Dinheiro fácilArtigo escrito pelo leitor Enio Luiz Vedovello*

Na letra de “Brasil”, o compositor Cazuza inseriu uma frase que resume muito bem o assunto deste texto: “Meu cartão de crédito é uma navalha”. Embora o sentido dado por ele não fosse o que eu pretendo utilizar, a frase pode ser uma excelente metáfora para este produto financeiro. Se você souber usar, é algo que pode melhorar o seu conforto, como a navalha para fazer a barba. Se não souber usar, bem, imagine uma navalha afiada, manipulada por mãos inexperientes…

Minha intenção é dar algumas dicas para que você possa usar, de fato, seu cartão. Ou, se a situação já estiver calamitosa, conseguir revertê-la. Claro, o assunto é extenso, pode gerar dúvidas e eu não tenho a pretensão de esgotá-lo em meia dúzia de linhas. Até porque, o próprio Navarro já apresentou algumas boas sugestões, parte das quais eu iria falar também. Para não ficar muito repetitivo, eu vou abordar um tema em comum com o texto do Navarro, o limite do cartão e falar de outro que ele não citou mais diretamente: o parcelamento.

Em uma das cenas do filme “Uma linda mulher”, o personagem interpretado pelo Richard Gere é questionado pelo gerente de uma loja a respeito da quantia que pretende gastar com a renovação do guarda-roupas da personagem da Julia Roberts, e responde que é “uma quantia obscenamente alta”. A expressão é adequada para classificar a maioria dos limites de cartão de crédito: obscenamente alto.

É normal a administradora lhe dar um limite igual ou superior à sua renda mensal. Tem bandeira que simplesmente acabou com o limite pré-fixado. Mas não pense que por ter um limite alto, você é especial. Faça as contas: com dois ou três cartões estourados em um limite maior que a sua renda mensal, qual será o resultado? Isso mesmo. Como você vai continuar vivendo (e gastando), não vai poder comprometer toda sua renda para pagar a fatura, vai acabar optando por um valor menor. E aí começa o perigo.

A administradora tem todo o interesse em que você pague menos que o total da fatura. As taxas de juros, variando de 6,5 a 10% ao mês, estão entre as mais altas do mercado. Como você vai continuar gastando, e pagando menos que o total, isto que significa lucro certo e duradouro para a administradora.

Tem jeito de evitar esta situação? Claro que sim. Pode não ser fácil, mas é possível. A primeira coisa a fazer é esquecer que existe um limite no seu cartão e fazer o seu próprio limite. Como este limite pessoal tem tudo a ver com o orçamento doméstico, é bom sentar-se com a família, conversar claramente, definir o orçamento e, uma vez definido, aí sim verificar quais as despesas do orçamento podem ser feitas utilizando o cartão de crédito apenas para unificar os pagamentos em uma data.

Por exemplo, se você costuma fazer compras semanais em supermercado, o fato de pagá-las com o cartão deve servir apenas para ter um prazo maior de pagamento e um controle melhor das entradas e saídas de dinheiro de sua conta. Nada de abusar e comprar mais do que o necessário porque vai pagar com o cartão.

Se já estiver devendo no cartão mais do que sua capacidade de pagamento, procure uma alternativa com juros mais baixos para financiar essa dívida (por exemplo o CDC). Não se esqueça de incluí-la no seu orçamento. Você pode, e deve, deixar uma pequena “gordura” no seu limite pessoal, para algum imprevisto. Somente certifique-se de que o limite definido por você, já com a gordura, está completamente dentro da sua capacidade de pagamento mensal, levando em conta outras despesas do orçamento. Controle este limite com rigor.

Algumas dicas importantes
Procure saber qual é a “data boa” do seu cartão, aquela a partir da qual as compras não virão na próxima fatura, mas na seguinte e procure utilizar-se dela para ampliar os prazos de pagamento e evitar acumular muitos gastos numa fatura só. Na maioria das vezes, adiar alguns dias uma compra pode ser muito vantajoso. Sobretudo, tome muito cuidado em incluir no seu limite as compras parceladas que eventualmente faça com o cartão. Muita gente acaba se esquecendo delas. E elas são o próximo assunto que eu vou abordar.

O cartão de crédito é uma boa opção para compras parceladas, muito melhor que cheques pré-datados “voando por aí” e muito menos burocrático que os famosos crediários. O grande problema é que as pessoas tendem a se esquecer da compra e gastar no próximo mês como se não tivessem nenhuma dívida pendente. Até a hora da desagradável surpresa na fatura. Eu não sou contra a compra parcelada, em absoluto. Desde que:

Eu tenha todo o dinheiro para pagar o produto à vista. Nunca acredite que um produto é vendido em “parcelas sem juros”. Os juros existem, sim, simplesmente estão embutidos no valor do produto anunciado. E, se é para pagar juros embutidos, melhor que eu possa ganhar alguma coisa com o meu dinheiro enquanto isso do que dar de presente à loja todos os juros numa compra à vista. Mas, e isto é importante, a compra só deve ser feita quando todo o dinheiro para pagar à vista estiver disponível, e aplicado. Desta forma, além de ganhar com o prazo de pagamento (por menos que seja, é algum ganho para você), você terá como honrar a dívida em caso de algum imprevisto, não caindo novamente na armadilha da incapacidade de pagamento total da fatura.

A compra não seja feita por impulso. Evitar as compras por impulso é a melhor maneira de evitar aborrecimentos futuros. A grande maioria dos itens comprados por impulso acaba ficando encostada depois, sem uso, muitas vezes atrapalhando e pior, sendo paga. O simples fato de você planejar a compra e juntar o dinheiro para o pagamento à vista antes de fazê-la, em muitas vezes faz repensar e você descobre que não precisa daquilo, realmente.

Eu pague exatamente o que pagaria à vista. Como eu disse acima, mesmo nas compras à vista é normal estarem embutidos os juros de um eventual parcelamento. Se é assim, por que pagar ainda mais juros? Muitas lojas oferecem, por exemplo, a possibilidade de pagar em até duas ou três vezes “sem juros”, e acima disto com juros “visíveis”. Seu orçamento não permite que compre em menos vezes? Volte ao item 1 e repense a compra.

Outra coisa que é preciso tomar cuidado é certificar-se de que o parcelamento oferecido é pela loja, e não pelo cartão. No parcelamento pela loja, a administradora pagará as parcelas ao lojista mês a mês, ao mesmo tempo em que as cobra de você. No parcelamento pelo cartão, a administradora financia sua dívida (com juros) e paga à vista o lojista. Já vi vendedores oferecerem parcelamento dizendo que “a loja não cobra juros, você só vai pagar se o seu cartão cobrar”. Fuja desta barca furada. O cartão cobra hoje entre 5,9% e 9% ao mês, juros quase tão altos quanto os do crédito rotativo. Sem contar que, se você rolar o saldo estará pagando juros extorsivos sobre juros extorsivos.

Eu pague o menor preço possível. Entre os árabes, é considerado uma ofensa se você comprar algum artigo sem pechinchar. Eles acreditam que somente pechinchando a compra chegará a um bom termo entre o comprador e o vendedor, e será justa aos olhos de Alá. No ocidente, este tipo de cultura não existe, mas deveria existir, é saudável para todos. Antes de comprar pesquise o preço em várias lojas (inclusive Internet, desde que sejam lojas virtuais de confiança), pergunte, chore, diga que conseguiu por menos no concorrente (valores coerentes, óbvio). E sempre negocie levando em conta o pagamento à vista. Somente após fechar um preço conveniente negocie o pagamento parcelado pela loja, sem juros extras.

O prazo seja razoável. Compras com prazos longos servem apenas para aumentar o risco de descontrole. Duas a cinco parcelas, dependendo do valor do bem, são suficientes.

Tomadas estas precauções, basta acrescentar o valor na sua planilha de controle, lembrando sempre que ele se repetirá por alguns meses. Espero que estas dicas ajudem a uma utilização mais racional do cartão, de modo que ele seja uma arma a serviço do seu conforto e controle, e não uma navalha eternamente encostada no seu pescoço.

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* Nota: A opinião do leitor não representa, necessariamente, a opinião do autor do blog, Conrado Navarro. Este espaço é aberto a todos que queiram participar. Envie seu artigo para avaliação e tenha seu texto publicado. A discussão em torno da educação financeira só tende a melhorar as suas (as nossas) decisões. Vamos lá, o que está esperando?

Crédito da foto para Marcio Eugenio.

Conrado Navarro
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