Uma das frases mais marcantes do grande investidor Warren Buffett é no sentido de que “o que a gente aprende com a História é que as pessoas não aprendem com a História”.

Por isso, para entender o quadro atual do mercado automotivo e alguns dos possíveis resultados futuros, é essencial voltarmos um pouco no tempo. De fato, algumas coisas que oferecem grandes riscos podem se repetir.

Desde os anos 50, algumas marcas de veículos chegaram e depois partiram do mercado nacional. Algumas venderam suas fábricas, outras foram incorporadas e também houve vários casos de opção pelo fim das importações para o Brasil.

Em décadas mais distantes, tivemos no Brasil marcas como International, DKW, Dodge Studebaker etc. Especificamente no mercado de carros, chegando aos anos 80, o mercado era bastante restrito às quatro grandes fabricantes (GM, Volkswagen, Ford e Fiat).

Com a “abertura econômica” promovida pelo governo Collor, o cenário alterou-se consideravelmente, com a chegada de diversas marcas importadas. Curiosamente, o processo de impeachment do presidente Fernando Collor teve como figura central um Fiat Elba.

No início dos anos 90, começaram as importações independentes. Posteriormente vieram as importações oficiais e a instalação de novas fábricas, como as da Renault, Honda e Toyota.

Logo após o início do Plano Real, também houve uma enxurrada de importações, motivadas inclusive pela paridade cambial da época. Por conta disso, o presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a declarar “A farra de importar carros vai acabar”, conforme publicado no O Globo da época.

O cenário para as importações, embora mais restrito, permaneceu interessante até 1999. Nessa época, chegaram muitas marcas diferentes, como Daewoo, Daihatsu, Isuzu, Mazda, Kia, Hyundai e etc.

Contudo, após a maxidesvalorização do real em 1999, a situação começou a se complicar e todas essas marcas acima citadas, bem como outras como a Suzuki, encerraram suas operações no Brasil (embora algumas tenham voltado posteriormente).

Em muitos casos, com a manutenção completamente inviabilizada, muitos desses carros acabaram abandonados ou sucateados.

Quando deixou de importar carros para o Brasil em 2003, a Suzuki declarou que “a decisão foi motivada pela desvalorização do real e a consequente perda de competitividade comercial”, conforme veiculado na Folha naquela ocasião.

Você, que é um leitor inteligente e bem informado, certamente percebeu algo familiar no parágrafo anterior. Afinal, novamente estamos vivendo tempos difíceis na economia e com forte desvalorização cambial.

Prosseguindo na nossa história, um novo marco foram os incentivos governamentais que ocorreram após a crise de 2008. De forma artificial, nosso mercado se ampliou consideravelmente. Isso atraiu novos investimentos no setor.

Contudo, em 2011 houve um golpe fatal para as importações com a sobretaxa de 30% do IPI, além das restrições às remessas vindas do México. Com isso, as marcas sem fábrica no Brasil sofreram um imenso impacto e uma acentuada queda nas vendas, que persiste até hoje. Isso foi bem forte no caso das chinesas.

O atual momento e o que vem pela frente

Para compreender tudo que está ocorrendo recentemente, recomendo a leitura atenta do artigo que escrevi aqui no Dinheirama em abril de 2014, com o título: O mercado no caminho de uma crise? (clique para ler).

Acrescente-se que os preços dos carros, bem como seus impactos financeiros, não param de subir, como destaquei no meu último artigo – Os preços dos carros estão cada vez mais absurdos.

Isso tudo tem contribuído para um colapso nas vendas. O primeiro bimestre de 2015 trouxe resultados catastróficos para a indústria automotiva. Os carros, por exemplo, tiveram uma impressionante retração de 23%. Para quem quiser se aprofundar, vale a leitura deste excelente artigo, do Raphael Galante, publicado no Infomoney.

Considerando que não existe nenhum fator positivo que altere todo esse quadro no horizonte, as perspectivas tendem a ser ainda piores.

Por conta dessa situação, é altamente provável que algumas marcas revejam seus planos para o Brasil. Aliás, quando a Acura desistiu de vir para o Brasil no ano passado, eu comentei que era uma decisão acertada.

Agora, para você consumidor, o mais importante é avaliar se a marca do seu carro (ou principalmente do que você pretende comprar) corre o risco de deixar o Brasil. Para tanto, é válido observar o seu retrospecto (se já deixou o Brasil no passado), bem como a situação das suas vendas. Outro ponto relevante é se informar sobre a sua representação no Brasil.

Nesse ponto, é fundamental lembrar que, apesar de termos mais de cinquenta marcas no nosso mercado, poucas delas concentram mais de 80% da participação no mercado.

Além disso, a competitividade comercial precisa ser levada em conta num cenário de alta da inflação e dos juros, aumento no preço da energia elétrica (boa parte dos custos dos carros decorrem do uso de energia) e desvalorização do real.

Até quando determinadas marcas menores, principalmente as que importam seus carros e não têm fábrica no Brasil, conseguirão sobreviver com margens cada vez mais pressionadas? E como ficará a rede de concessionárias? E o atendimento e oferta de peças e serviços?

Essas são perguntas sem respostas definitivas por enquanto. Mas é bastante recomendável levar em conta esse contexto na hora de definir pela manutenção do seu carro ou compra de outro.

Conclusão

Como você já sabe, temos os carros mais caros do mundo para comprar e manter. Com o atual cenário de instabilidade econômica e provável agravamento da crise, as suas decisões de consumo precisam ser ainda mais conscientes.

Para mim, tem sido bastante gratificante ter contato com os leitores do meu livro digital, o “Como Escolher o seu Carro Ideal” (clique agora para conhecer), e ficar sabendo que eles estão atentos para verificar todos os pontos relevantes na hora de definir qual carro comprar.

O livro traz um roteiro completo para uma decisão inteligente e inclui a recomendação para verificar o histórico de confiabilidade das marcas, justamente pensando na importância desse aspecto nos momentos de turbulência econômica.

Para ilustrar como as possibilidades acima discutidas podem ser plausíveis, na edição da Revista 4 Rodas do mês de março de 2015, na página 51, numa matéria sobre o Kia Picanto, foi publicado o seguinte:

“No fim das contas. A penúltima colocação do Picanto tem mais a ver com a situação da Kia no Brasil do que com o carro em si. Hoje, o medo de comprar um veículo da marca e ficar à mercê de uma rede minúscula ou mesmo órfão com uma saída dela do Brasil desencoraja a clientela.”

Evidentemente, quando uma fabricante deixa o país, como tem sido comum até em países mais desenvolvidos como a Austrália, há uma série de impactos. Os principais são decorrentes da falta de assistência e peças, que acarretam reflexos no seguro e na desvalorização. Por isso, é importante procurar evitar esses transtornos que podem custar caro.

Muito obrigado pela atenção, um grande abraço e até a próxima!

PS: Recentemente, o livro digital “Como Escolher o seu Carro Ideal” foi tema de uma entrevista que concedi para a Claudete Troiano, no Programa Santa Receita, exibido pela TV Aparecida. Se você quer saber mais sobre o tema, convido a assistir às dicas comentadas:

PPS: Para facilitar o controle dos gastos com o seu carro, eu elaborei uma planilha completa e de fácil preenchimento. Ela permitirá cuidar melhor do seu orçamento e você pode baixá-la agora, gratuitamente, no seguinte link: →  http://bit.ly/PlanilhaCarro

Foto “Blonde woman in car”, Shutterstock.

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