Toda concentração é perigosa, independente do setor e da área de atuação. Em uma primeira análise, pode fazer sentido fortalecer determinados segmentos para “segurar” ou “empurrar” a economia, mas isso é apenas a parte midiática da história.

O preço pago em cenários assim é a falta de competitividade, o que representa um entrave para melhores condições de compra e venda para o consumidor e pouco compromisso com a inovação e criação de produtos/soluções melhores e mais acessíveis.

Isso sem contar no aumento das práticas combinadas, do lobby extraoficial, mas presente de forma clara, entre os players dominantes.

Tais empresas negarão veementemente, mas preços, taxas, condições comerciais, prazos, tudo está sempre “estranhamente” parecido, pode reparar.

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Seu bolso corre este perigo

Segundo números do Banco Central referentes a setembro de 2016, os quatro maiores bancos no país – Banco do Brasil, Itaú, Caixa Econômica Federal e Bradesco – concentram 72,4% dos ativos totais das instituições financeiras comerciais.

Não se pode dizer que já fomos um país com abertura competitiva no que diz respeito a instituições financeiras, embora o quadro tenha pesado bastante desde o início dos anos 2000.

Para se ter uma ideia da mudança ocorrida neste sentido, em 2000 os quatro maiores bancos detinham 50,5% dos ativos, um número já bastante elevado, mas bem menor que os atuais 72,4%.

Talvez o percentual não expresse a dominância que eu quero frisar, então vou tentar mostrar a situação por outros dois ângulos:

  • 80% do crédito concedido no Brasil tem origem nestas quatro instituições financeiras mencionadas;
  • 75 de cada 100 agências são de um destes quatro bancos.

A verdade é que muitos bancos com boas fatias de mercado foram absorvidos e integrados a outras operações maiores (casos do Unibanco com Itaú, Nossa Caixa com Banco do Brasil e HSBC com Bradesco, por exemplo).

Eu sempre brinco que quem tinha conta no Banco Real não fazia ideia de como era feliz e não sabia. Depois ele virou ABN Amro Real e então foi comprado pelo Santander.

Em suma, no Brasil o resumo do cenário bancário é óbvio e bastante enfadonho: bancos grandes ficaram enormes, e continuam a crescer e mirar aquisições de seus concorrentes menores.

Ah, e logo essa concentração vai aumentar mais, afinal o Itaú comprou recentemente a operação brasileira do Citibank.

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O que diz a lenda e o que realmente acontece

Palavras como “fortalecimento”, “robustez”, “consolidação” e “segurança” são amplamente usadas para criar a imagem de que a concentração cada vez maior do setor bancário é vantajosa para o consumidor final.

A ideia criada é a de que com a nova configuração, o banco poderá oferecer mais opções de crédito e investimento ao cliente, com melhores taxas, garantias e atendimento.

O que se vê na prática são reclamações aumentando na mesma proporção dos lucros das instituições.

Os juros seguem absurdamente elevados, principalmente nos cartões de crédito e cheque especial. O atendimento segue pautado pela oferta de produtos ruins ao grande público (que com sua ignorância alimenta a agressiva política de metas), para ficar em dois aspectos bem práticos.

Não que eu ache ruim ser uma empresa enorme, financeiramente robusta, saudável e com um excelente lucro (qualquer empresário sonha com isso diariamente), mas o fato é que o discurso por trás da consolidação não se transforma em prática com o devido respeito. E o cliente quase não tem para onde correr.

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Como você deve encarar a concentração bancária

Como todo movimento em que você parece ficar mais vulnerável a cada dia que passa, embora saiba que os serviços envolvidos são essenciais para sua vida, fique atento, acompanhe de perto e procure sempre questionar argumentos demasiadamente comerciais (e óbvios).

De maneira geral, sugiro que você implemente três medidas básicas para não correr riscos desnecessários e, ainda melhor, aproveite o que a concentração bancária pode oferecer de bom:

1. Invista em conhecimento

Quando você senta para conversar com o gerente bancário, como se sente em relação a tudo que ele fala e explica? Se você é como a maioria das pessoas, toma como ajuda seus conselhos e orientações, e isso é um erro.

Ele nem sempre oferece os melhores produtos para você, portanto é importante buscar conhecimento e formar opinião sobre produtos de crédito, investimento e tudo que envolve a utilização (ou não) de serviços bancários.

2. Evite o endividamento

As taxas de juros dos empréstimos e financiamentos mudam muito pouco de uma instituição para outra e são altas. Muito altas.

Logo, quanto menos você precisar de dinheiro emprestado, melhor. Afinal, poderá diminuir o pagamento de juros (um dinheiro jogado fora no caso das pessoas físicas) e, assim, diminuir sua exposição frente a uma das maiores causas de dores de cabeça no Brasil: as dívidas bancárias.

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3. Seja sócio

Lucros crescentes ano após ano, concentração e domínio de mercado também representam para você uma oportunidade, afinal de contas você pode comprar ações dos bancos na bolsa de valores e se tornar um sócio deles, literalmente.

Isso significa ter participação direta nos resultados, recebendo dividendos e observando potenciais valorizações nos ativos. Banco do Brasil, Itaú e Bradesco, três dos quatro maiores, possuem ações negociadas em bolsa e a oferta inicial da Caixa parece ser uma questão de tempo.

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4. Se preferir, evite

Os bancos médios andam oferecendo excelentes opções de abertura de contas digitais a partir de aplicativos e smartphones, incluindo transferências, pagamentos e muitos outros serviços antes existentes apenas através dos grandes bancos. Experimente e talvez você precise bem pouco (ou nada) dos bancos maiores.

Como investir diante deste cenário

Bancos cada vez maiores significam um sistema financeiro mais forte, é fato, mas também menos diversificado em termos de opções de investimento realmente diferenciadas, principalmente para quem dispõe de poucos recursos financeiros para investir.

Os segmentos de alta renda sempre oferecem opções melhores, mas isso faz sentido e tem lógica: com mais conhecimento, estes clientes sabem muito bem discutir e analisar as possibilidades apresentadas, além do que possuem tino e iniciativa para, por conta própria, rentabilizar seu patrimônio.

O que fazer, portanto, para equilibrar esta realidade e aderir a melhores opções de investimentos quando não se tem tanto conhecimento e dinheiro? Bom, aprender sempre é possível, portanto a primeira parte do problema pode ser resolvida com interesse e determinação.

Acumular mais patrimônio e gerar mais renda são temas mais delicados, mas ainda que isso não aconteça da noite para o dia, existem soluções para o pequeno investidor. Deixo algumas sugestões neste sentido:

a) Entenda suas garantias e os diferentes tipos de aplicação

Pouca gente sabe que existe no Brasil a figura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), uma entidade privada que garante aos aplicadores o ressarcimento dos investimentos feitos em modalidades mais conservadoras (limitados a R$ 250 mil por CPF, por instituição) caso uma instituição financeira quebre.

Por quê alguém investiria menos de R$ 250 mil em uma LCI de um banco grande, que paga 73% do CDI, se em um banco médio é possível investir no mesmo produto, com mesmo prazo, e receber 89% do CDI?

A diferença é gritante e o risco de o aplicador receber seus recursos ao final do período é mesmo. Nós já gravamos um vídeo que explica o que é e como funciona o FGC (clique e veja).

b) Compare muito entre os próprios bancos

Ainda que a concorrência seja pequena e o sistema esteja cada vez mais concentrado, as opções existem e os bancos médios estão cada vez mais competitivos em diversos aspectos.

Tarifas menores (ou inexistentes), pacotes digitais muito interessantes, títulos privados e investimentos com rentabilidades maiores, mais facilidades no atendimento, buscar alternativas pode ser a chave para encontrar uma instituição que melhor se adeque ao seu perfil.

Ter conta neste ou naquele banco para ajudar o gerente ou porque você precisa ir até a agência com frequência é coisa do passado. Pesquise, compare e faça a escolha inteligente (e não a que parece mais fácil e óbvia).

c) Considere investir através de corretoras independentes e bancos médios

Abrir conta em uma corretora independente para fazer seus investimentos é talvez a melhor decisão financeira que você tomará em sua vida.

Por que? É simples: lá você terá acesso a diversos tipos de investimento sem o viés do conflito de interesses, uma vez que as corretoras hoje oferecem diversos produtos, de instituições financeiras diferentes, além de permitir o acesso aos títulos públicos e mercado de ações.

Olhar cada banco para encontrar a melhor LCI ou CDB pode ser trabalhoso, mas olhar a tela principal dos investimentos de renda fixa de uma corretora é simples – e praticamente todos os principais bancos estarão lá, bastando sua análise e escolha.

Ainda assim, existem alguns excelentes investimentos que ou não são comercializados pelas corretoras ou são pontuais e devem ser contratados diretamente junto aos bancos médios, portanto mantenha seu radar ativado também para isso.

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Conclusão

A concentração bancária é uma realidade e uma tendência por aqui. Autoridades inclusive comentaram que não consideram que haja excesso, preferindo a palavra “moderada” para definir o quadro atual.

Pois bem, bancos e instituições financeiras de todos os portes são essenciais para a economia e cumprem um papel importantíssimo para a sociedade e seus diversos stakeholders.

Certo, mas isso não significa que você deva simplesmente aceitar qualquer coisa que eles oferecem.

O objetivo deste texto foi alertá-lo para a necessidade de mudar de atitude, ter mais iniciativa para aprender sobre finanças pessoais e investimentos, de modo que suas escolhas possam ser mais inteligentes e embasadas, e não apenas automáticas.

Se cumpri este papel, ótimo. Obrigado e até a próxima!

Conrado Navarro
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