Consumo, estabilidade e poupança: o paradoxo da classe CEm encontros com amigos e diante de familiares sempre procuro conversar de dinheiro[bb] – até porque é disso que vivo. Nestas conversas, sempre lanço a seguinte pergunta: “a falta de dinheiro o preocupa?”. Adivinhe qual a resposta mais comum? Pois é, parece que o dinheiro é motivo de preocupação, especialmente quando temos compromissos para honrar e dívidas para pagar. A FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) decidiu realizar uma pesquisa mais abrangente neste sentido, entrevistando mil pessoas no final de fevereiro:

  • A segurança é o maior motivo para preocupação de brasileiros, com 37% dos votos;
  • A falta de dinheiro para honrar contas aparece em segundo, com 24% das opções;
  • O temor de perder o emprego, quem diria, aparece em terceiro, com 10%;
  • Educação, com 9%;
  • Precariedade dos serviços de saúde, com 8%;
  • Inflação, 6%;
  • Qualidade da infraestrutura, 2%;
  • Distribuição de renda, 2%;
  • Outros, 2%.

A segurança em primeiro lugar. Em um país como o Brasil, a primeira posição é óbvia. No entanto, confesso ter ficado um pouco surpreso com a segunda maior causa de preocupação dos brasileiros. Afinal, com a visível desaceleração da economia era de se esperar que o desemprego assustasse mais. Que nada, “apenas” 10% da população pensa nisso. O dinheiro, pois sim, preocupa nada menos que ¼ dos entrevistados.

Comprar é fácil. Mas quem paga?
A verdade, me parece, é que o brasileiro entrou de vez na onda do consumo. Nada demais ou de errado, já que a economia trilhou excelentes rumos até meados do ano passado. O problema está na atitude “comprar primeiro, pensar em pagar depois”. Se há preocupação excessiva com a capacidade de pagamento, há nítida falta de planejamento[bb]. Será que não andamos comprando coisas demais?

Isso me lembra o resultado de outra pesquisa, realizada pela agência de publicidade McCann Erickson, divulgada no mês passado: a classe C brasileira quer consumir mais, não poupa, mas exige estabilidade econômica para colocar seus planos em prática. Com a palavra Aloísio Pinto, vice-presidente da empresa e um dos responsáveis pelo estudo:

“O desejo prioritário da classe C é hoje consumir sem preocupação e aprender a se comportar como classe media. (…) Têm a necessidade de priorizar os gastos, carregam sempre alguma pendência financeira, mas não sofrem a falta de alimentos. (…) É curioso perceber que a classe C deseja consumir mais, mas não demonstra a preocupação em mudar de classe”.
Fonte: Folha Online – 11/03/2009

Consumir sem preocupação pressupõe planejamento. Ou não? Logo, as constatações da pesquisa da McCann são ainda mais sérias:

  • Apenas 38% dos entrevistados disseram ter o hábito de poupar dinheiro;
  • Ainda assim, 45% das pessoas afirmaram utilizar a poupança como se fosse uma conta corrente, sacando o valor para gastos mensais e etc.;
  • Falando em dinheiro, 47% afirmaram já terem feito empréstimos bancários. Quase todos (91%) apontaram a burocracia como principal problema na obtenção do crédito;
  • Mas, é claro, 82% dos entrevistados afirmaram que a estabilidade econômica é prioridade.

Onde fica o esforço pessoal e o interesse em planejar?
É claro que quase todo mundo deseja estabilidade financeira[bb]. Mas, será que estamos dispostos a colocar em prática os hábitos capazes de fazer desta estabilidade uma situação sustentável e de longo prazo? Os dados da pesquisa não me ajudam a acenar positivamente com a cabeça. Então será a estabilidade econômica só mais um sonho? Se queremos mudar este quadro, sugiro:

  1. Que você poupe mais. Guarde algum dinheiro e estabeleça alguns objetivos. Se trocar a mobília da casa ou garantir o ensino superior dos filhos são alguns de seus sonhos, passe a investir mensalmente algum dinheiro para atingi-los;
  2. Que você use menos o crédito farto disponível por ai. Pare de pagar tudo usando as intermináveis parcelas. Junte o dinheiro, negocie e pague à vista. Deixe o crédito para operações mais importantes e interessantes, como a compra de um imóvel por exemplo;
  3. Que você se informe melhor. Experimente ler algum livro de finanças pessoais e conhecer um pouco melhor as ferramentas disponíveis para controlar seu dinheiro. Implemente um orçamento doméstico rigoroso, controle os pequenos gastos e conheça novas e boas alternativas de investimento[bb].

Alguns leitores dirão que as dicas são velhas, simplistas e repetitivas. Cansativas, talvez. Provavelmente, vocês estão certos. Tomara que de tanto repeti-las e incansavelmente trabalhá-las, eu possa finalmente ver lotada minha caixa de e-mails com mensagens afirmando que as pesquisas aqui citadas não mais representam a realidade da maioria de nossa população. Até lá, insistirei loucamente no assunto!

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Conrado Navarro, educador financeiro, formado em Computação com MBA em Finanças e mestrando em Produção, Economia e Finanças pela UNIFEI, é sócio-fundador do Dinheirama. Atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente.

Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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