqui estou eu não apenas para compartilhar meu conhecimento teórico sobre o assunto, mas principalmente, minha experiência pessoal. Recentemente, eu e o Conrado Navarro gravamos um vídeo sobre esse assunto (você o encontra mais abaixo neste post), e resolvi então complementá-lo.

O básico sobre consórcio

Prática muito comum no país, os consórcios prometem ser uma alternativa barata e simples aos financiamentos tradicionais e CDC (Crédito Direto ao Consumidor). Há consórcios para praticamente tudo, desde os óbvios para automóveis e imóveis, até para viagens e eletrodomésticos.

O princípio é simples: digamos que um grupo de 30 pessoas tem um objetivo em comum, como comprar o CARRO X que custa R$ 30 mil, mas nenhuma delas tem todo o dinheiro. No entanto, cada uma consegue dispender a quantia de R$ 1000,00 por mês para pagar pelo carro.

Assim, juntando as parcelas de todos os interessados, durante 30 meses, cada uma delas vai poder comprar um CARRO X por mês. Simples e fácil, certo? Seria, se fosse garantido que todos iriam continuar pagando até o trigésimo mês, o que não é simples em um grupo tão grande.

E é aí que os bancos e empresas de consórcio surgiram, para fazer a coisa toda funcionar e garantir que os pagantes recebam o bem contratado. Mas há outros fatores que também devem nos chamar atenção, tais como:

  • A variação do valor do bem, isto é, o CARRO X não vai custar daqui a 30 meses o mesmo que custa hoje, e todos querem o mesmo carro;
  • A definição da aleatoriedade de quem será contemplado, sem favorecer ninguém.

Não preciso dizer que essa virou uma indústria milionária e que as empresas “mordem” sua fatia para profissionalizar essa que podia ser uma “ação entre amigos”. Para administrar tudo isso, as administradoras acrescentam entre 15 a 20% sobre o valor do carro (nosso exemplo). Você pode pensar que “com os juros altos praticados aqui, ainda parece uma boa ideia”. Calma.

Leitura recomendada: Carros: planilha (gratuita) para você controlar os gastos – cada vez maiores no Brasil!

O que aprendi (na marra) sobre consórcio

Era o ano de 2012, e não fazia muito tempo que meu filho havia nascido, assim resolvemos que um carro maior e mais seguro era “necessário”. Eu já conhecia o sistema, tinha comprado outro carro assim e, até então, era um ferrenho defensor dos consórcios.

Mas, o que ninguém conta são os “poréns” e, tamanha a ânsia de realizar um sonho, eu não parei para pensar neles (por isso sempre repito que custa caro não ter educação financeira; sai mais caro ainda ter e ser leniente).

Peguei uma carta de R$ 96 mil, dei um lance de R$ 40 mil e pagaria assim 60 parcelas de R$ 1.173,00. Era um grande negócio, pois o custo total era de 15% sobre o valor da carta, ou seja, R$ 14.400,00 calculado como juros simples (R$ 96 mil + 15%, dos quais 3% é para o fundo de reserva que é devolvido no fim sem qualquer correção).

Mas considerando os 15%, fazendo a conta reversa usando juros compostos, eu “financiei” R$ 60.000,00 a uma taxa de 0,54% a.m. Minha carteira de investimentos rendia em média 1,1% ao mês. E, ainda, o CDC com menor taxa que encontrei na época, incluindo todos os custos, era de 1,28% a.m. Deixar o dinheiro aplicado e fazer o consórcio era a escolha óbvia, certo? Não tão rápido!

Claro que quem vende o consórcio não dá muita ênfase na parte “variável” da coisa, que é justamente o fato de a carta de crédito ser em cima de um bem específico. Na prática, todos os consorciados precisam ser capazes de adquirir aquele bem e é aí que a coisa ficou desagradável.

Em pouco mais de um ano, a parcela já tinha saltado para R$ 1.400,00. Depois R$ 1.550,00 e hoje, faltando 11 parcelas, estou pagando R$ 1.900,00 por mês. Se o valor se mantiver no patamar atual pelos próximos 11 meses, minha parcela média terá sido de R$ 1600,00, isso significa que o custo efetivo final será de 1,69% ao mês, portanto mais caro do que eu teria pago se tivesse feito um empréstimo (ainda pior foi não ter pago à vista).

Quem vende não é “bobo” para ressaltar essa questão, como também o fato de não haver abatimento caso queira quitar. Outra coisa que não se fala é sobre o grande montante financeiro que você terá que dispor para contemplar sua carta através de lance, e assim, não ter que esperar ser sorteado.

Ah, eu já ia me esquecendo: se a modalidade já não é bom negócio se usada como financiamento, isto é, contratar e dar um lance para poder adquirir o bem o mais rápido possível, pior ainda quando o sujeito adquire para esperar ser contemplado.

Leitura recomendada: Carros: precisamos (mesmo) trocar tanto?

Consórcio não é investimento

Eu já ouvi alguém dizer que é “como é uma poupança”. Não amigo, nem de longe é uma poupança. Poupança pressupõe que seu dinheiro seja remunerado e no caso do consórcio, você está remunerando o banco.

Em números: se você aplicasse R$ 1.000,00 por mês na poupança, ao final do ano você teria R$ 12.404,00, dos quais R$ 404,00 em juros. Já num consórcio, você teria R$ 10.200,00, uma vez que pagará a administradora 15% sobre o valor da carta. É um cálculo “de padaria”, mas serve para ilustrar as diferenças.

Isso sem contar que suas parcelas podem subir a qualquer momento, aumentando sua dívida. Deixando claro: consórcio é uma forma de antecipação de consumo (como um financiamento) e, portanto, jamais pode ser confundido com investimento.

Hoje, depois de duas experiências frustrantes e caras com consórcio, vejo que se realmente precisar de um bem, mas não tiver dinheiro para comprar à vista, talvez escolha o financiamento (CDC), principalmente para prazos alongados; é um negócio mais previsível, embora mais caro à primeira vista.

Financiar exige um desembolso muito menor no início e caso tenha dinheiro para dar uma entrada grande, as condições melhoram mais. O raciocínio vale também para o caso dos imóveis, que exigem em torno de 50% do valor da carta para dar de lance e cujas parcelas são corrigidas de acordo com o INCC (Índice Nacional da Construção Civil).

Em uma economia como a nossa, não é bom ter nenhuma dívida que seja corrigida além da taxa contratada. Lembrando que os financiamentos imobiliários são corrigidos pela T.R., além dos juros contratuais.

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Conclusão

Então, estimado amigo, resumindo meu sentimento em uma palavra: fuja! Consórcio é mais uma das muitas armadilhas do nosso sistema financeiro, que se aproveita do imediatismo, da falta de informação e de atenção da maioria dos brasileiros.

Consórcios são imprevisíveis como os financiamentos atrelados ao dólar do início do plano Real (conheço muita gente se deu mal). Ok, posso ter exagerado, mas repito: é no mínimo inconsequente ter qualquer tipo de dívida, atrelada a índices que variam, sobretudo em terras tupiniquins.

É óbvio que não estou aqui para demonizar os consórcios, financiamentos e similares, mas apenas para dividir com você uma experiência pessoal e a minha opinião sobre o que passei. O objetivo é somar, de modo que você possa tomar sua decisão reunindo o máximo de informações possíveis.

A propósito, falei do vídeo que gravei com o Navarro sobre este tema, e ele está aqui:

Como não dá para falar tudo em apenas um texto, se você tiver dúvida ou quiser acrescentar algo, deixe seus comentários que responderei com prazer.

Grande abraço e até a próxima!

PS: Aqueles que viram meu vídeo no Café com Finanças falando que consórcio é um bom negócio – embora eu tenha alertado para a parte variável – deixo aqui minha retratação pública; eu estava errado.

Foto “Car agent”, Shutterstock.

Renato De Vuono
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