Casamento e realizações financeiras são temas muitas vezes vistos como tabus, e não pode ser assim. Para enriquecer enquanto família, devemos implementar mudanças de postura, atitude e novos hábitos; o casamento precisa ser encarado como uma etapa importante de um processo planejado e prazeroso.

Vivi na pele o que a incompatibilidade de objetivos é capaz de fazer e aprendi que a maturidade para discutir e rever prioridades é tão importante quanto a união do casal. Entendo que é em torno de metas comuns, fortes o suficiente, que crises serão ultrapassadas e alegrias serão compartilhadas.

Achei por bem listar os cinco principais erros que eu cometi, mas que também presenciei ao trabalhar ao lado de diversos casais com problemas financeiros (alguns bastante graves e complicados):

Erro 1: Acreditar que o casamento só começa depois que ele acontece

A maior parte dos casais se depara com o que chamo de “síndrome da realidade do casamento”, que nada mais é do que a vida real, sob responsabilidade compartilhada, e que exige atenção.

Na nova configuração, a geladeira não se preencherá sozinha, as contas não se pagarão automaticamente e por aí vai. Trocar o conforto da casa dos pais pela necessidade de decidir (e resolver) tudo costuma dar trabalho.

Este aspecto pode ser minimizado com mais diálogo e, principalmente, mais ação. Durante o namoro e noivado, é importante que objetivos plausíveis e inteligentes sejam compartilhados e alimentados.

Também é fundamental que o casal estabeleça regras simples de planejamento a serem respeitadas para que estes objetivos sejam alcançados. O primeiro “sim” é o que realmente importa.

O casamento, portanto, começa muito antes de sua oficialização social e/ou religiosa. Um relacionamento pressupõe afinidades, confiança e responsabilidade a ponto de incluir também o dinheiro como uma prioridade. Desde o começo, e para sempre.

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Erro 2: Adiar (empurrar) decisões difíceis e trabalhosas

É comum que as discussões sobre as finanças de um casal esbarrem em temas delicados, como consumo de itens considerados supérfluos, gastos excessivos com determinados produtos ou serviços (eletrônicos, salão de beleza, por exemplo) e por aí vai.

Fica mais fácil acomodar-se e esconder do outro o que o incomoda que sentar e ter uma conversa franca, direta e adulta. As consequências deste comportamento são perigosas: distanciamento, falta de diálogo e cobranças constrangedoras minam a energia de qualquer família.

É importante que exista cumplicidade diante da responsabilidade de lidar com o lar e a nova família. Isso significa participar das decisões financeiras, saber bem os limites do “novo conjunto” e respeitar regras de investimento e padrão de vida.

Pode ser que um dos cônjuges precise mudar temporariamente seus hábitos, alterar sua maneira de cuidar das finanças ou até mesmo aprender algo sobre controle financeiro e investimentos. Faça o que precisa ser feito, não o que dá menos trabalho e é mais fácil.

Erro 3: Confundir individualismo com individualidade 

As controvérsias mais acaloradas são as que envolvem a importância da flexibilidade entre membros de uma família. Leia de novo. Casamento não significa abdicar de quem você é, nem tampouco apenas insistir para que o outro (e só ele) mude.

Entendo que é preciso manter-se presente nas atividades que trazem felicidade e são relevantes, ao mesmo tempo em que é essencial admirar o outro pela mesma decisão e atitude.

Casar-se pressupõe continuar sendo um ser humano, mas com alguém mais para aplaudi-lo e oferecer-lhe o ombro. E para criticá-lo, se for o caso. Alguém com quem dividir a vida e todos os seus desafios, mas sem deixar de ser você mesmo.

Há que se observar os limites do bom senso: momentos de solidão, atividades desacompanhadas, hobbies e hábitos saudáveis pré-casamento devem equilibrar-se ao lado dos novos desafios da vida a dois.

Não é preciso (e nem tão importante) gostar das mesmas coisas, mas é imprescindível gostar do sorriso de realização estampado no rosto da pessoa amada. É impossível não ser feliz estando ao lado de alguém feliz.

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Erro 4: Apoiar-se sempre em justificativas e ter desculpa para tudo

A zona de conforto é assunto antigo, lugar-comum na literatura de finanças pessoais. Lidar mal com limites implica em uma vida artificial, de conto de fadas, que só existe na mente de quem ainda não está maduro o suficiente para dar passos mais arriscados.

O casamento implica assumir riscos, andar rumo ao desconhecido e tomar decisões complicadas. Transferir o peso destes passos para um terceiro facilita o dia seguinte, mas gera ansiedade, insegurança e, principalmente, desconfiança.

O futuro de um relacionamento é consequência das decisões (ou falta delas) tomadas no seu dia a dia, não nos planos ou sonhos. Se a responsabilidade é nossa, a culpa também tem que ser.

Aceitar isso tira um enorme peso das costas: errar faz parte, então o melhor a fazer é admitir, conversar, pedir ajuda e dar a volta por cima. Entendo que para muitos casais falta coragem e humildade para reconhecer isso – estes são os que mais abusam das desculpas esfarrapadas.

Cuidado com a necessidade de apontar sempre o culpado. Aquele que deixa de visitar o bar com os amigos ou de jogar bola porque se casou e diz que “sua esposa não gosta” está simplesmente optando pelo caminho mais cômodo.

Você realmente quer continuar a fazer isso? É importante? Às vezes deixamos de fazer algo porque não gostamos mais, queremos mudar, mas teimamos em justificar, já que é o que a sociedade espera que aconteça. Hipocrisia, sempre ela, sempre presente. Cuidado.

Erro 5: Sonhar sozinho e isolar-se

A falta de diálogo normalmente cria um cenário triste, onde pouco se discute os caminhos do casal. Perde-se o ânimo pelo novo, pelos desafios e por conquistas em nome da família. É aquela história: duas pessoas juntas, vivendo vidas completamente separadas, isoladas. Praticamente uma república. Conheço muita gente assim…

Alguns buscam na decisão de ter filhos a chave para tentar mudar este quadro; outros preferem abusar de álcool, drogas e de uma “outra vida”, extraconjugal. Sonham e fazem o que querem, sem a mínima consideração pela família.

Como em um ciclo, alternam-se entre o segundo e o quinto erros. O casamento se deteriora e vai “acabando um pouquinho, todo dia”. O pior? Fica-se com a impressão de que casar é que foi a origem de todos os problemas e da desilusão. Será mesmo?

Leitura recomendada: Casamento e planejamento financeiro precisam estar juntos sempre

Conclusão

Depois do que passei, percebi que o amor entre duas pessoas pela metade não faz a unidade de um casal, um casamento inteiro. A cara metade não resolve!

É preciso que dois adultos, inteiros e responsáveis, decidam transformar suas vidas em algo novo, mas principalmente algo diferente. Transformar porque não adianta se unir apenas para satisfazer expectativas dos outros (dos pais, da família, da sociedade ou de quem for).

Interessa mesmo expandir horizontes e atingir metas maiores e mais desafiadoras. A conversa franca, os planos detalhados e o controle financeiro são o suporte para o que virá adiante – com a certeza de que a decisão foi tomada de pé, com a cabeça erguida.

O que os outros esperam de você não interessa quando você tem alguém do seu lado que não espera nada, mas faz acontecer. Faz sentido?

Conrado Navarro
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