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Consciência financeira, matemática e o casamento

por Ricardo Pereira
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Consciência financeira, matemática e o casamentoA saúde financeira da família é o termômetro definitivo quando se pensa no futuro e as aventuras que ele nos reserva. Felicidade não tem preço – isso é uma verdade absoluta e indiscutível -, mas ter uma expectativa mínima de sucesso e viver um futuro pleno são questões intimamente ligadas ao desejo de bem estar. E isso envolve dinheiro[bb].

Erros e acertos
A maneira como somos educados hoje propõe, infelizmente, que só muito tarde tenhamos consciência da utilidade do dinheiro. Normalmente, nessa fase (entre 15 e 18 anos) já ocorrem os primeiros grandes erros financeiros que podem nos acompanhar por boa parte da vida. Alguns por falta de bons exemplos e exercício prévio.

Pois bem, já falamos anteriormente que decisões tomadas em momentos de grande emoção podem representar insucessos e perdas consideráveis. Essa máxima pode ser levada adiante em diversos momentos, desde os preparativos para o inicio de uma vida a dois, por exemplo, até a fase da transição do namoro para o casamento.

Um bom exemplo de falta de planejamento e conhecimento financeiro[bb] surge de um velho conceito de que o casal precisa de um imóvel próprio para iniciar uma vida. A partir daí, verdadeiras loucuras financeiras são realizadas. Será que começar uma vida com um comprometimento financeiro de 10, 20 ou até 30 anos é algo saudável e inteligente?

“Mas o aluguel é um dinheiro que não será recuperado e a casa própria pode se valorizar, alem de ser um bem da família”. Ah sim, isso é o que normalmente ouvimos aqui e ali. E não deixam de ser afirmações significativas e emblemáticas, mas quando o assunto são as finanças pessoais devemos aprender a enxergar algumas variáveis “fora da caixa”.

Hoje em dia, um imóvel padrão de 3 quartos (o mais procurado em São Paulo e outras cidades) gira em torno de R$ 110 mil – um pouco mais ou menos dependendo da área.  Tendo como base um exemplo matemático para um financiamento de 20 anos, as parcelas mensais para esse mesmo imóvel de R$ 110 mil ficarão por não menos de R$ 1.211,00 (levando-se em conta o financiamento total do imóvel).

Como referência, o valor base de um aluguel gira em torno de 0,8% do valor do imóvel. No nosso exemplo, isso significa alugar o imóvel por cerca de R$ 880,00. Ora, se a diferença entre o valor da parcela do financiamento e o valor do aluguel, R$ 331,00, for aplicada a juros de poupança durante os mesmos 20 anos, o valor final seria quase R$  177 mil.

Este valor final, se aplicado na caderneta de poupança, com apenas com 0,5% de rentabilidade mensal, é capaz de garantir um rendimento mensal de R$ 883,37, suficiente para o pagamento do aluguel de uma casa de padrão semelhante à que se usa no exemplo. O valor do financiamento, com pagamento mensal de R$ 1.211,00 durante 20 anos, chegaria a perturbadores R$ 290.640,00.

Sem verdades absolutas
O exemplo faz uso da matemática financeira[bb] básica e parte de premissas simples. Assim, três coisas importantes merecem destaque, para que ninguém fique com a impressão, incorreta, de que alugar é sempre a melhor alternativa. O importante é aprender a pensar:

1. No cálculo não foram usadas correções monetárias decorrentes da inflação. Sabe-se que o valor do aluguel e o poder de compra sofrem com a inflação, o que mudaria um pouco o cenário do valor do aluguel e do financiamento. Por outro lado, é comum que os reajustes salariais também aconteçam anualmente.

Optei por manter o cálculo simples, sem inflação, com objetivos puramente didáticos. O raciocínio e a consciência financeira por trás do cálculo são mais importantes que a conta em si.

2. Quando se fala em compra de imóvel, deve-se levar em conta o chamado ganho de capital, que é a variável representada pela valorização (ou desvalorização) do bem. Se o imóvel tem valorização anual positiva em seu valor, o ganho de capital trará ótimos resultados em termos de patrimônio, mesmo que o imóvel seja financiado.

No entanto, comprar um bom imóvel e ter a certeza de que ele se valorizará não é uma tarefa simples. Por isso o artigo trabalha a tese de que, para casais em começo de vida, o ideal é alugar e então passar a analisar melhor a situação e planejar-se de forma conjunta.

3. Um bom valor para dar como entrada, reduzindo o valor do principal financiado, pode ser o melhor negócio. Daí a importância de começar devagar e analisar bem antes de assinar qualquer contrato. Se necessário, peçam ajuda!

Este artigo tenta ilustrar um dos exemplos mais práticos de quanto más escolhas podem atrapalhar o desenvolvimento de uma relação. Uma decisão apressada e tomada apenas com base em pressões sociais pode levar o casal a passar por sérios problemas financeiros, desnecessariamente.

Por mais que resista e prospere no inicio de um relacionamento[bb], o amor não resiste à falta de perspectivas. Entrar em maus negócios sem raciocinar implica muitas vezes viver uma vida de gastos estritamente necessários (alimentação, saúde, transporte e moradia) sem espaço para o prazer e a diversão.

Lembre-se que quando vocês dois se conheceram, o relacionamento era muito mais de sonhar do que sobreviver. Manter esta chama acesa significa dar atenção ao dinheiro e encará-lo com seriedade e disciplina. É preciso aprender a discutir as alternativas, e não apenas aceitá-las.

O amor pode não acabar, mas o dinheiro às vezes desaparece
Então, as brigas passam a ser constantes, ladeadas por desavenças ligadas a bens de consumo, carros e gastos desnecessários. É porque o marido comprou um DVD[bb] novo e não havia dinheiro para isso, é porque a esposa gastou um pouco mais no salão de beleza ou comprou um sapato novo.

Quer ver só: chegou o aniversário de casamento e nem mesmo um simples presente foi dado? Será que o amor acabou? Arrisco-me a dizer que não, mas se não foram tomadas atitudes inteligentes desde o começo, é essa a impressão que perdurará. Dinheiro é coisa séria.

Essas são as armadilhas do mundo capitalista. Infelizmente. Ou será felizmente, já que está em nossas mãos o poder para mudar de atitude? Quem não se enquadrar, correrá riscos e mais riscos de encontrar uma jornada mais difícil em sua vida. Por opção.

Ah, sim, existem muitas escolhas boas e ruins. Nem sempre é possível acertar 100% das vezes. Não teria graça. O ideal é manter sempre aberto o diálogo e manter o planejamento feito e em dia. A expectativa de vida cada vez maior exige que tratemos melhor nossa saúde física, mas também requer cuidados intensos com a saúde financeira[bb]. Até sexta.

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Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para stock.xchng.

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