Sofia comenta: “Navarro, já li em seus textos que você é compra o parcelamento em mais de três vezes. Por quê? Em alguns casos, a loja não oferece desconto nenhum e parcelar em 10 ou 12 vezes torna a compra mais fácil e mais ‘suave’ ao bolso. O que fazer nestes casos? Obrigada”.

O parcelamento é uma armadilha comum do sistema (varejo e bancos) para facilitar a compra de bens e produtos. Essa definição óbvia certamente já despertou em você algumas reflexões, como por exemplo: quando vale a pena parcelar? Existe um número ideal de parcelas? O parcelamento é obrigatoriamente mais caro que a compra à vista?

É provável que você compre parcelado porque não tem condições de comprar à vista, estou certo? Ah, tem muita gente que defende o argumento “Para ter alguma coisa no Brasil, só com carnê”. Você provavelmente já ouviu essa conversa por ai, não é mesmo? A desculpa se transforma em um péssimo hábito, e este cria um círculo vicioso.

Neste texto cito três aspectos que, na minha opinião, fazem das compras parceladas uma ilusão e um convite ao desequilíbrio financeiro. Acompanhe.

Compras parceladas criam um padrão de vida artificial

O grande “barato” das compras parceladas é permitir que se compre muita coisa ao mesmo tempo, postergando e alongando o pagamento para os meses seguintes. A principal questão que envolve as compras parceladas é a falsa sensação de maior poder aquisitivo que sua natureza produz.

Ao exagerar nas compras porque “as parcelas caberão no bolso”, a família frequentemente ultrapassa o limite do bom senso e, pior, não consegue deixar de comprar nos meses seguintes, algo que deveria ser natural, já que estes próximos meses estarão comprometidos com as parcelas das compras já efetuadas.

Comprar é prazeroso e todo começo de mês é um convite neste sentido. O resultado são faturas de cartão de crédito cada vez mais caras, cuja única saída passa pelo uso do pagamento mínimo (os juros chegam a 250% ao ano nesta modalidade).

As compras parceladas criam um padrão de vida artificial ao permitir que tudo se resuma a pequenos valores no orçamento. Pequenos valores que se transformam em um terrível pesadelo de dívidas e juros quando somados e confrontados com a realidade emocional de nossas decisões.

Muitas parcelas: convite ao descontrole financeiro e emocional

Outro aspecto perigoso do parcelamento excessivo é o reflexo natural do padrão de gastos descrito nos parágrafos anteriores: com muitas parcelas vencendo todo mês, o orçamento familiar logo se transforma em um caos. O uso de múltiplos cartões de crédito para seguir parcelando agrava ainda mais o quadro.

O descontrole em relação ao número de parcelas e seus valores acaba somado ao desespero de não ter condições financeiras de honrá-las, o que gera ansiedade, angústia e um grande desequilíbrio nas relações familiares.

Muitas parcelas significam uma casa cheia de produtos e coisas, mas todas servindo apenas para lembrar o quanto a família exagerou e ultrapassou o bom senso. Cada um dos produtos comprados de forma irresponsável acaba se tornando uma lembrança ruim e geradora de sentimentos negativos.

Em muitos casos, demora até que os familiares percebam que foi o excesso de parcelas que gerou tantos problemas emocionais e de ordem pessoal. É fácil saber que foram as compras em exagero que tornaram a situação grave, mas nem sempre esta avaliação é aprofundada a ponto de considerar o padrão de compra e o vício pela compra parcelada.

Parcelar torna a compra mais cara

Por fim, a parte mais óbvia do assunto: compras parceladas representam custos mais altos para o consumidor. Em 10 ou 12 meses, nenhum produto custará o mesmo que hoje, já parou para pensar nisso? E a inflação do período? E o risco de alguma coisa acontecer com a economia?

Parcelamentos embutem taxas e cálculos complexos de gestão de risco. Logo, não existe essa de “R$ 1.000,00 ou 10 vezes de R$ 100,00”. O preço à vista precisa ser mais baixo para tornar a compra interessante e configurar a matemática financeira apropriada. Portanto, parcelar significa pagar mais caro. Simples assim.

Conclusão

Compras parceladas são uma comodidade tipicamente brasileira. Este hábito não existe em países desenvolvidos, onde a compra ocorre em uma parcela via cartão de crédito ou débito total à vista no dinheiro ou cartão de débito. O que existe lá fora são financiamentos, mas não para comprar produtos simples (o que acontece aqui).

Se você é uma pessoa que ainda não dominou suas finanças, é importante rever o costume de comprar tudo em muitas parcelas, usando e abusando de modalidades de crédito acessíveis, porém caras, caso do cartão de crédito e do limite do cheque especial.

Evite a tentação de comprar muito “porque as parcelas serão relativamente pequenas” e prefira economizar e negociar o melhor preço à vista possível quando tiver o montante para tal.

Sinta-se convidado a opinar sobre o tema no espaço de comentários abaixo e também no Twitter – sou o @Navarro por lá. Obrigado pela companhia e até a próxima.

PS: Se você chegou até aqui e é do tipo organizado, que gosta de parcelar e consegue lidar com esses pagamentos sempre em dia e aproveitando benefícios de cartão de crédito, programas de milhagem e etc., parabéns! Pena que você faz parte de uma minoria. Espalhe nosso conteúdo para, juntos, aumentarmos este grupo. Obrigado.

Foto “Shopping”, Shutterstock.

Conrado Navarro
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