Carros: O fator segurança e o bilionário que anda de popularNa condição de seres humanos, não fomos concebidos para trafegar nas altas velocidades atingidas pelos carros atualmente. Por conta disso, o tema segurança automotiva deve ser tratado como prioridade. Como prometido nos artigos anteriores, chegou o momento de abordar o assunto com mais detalhes.

Numa breve perspectiva histórica, aproximadamente em 1911 foi publicado, salvo engano, um estudo segundo o qual jamais poderíamos transitar a mais de 62 km/h. Em um dos livros do Domenico de Masi, recordamos da citação de um poema, de 1937, que expressava algo como “e os carros passavam a toda velocidade a 70 km/h”.

Evidentemente, é possível perceber como as coisas mudaram. Mas uma coisa não foi alterada: o nosso corpo.

Esse é o contexto básico que torna o tema tão importante. Apesar da relevância, a segurança automotiva no Brasil está longe de receber a atenção que deveria de todas as partes envolvidas, isto é, fabricantes, governo e consumidores.

A prioridade da segurança em relação às finanças

Neste momento, talvez você esteja se perguntando o motivo desse assunto ser tratado aqui no Dinheirama, cujo foco é relacionado com as finanças pessoais. A resposta é que, considerando a nossa série de artigos sobre o tema “Seu Carro e seu Bolso”, entendemos que o fator segurança deve ser tratado com prioridade inclusive em relação às finanças. Essa conclusão baseia-se no fato de que os valores “vida” e “saúde” estão acima de todos os outros.

Destacamos que essa prioridade não significa que o aspecto financeiro deve ser deixado de lado. Não é isso, até porque defendemos com veemência a escolha de carros com inteligência financeira. Apenas consideramos que a economia deve ser conciliada de acordo com uma escala de fatores no momento da compra. Abordamos o assunto com mais profundidade no artigo: “Você compra seu carro por necessidade, status ou pelo preço? Ou tudo isso?”

Aliás, no título do atual artigo, é possível reparar que fizemos uma alusão aos casos de bilionários que andam de carro popular no Brasil. Sim, eles existem e, às vezes, surgem notícias na mídia a respeito disso. Aliás, esse tipo de comportamento é visto com mais frequência quando tratamos de milionários.

Adicionalmente, há muitos casos de pessoas que, em busca da independência financeira a todo custo, resolvem ter carros populares eternamente pensando exclusivamente no dinheiro. Mas será que essas atitudes merecem ser enaltecidas? Será que essas pessoas devem servir como modelo?

A resposta é negativa. Não visualizamos nada de admirável na escolha de um popular quando a pessoa tem amplas possibilidades financeiras de adquirir carros melhores e, principalmente, mais seguros. Novamente questionamos: o que vale mais, a vida e a saúde ou os outros bens e o dinheiro?

Evidentemente, sabemos que um carro mais seguro não elimina todos os incontáveis riscos aos quais os passageiros estão submetidos. Mas é possível minimizar consideravelmente esses riscos, que variam bastante de acordo com as especificidades de cada veículo.

A (in)segurança dos carros no Brasil

As nossas conclusões levam em conta as peculiaridades do mercado automotivo brasileiro, onde a maior parte dos carros (principalmente populares) apresenta padrões de segurança precários e com décadas de atraso em relação aos similares europeus e americanos.

Aliás, são conhecidos alguns exemplos de pessoas ricas, residentes em países desenvolvidos, que têm carros compactos e de entrada. No entanto, destacamos que se trata de uma realidade completamente diferente da existente no Brasil.

Para ilustrar o atraso brasileiro, somente em 2014 haverá a obrigatoriedade de airbag duplo e freios ABS. Esses itens já estão presentes há muitos anos nos carros dos mercados de Primeiro Mundo, onde em breve haverá a obrigatoriedade de itens ainda mais avançados, como Programa Eletrônico de Estabilidade (ESP) e sistemas de frenagem autônoma.

Adicionalmente, frisamos que os problemas não estão apenas concentrados no segmento dos populares. Por estarmos num país emergente, temos vários projetos que jamais rodariam atualmente em mercados desenvolvidos. Há casos de veículos cujos projetos têm décadas de idade e outros de carros baseados em gerações extremamente ultrapassadas no exterior.

Ainda assim, existem alguns avanços importantes na nossa região. O principal deles foi a criação do LATIN NCAP com o propósito de avaliar e contribuir para a segurança dos carros vendidos na América do Sul e Caribe. A entidade já promoveu três rodadas de crash-tests (testes de colisão), trazendo para cá esse procedimento que já acontece há tempos nos países desenvolvidos.

Na semana passada, foram inclusive divulgados novos resultados, que reiteraram o fato de que a maioria dos carros compactos apresenta sérios problemas de segurança no Brasil, existindo veículos que ficaram com apenas uma estrela (das cinco possíveis). Como alento, um popular obteve 4 estrelas e outro carro recém-lançado já conta com air-bag duplo e ABS de série em todas as versões.

O foco na segurança também é acentuado em razão das péssimas condições da infraestrutura das nossas ruas e estradas. Além disso, considerando a matriz do transporte pesado nacional, temos um excesso de caminhões e ônibus, o que requer mais segurança dos carros de pequeno porte.

Outro fator que estamos observando é o aumento da distração dos motoristas ao volante, principalmente em função da proliferação de smartphones e outros gadgets. Ainda em decorrência da era digital, vemos muitos casos alarmantes de exibicionismo gravados em vídeo, envolvendo, por exemplo, motos e carros esportivos, além de caminhões.

Por fim, todos esses aspectos são intensificados pelo desrespeito às leis de trânsito e pela impunidade observada no Brasil.

Você e a escolha de um carro seguro

Para alterar o quadro acima retratado, o consumidor também tem um papel importante, considerando que as suas prioridades e exigências são fundamentais para balizar o mercado. Realmente a segurança merece mais atenção por parte do brasileiro, que costuma sobrevalorizar aspectos estéticos e de conforto.

Por exemplo, temos o caso de um popular que, no começo da década passada, contava com airbag duplo de série. Mas o carro não emplacava no mercado e, mais recentemente, a fabricante resolveu “depenar” o modelo, realizando a exclusão do item. Curiosamente, o carro mais defasado e inseguro tem vendido mais, o que demonstra as anomalias do nosso mercado.

Analisando-se o processo de escolha de um novo veículo, entendemos que comprar um carro não é tão simples quanto “jogar Super-Trunfo”. Para quem não conhece ou não se lembra desse jogo, ele era composto por cartas e, em cada uma delas, havia um veículo acompanhado de seus dados técnicos. Na disputa, bastava comparar abstratamente os números.

Porém, na realidade, as coisas são mais complexas. Ilustrativamente, os resultados do Latin NCAP revelam que alguns carros com airbag duplo conseguem a proeza de serem teoricamente menos seguros do que outros que não têm o dispositivo.

Por isso, nós da Carro e Dinheiro defendemos a importância de uma análise global e detalhada de um conjunto de fatores para a escolha de um carro pensando na segurança. Na elaboração dos relatórios para os clientes da nossa consultoria automotiva pessoal, procuramos atentar para os seguintes itens que consideramos fundamentais para todos os compradores:

  • Resultados do modelo em crash-tests: no Brasil (LATIN NCAP), nos Estados Unidos (NHTSA e IIHS), na Europa (EURONCAP), no Japão (J-NCAP) e Austrália (ANCAP).
  • Histórico da marca no Brasil e exterior: análise do retrospecto de segurança dos modelos e do respeito ao consumidor, bem como das diretrizes comerciais atuais da fabricante. Recentemente, o amigo @Navarro nos perguntou no Twitter se um mega recall de uma montadora era algo preocupante. Respondemos que o que nos preocupa efetivamente são as marcas que não fazem recall, numa demonstração clara de que não zelam pela segurança de seus clientes. No Brasil, temos vários casos de problemas reconhecidamente crônicos em determinados veículos e algumas fabricantes se recusam (ou se recusaram até onde puderam) a fazer o chamado para reparo.
  • Características do projeto e da sua estrutura: verificação da idade da geração e se o projeto é global, para países emergentes ou apenas para o Brasil. Os carros destinados a mercados menos exigentes podem ter problemas adicionais relacionados à estrutura de absorção de impactos. Por exemplo, temos no mercado um carro que se baseia num projeto semelhante ao existente na Europa. Lá o carro obteve quatro estrelas no crash-test do EURO NCAP. Porém, o vendido aqui somente conseguiu duas no Latin NCAP. Isso demonstra que, apesar das semelhanças, há menos resistência estrutural decorrente do emprego de materiais de qualidade inferior, menos pontos de solda, menos reforços etc.
  • Características do comportamento dinâmico: principalmente referentes à estabilidade e capacidade de frenagem.
  • Itens de segurança ativa (que visam evitar o acidente) e passiva (que objetivam minimizar as consequências do acidente): tais como air-bags frontais e laterais, ABS, BAS, EBD, ESP, controle de tração, ISOFIX etc.

Para ilustrar, gostaríamos de mencionar um caso de uma pessoa que assessoramos. Basicamente, em função da profissão, ela precisava de um carro robusto e seguro para enfrentar off-road frequentemente e também adequado para viagens longas. Ainda, existia limitação financeira para o preço de compra.

Por várias razões, foi sugerido um utilitário importado, de uma geração passada, que contemplava uma série de aspectos técnicos importantes e, acima de tudo, era 4 estrelas nos crash-tests internacionais.

Ela efetivamente comprou o carro, pagando o preço de um veículo popular, e foi bem feliz por seis meses, até uma noite em que colidiu contra um muro. Apesar da perda total, todos os ocupantes saíram ilesos. Isso é bem importante para nós, porque o resultado poderia ser bem diferente em outro carro.

Afinal, na própria mídia temos inúmeros casos relatados de ferimentos graves e mortes de pessoas que estavam em carros populares, principalmente sem air-bag frontal.

Dessa forma, caso você não tenha condições de comprar um carro seguro “zero quilômetro”, a melhor opção é a compra de um usado que apresente boas características de segurança.

Contudo, alertamos para o fato de que, por mais equipado e teoricamente seguro, não existem milagres nos casos de acidentes com excesso de velocidade. Por isso, uma conduta cautelosa ao volante ainda é o principal “item de segurança”.

Além disso, as revisões periódicas e uma atenção especial ao estado e calibragem dos pneus também são aspectos de grande importância. Ainda lembramos do cinto de segurança, que sempre deve ser utilizado por todos os passageiros.

Conclusão

Considerando todo o cenário analisado, ficam as reflexões: de que adianta uma fortuna ou a independência financeira se a pessoa anda num carro que pode levá-la à morte numa simples colisão a meros 60 km/h? O que é prioritário?

“A coisa mais importante na vida é saber quais são as coisas mais importantes na vida.” – David F. Jakielo

Finalmente, esperamos que o fator segurança seja tratado como prioridade no momento da escolha de um novo carro. Deixamos aqui a nossa contribuição para que você reflita e escolha com consciência o seu próximo veículo, lembrando-se de conciliar segurança, qualidade e inteligência financeira.

Obrigado pela atenção e até a próxima!

PS: Pensando nas pessoas que dão valor ao seu dinheiro e querem escolher bem os seus carros, foi publicado o livro digital Como Escolher o seu Carro Ideal (clique para detalhes), de minha autoria, que apresenta um roteiro completo para a definição de qual carro comprar, de acordo com o perfil de cada consumidor. Convido você a conhecer mais detalhes do livro clicando aqui.

PPS: Para ajudar você a controlar melhor os gastos crescentes com seu carro no dia a dia, eu também elaborei uma planilha completa e de fácil preenchimento, que pode ser baixada (gratuitamente) no seguinte link: http://bit.ly/PlanilhaCarro

Foto de freedigitalphotos.net.

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