Caderneta de poupança: investir ou não? Por que?André comenta: “Navarro, sou um pequeno investidor que está de olho na caderneta de poupança. Tenho alguns objetivos de curto prazo, mas não sei se optar pela poupança agora pode ser interessante por conta das anunciadas mudanças que vem por ai. É sobre isso que quero sua opinião: o que o investidor deve saber sobre as mudanças na poupança ou em torno de sua rentabilidade? A caderneta é uma boa opção se comparada à maioria dos fundos de renda fixa? Muito obrigado”.

Dadas as condições econômicas atuais e o cenário que se desenrola, a caderneta de poupança é uma ótima alternativa de investimento! Começo o artigo com esta afirmação para que minha opinião fique bem clara: se você é do tipo que investe em fundos de renda fixa tradicionais, cujas taxas de administração são maiores que 1,5% e onde há incidência de Imposto de Renda, faça uma boa avaliação de sua rentabilidade líquida. As chances de seu valor ser inferior ao atual patamar de retorno da poupança é grande.

Pronto, a esta altura você já deve estar pensando: “Então vou tirar tudo da renda fixa e migrar para a caderneta de poupança”. Calma, interpretação de texto, um pouco de cautela e algumas continhas é que selarão esta possível decisão. Este artigo traz um panorama das aplicações em caderneta de poupança e informações úteis para que você decida-se de forma coerente. Um pouco de realidade faz bem: para alguns investidores[bb], a poupança está muito atrativa, para outros ainda existem produtos mais interessantes e de risco também baixo. Vamos entender melhor tudo isso?

O momento da caderneta
Excluídos os meses de dezembro – momento em que os depósitos em caderneta aumentam por conta do 13o. salário -, a poupança teve, em julho deste ano, sua maior captação desde 1994. A entrada líquida de recursos chegou a R$ 6,67 bilhões no mês. A captação completa três meses seguidos com mais aportes que retiradas. Traduzindo, mais gente está optando pela caderneta em detrimento de outras modalidades conservadoras de investimento.

Mas, não! Não chega a ser a tão falada migração de recursos de fundos de investimento. No mesmo mês, os fundos DI e de renda fixa também tiveram captação positiva de R$ 1,47 bilhões, segundo dados da Anbid (Associação Nacional dos Bancos de Investimento). Além disso, os recursos aplicados na poupança são bem menores que os atualmente investidos na indústria de fundos: R$ 290 bilhões contra R$ 1,291 trilhão.

De olho em agosto, setembro, outubro…
A ordem no governo parece ser simples: observar com atenção e torcer. Torcer para que o equilíbrio nos saldos das aplicações seja atingido e que os aportes na poupança não prejudiquem os fundos de investimento. Torcer para que a tal migração não ocorra. Envolver a população em uma reforma na caderneta de poupança, ainda que nos moldes já apresentados, pode trazer reflexos políticos preocupantes – 2010 é ano de eleições, não é? Estas e outras novidades sobre investimentos[bb] vão depender das captações nos próximos meses.

Parece que o Banco Central considera importante enviar logo ao Congresso o projeto que estipula tributação para a caderneta de poupança (em valores acima de R$ 50 mil) e também as novas regras de tributação para os fundos de renda fixa. O interesse parece ser coerente, já que, segundo apurou a Folha de S. Paulo, o simples envio dos projetos já seria suficiente para lançar ao mercado a mensagem de que, em algum momento, a rentabilidade da poupança será revista. A Fazenda dá outro recado:

“Por enquanto, na nossa análise, o movimento ainda está dentro do normal. Você teve um aumento de captação na poupança, mas também teve um aumento de captação de todos os fundos. (…) O Brasil está mudando para uma situação de baixa taxa de juros e, eventualmente, a poupança vai ter que ser reformulada, mas quando e como é uma questão em aberto” – Nelson Barbosa, secretário de Política Econômica da Fazenda, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo de 08/08/2009.

Tudo indica que mexer na caderneta de poupança não parece ser atividade de grande interesse por parte do governo. Fica a impressão de que se a mudança puder ser adiada, será. A mudança prevê cobrança de IR para investidores que mantém mais de R$ 50 mil na caderneta de poupança, o que atinge uma parcela pequena da população – mas não pequena dos recursos. Logo, para o pequeno poupador pouco deve mudar, com ou sem o atual projeto. Se confirmada a tendência de juros baixos, pode ser que maiores mudanças estruturais no cálculo tenham que ser feitas. Provavelmente, em outro governo.

O que deve fazer o investidor?
Como costumamos sempre defender, informação é fundamental para que suas decisões sejam assertivas. Dito isso, listo alguns dos princípios que tenho compartilhado com amigos e clientes quando o assunto é o investimento na caderneta de poupança:

  • Defina bem o objetivo e seu prazo. Pode ser que o capital que você queira investir na poupança só vá ser usado no médio prazo. Neste caso, avalie a possibilidade de conhecer produtos de carteira mista, conhecidos como fundos multimercado;
  • Faça bem as contas. Simplesmente tirar o capital hoje alocado em fundos de renda fixa pode não ser vantajoso, especialmente se você optou por fundos de curto prazo e onde as alíquotas de IR são maiores. Ao avaliar a possibilidade de migração, veja em que faixa de cobrança de IR você se enquadra e considere a possibilidade de esperar pelo prazo em que a taxa for menor;
  • Cuidado com as taxas de administração. Já está em curso um movimento de mudança nas regras de investimento de fundos. Bancos e instituições financeiras começaram diminuindo o valor de aporte inicial de produtos cujas taxas de administração já eram mais baixas. Se você está em um produto que cobra mais do que 2% ao ano, a poupança pode ser bem mais interessante – ainda que você tenha que recolher IR para sair;
  • Considere outras alternativas de investimento. Investir em títulos públicos, conhecidos agora como Tesouro Direto, é também uma decisão inteligente. Como as taxas e encargos são bem mais baixos que os encontrados nos fundos, hoje a rentabilidade final – atrelada à Selic ou à indicadores de inflação – tende a ser superior que a encontrada na caderneta de poupança.

Diante de tudo isso, lembre-se da possibilidade de mudança em todo este cenário. Apesar de não estar sendo cogitada, pode haver mudança na cobrança de IR de fundos de renda fixa; pode ser que as mudanças na poupança sejam mesmo levadas ao Congresso; pode ser que os bancos diminuam suas taxas de administração de forma mais agressiva. Por isso frisamos tanto que não adianta apenas conhecer o produto. É preciso se interessar também pelos rumos da economia[bb], pelo cenário atual e pelas possibilidades para o futuro. Em outras palavras, quero dizer que o plano de investimentos deve ser periodicamente revisto. Até a próxima!

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Conrado Navarro
, educador financeiro, tem MBA em Finanças e é mestrando em Produção (Economia e Finanças) pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor do livro “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec),  Navarro atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente.

Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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