Juros CompostosMe ofereci para analisar e comentar, aqui no Dinheirama, o que sai na imprensa em geral sobre finanças pessoais. Não, não vou concorrer com o Arthur Gouveia, que, com muito talento, resume o noticiário da semana. Mas sempre que ler algo que acho que valha à pena comentar a respeito vou mandar pro Navarro e ele decide se sai por aqui ou não. Combinado?

Quando eu achar bom, elogio. Mas se não gostar do que li, falo mal! Sem pudores! E na minha estréia, vou começar pegando no pé! Existe uma máxima no mundo das finanças que diz que quanto maior o risco, maior a rentabilidade. Quando esta frase foi dita pela primeira vez, seu autor poderia estar apontando para uma bolsa de valores[bb] sem medo de errar. O problema é que normalmente só vemos as pessoas falar da segunda parte: a da rentabilidade, deixando o risco para segundo plano.

A imprensa não é diferente de nós. Os jornais, revistas, TVs, rádios, sites não são criados para mudar o mundo. São poucos os títulos encontrados nas bancas para fazerem os leitores pensarem e agirem diferente da grande maioria. Vou usar um exemplo recente e mostrar maios ou menos como isso funciona e, quem sabe, alertar os fiéis do Dinheirama sobre como devem ler os jornais.

A polêmica ensina!
Minha intenção não é sublevar as massas contra o poder constituído. Afinal, concordo com meu colega jornalista Ancelmo Góis, do jornal O Globo, que disse outro dia numa entrevista que, quando começou na profissão “queria mudar o mundo, hoje me contento se conseguir fazer com que a prefeitura não deixe estacionarem o carro na calçada”.

O que quero, ressalto, não é dizer que a imprensa só fala bobagens e que ninguém deve dar bola para ela. Muito pelo contrário. A intenção é mostrar como é importante se crítico com o que nos oferecem. Eu mesmo tomo minhas decisões de investimento[bb], voto, diversão etc muito influenciado por ela. Leio jornais, assisto TV e ouço rádio todos os dias e passo boa parte do tempo na internet. Acho também que, se algo está no mundo e tanta gene gosta, alguma utilidade tem. Por outro lado, uma das primeiras lições que tive na faculdade foi “desconfie de tudo”.

O exemplo de hoje
A revista Época desta semana traz na capa a manchete “Ganhei um milhão na bolsa”. São 15 páginas sobre renda variável. Nas seis primeiras, exemplos de gente que teve muito, alguns estrondoso, sucesso investindo em ações. Tem um jovem na capa que teve infância pobre, passou dificuldades na juventude e acabou rico botando grana na Bovespa. Outra personagem é uma mulher que cuida das finanças da casa, fundou um clube de investimentos e ensinou as manhas[bb] aos dois filhos adolescentes.

É claro que são pessoas de verdade e estão na revista por esforço de apuração, entrevista e redação de bons jornalistas. Mas bem que a reportagem poderia mostrar que tem gente que perde muito, contanto também o quê fez de errado pra gente aprender pra valer.

Depois, encontra-se um guia do Mauro Halfeld (vale à pena ler a coluna semanal dele na Época mesmo e ouvi-lo diariamente na rádio CBN) com treze perguntas e respostas sobre ações, uma página com uma seleção de frases inteligentes, simples e bem humoradas do Warren Buffet (êta, velhinho esperto, viu?), o terceiro homem mais rico do mundo (a revista esqueceu que o mexicano Carlos Slim, que no Brasil é dono da Embratel e da Claro, passou na frente até do Bill Gates e diz que Buffet é o segundo bolso mais cheio do mundo). E, no final, a análise de gente do mercado sobre quinze ações promissoras para 2008.

A pulga atrás da orelha
A matéria é bem escrita. A Época não contrata qualquer um (tem que ser bom de texto e de apuração!). Mas reforça a tese do segundo parágrafo: não foi feita para questionar nada, mas reforçar que a bolsa é um excelente investimento. E é mesmo! Acho que ninguém que tem uma graninha hoje deve ficar de fora.

Mas me intrigou que a palavra risco aparecesse tão pouco. Ao todo são 18 vezes. Ora, ao longo de catorze páginas, descontados os anúncios publicitários[bb], dá para amontoar um montão de palavras. Para ajudar, “risco” não aparece nas primeiras páginas. Nenhum dos personagens sequer cita algum método de prevenção de perdas. Só vai aparecer na terceira página, mas aí não conta porquê é para dizer exatamente o contrário: que “em breve, o Brasil deve receber o tão esperado grau de investimento das agências de classificação de risco”. Quer dizer: tudo às mil maravilhas!

Tá bom! Sei que posso estar sendo rigoroso! Mas em tempo de subprime, não falar no assunto foi um erro! Parece até que é passado! Não é! Na semana que passou, o UBS (um banco suíço que, aliás, comprou o ABN Amro, dono do Banco Real) anunciou que ficou no vermelho por ter investido em derivativos dos contratos de crédito dado a alguns americanos malucos que nunca teriam nem caderneta no mercadinho da esquina. E tem gente dizendo que mais bancos devem vir morro abaixo. Bem como diz o Buffet:

“O gênio dos derivativos está há algum tempo fora da garrafa e esses instrumentos vão certamente se multiplicar em variedade e volume até que aconteça alguma coisa que torne clara sua natureza tóxica”

O mérito vai, aliás, para a página com as frases dele e para o texto do Mauro Halfeld, uma voz sensata no ouvido do pequeno investidor. É na matéria dele que a palavra “risco” aparece mais vezes e pela primeiro de verdade:

“É uma aplicação de risco. Pode oferecer grandes ganhos – ou também grandes perdas”

É bom ficar de olho e ouvido bem atento ao que andam dizendo por aí! A reportagem é bacana, os exemplos interessantes, mas o risco continua existindo. Entrem sim na Bolsa, mas lembrem-se de estudar muito bem seu funcionamento. Bons negócios!

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Lúcio Costi Ribeiro é gaúcho, jornalista e mora em Brasília, além de adorar a cidade! Começou a estudar finanças para cuidar do próprio bolso, gostou e resolver escrever sobre dinheiro. Já fez boletins enviados para mais de 2 mil rádios do país e agora escreve sobre como a imprensa trata o pequeno investidor. Ah, tem fama de pão-duro, mas jura que apenas gasta menos que os outros.

Crédito da foto para Marcio Eugenio.

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