Como ganhar US$ 20 milhões em duas semanas?A pergunta um tanto chocante do título deste artigo, que fiz questão de proferir diante de muitos amigos e familiares, despertou seu interesse? Como atingir tal façanha? Bom, as respostas que recebi foram pouco variadas: a maioria disse, sem hesitar, que para ganhar essa bolada em tão pouco tempo só mesmo apostando na loteria. Outro grupo sugeriu a abertura de um banco. Um amigo emendou: “Jogar na loteria ou abrir um banco? Nos dias de hoje, ambas as atitudes não trazem os mesmos riscos”? Um silêncio perturbador tomou conta do ambiente. Ah, a crise!

Estamos falando de aproximadamente R$ 39 milhões. Estamos falando de quase três semanas. O silêncio foi interrompido pela voz grave de um viciado em economia[bb] e amigo de longa data: “Para ganhar isso, só mesmo apostando. No entanto, apostando nas ofertas de trabalho que surgem em Wall Street em épocas de crise. Apostando na condução de bancos à beira de um colapso financeiro”. Ele sabia a resposta.

A perplexidade dos presentes era evidente em seus rostos e no forte clima de “como assim?” presente nas conversas laterais do grupo. Decidi provocá-los. “Nosso amigo acertou a resposta para a pergunta lançada ao início de nossa reunião. Só há uma forma de ganhar R$ 40 milhões em apenas 17 dias: honrando um contrato de trabalho”. As risadas tomaram conta do lugar. De repente, ninguém levava mais nada a sério. Entrei no clima, tomei um gole de cerveja e esperei para terminar a história.

História? Que história?
Os tempos são difíceis. Bancos tradicionais nos EUA e no mundo quebraram, continuam quebrando ou são adquiridos por seus concorrentes. A governança corporativa sofre com a brusca mudança de prioridades do cenário financeiro. As agências de risco lutam para reavaliar e reconstruir suas metodologias de avaliação e a imagem (leia-se credibilidade) de seus resultados. A história é uma só: o mundo “gira” mais devagar e a situação financeira se deteriora.

Você, acionista, investidor[bb], vê seus ativos de desvalorizarem de forma acentuada. A empresa sofre, penalizada pelas expectativas negativas que surgem com a crise, e seu valor de mercado despenca. A desconfiança é geral. Ufa. Mas, como bem escreveu o jornalista Daniel Bergamasco, da Folha de S. Paulo, há, em Wall Street, um universo paralelo onde nada disso tem tanta importância.

Universo paralelo?
Enquanto bancos e mais bancos anunciam resultados ruins, quebram ou são negociados junto a outras instituições financeiras, executivos do setor esbanjam vigor econômico e embolsam milionárias recisões contratuais. Ver as economias e investimentos[bb] irem por água abaixo e, ao mesmo tempo, notar alguns dos responsáveis pela extensão do problema sendo beneficiados por bônus milionários não deve ser nada agradável.

Vejamos o exemplo que ilustra o tom deste texto: Alan Fishman assumiu o Washington Mutual 17 dias antes de o banco falir e ser comprado pelo JPMorgan. Ficou estes poucos dias no cargo, foi dispensado e pode embolsar os US$ 20 milhões de bônus de contratação e indenização previstos em seu contrato. Cidadãos e jornais americanos têm se mostrado muito irritados com a questão e prometem ativa participação no decorrer da discussão.

Crise? Que crise?
Aqui tem-se uma das questões do impasse na aprovação do plano de resgate criado pelo secretário do Tesouro Henry Paulson. Sacrificar o contribuinte para levantar quase US$ 1 trilhão, enquanto executivos da área financeira levam uma bolada em benefícios e indenizações, não soa selvagem demais até para os EUA e seu modelo de capitalismo?

Seria irresponsabilidade permitir que o dinheiro do contribuinte seja usado para pagar indenizações vultosas de barões do dinheiro? Seria? É? A discussão prossegue, os pagamentos também. Aliás, contratos com termos milionários são relativamente comuns por lá. Tais acordos são chamados carinhosamente de “pára-quedas dourados”, ou “golden parachutes” em inglês (entenda melhor através da Wikipedia).

Ironicamente, o sistema bancário é tido como um dos responsáveis pelo “efeito dominó” vivenciado atualmente na economia. Qual deve ser o papel dos executivos e líderes do setor? Se os ativos de seus correntistas e da empresa que lideram são vulneráveis aos sabores de suas decisões, o que dizer de seus ganhos e motivações pessoais? Pois é, parece não haver crise no universo paralelo.

Você se lembra do Lehman Brothers? O que aconteceu com o banco de mais de 100 anos? Quebrou. Seu CEO, Richard Fuld, embolsou US$ 45 milhões em 2007. Os tempos eram outros, não é mesmo? Ano passado nada disso era previsível, certo? Ahn? O vigor das mudanças no capitalismo[bb] moderno só confirma a importância das garantias e do planejamento. Os executivos se preparam (e bem) para momentos assim. E você? E eu?

Pois é, o capitalismo (e também seu lado selvagem) recomenda: haja o que houver, não saia de casa sem o seu pára-quedas. Ele é dourado? Otimo! Não é? Certifique-se de que está em boas condições. Você não tem um pára-quedas? Acreditar demais no capitalismo, ao invés de aprender a aproveitá-lo, dá nisso. Pára-quedas, mas que pára-quedas? Ahhhhhhhhhhhhh!

PS: Um caso emblemático merece ser citado. Robert Willumstad, ex-CEO da AIG, rejeitou bônus de US$ 22 milhões no momento do aporte de US$ 85 bilhões feito pelo Fed – que caracterizou também sua saída da empresa.

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Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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