Em 1918, logo após o término da Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos se tornavam a maior potência econômica mundial. Além das grandes fábricas de automóveis e produção em larga escala de aço, comida enlatada, carvão e máquinas, o país causava muita euforia em enorme parcela da população mundial.

Foi nessa época que surgiu a famosa expressão “American way of life”, ou seja, estilo de vida americano. Esta era uma época regada à produção, renda em expansão, muito consumo e, consequentemente, muita movimentação (e especulação) no mercado financeiro.

O Crash de 1929 e a necessidade de mudanças

Em 24 de outubro de 1929, iniciou-se a pior crise do capitalismo, o famoso “Crash de 29”, ou também a “Grande Depressão”. Esta crise foi originada pela superprodução agrícola, redução do consumo, livre mercado e quebra da bolsa de valores de Nova York – em resumo, foi uma crise gerada pela produção acima da capacidade de consumo.

Em 1930, a crise se agravou ainda mais, levando muitos empresários à falência e a um quadro de desemprego em massa. Em 1933, Roosevelt foi eleito presidente dos Estados Unidos e elaborou um plano econômico chamado New Deal (novo plano, em tradução livre).

Neste plano, o Estado passou a “vigiar” o mercado, disciplinando os empresários, corrigindo os investimentos arriscados, criando leis sociais que protegiam os empregados e desempregados e fiscalizando melhor as operações realizadas através da bolsa de valores.

Além disso, foram criadas empresas estatais, que elaboraram um plano de obras públicas e construíram praças, canais de irrigação, estradas, escolas, aeroportos, portos, habitações populares e etc. O New Deal conseguiu obter ótimos resultados, tanto que no início da Segunda Guerra Mundial o Estado passou a ter controle sobre a economia do seu país.

O Brasil também precisa de um New Deal? Daria certo?

O Brasil está em crise econômica, o desemprego só tende a crescer e muitas obras de infraestrutura precisam ser realizadas. Fazendo uma analogia bem simples, talvez uma espécie de New Deal possa ser uma saída para o Brasil. Será? Neste texto, procuro explicar por que isto seria “impossível” de acontecer por aqui.

Segundo dados oficiais divulgados pelo IBGE, o PIB brasileiro em 2014 cresceu apenas 0,1%. Isto se deve, entre outras muitas coisas, aos crônicos problemas de infraestrutura, que acabam comprometendo tanto a cadeia de abastecimento e produção de itens, quanto o escoamento de mercadorias no país.

O Brasil enfrenta grandes problemas em suas rodovias, para começarmos pelo exemplo clássico. Temos cerca de um milhão e setecentos mil quilômetros de estradas, entre as esferas federal, estadual e municipal, sendo que apenas 14% são asfaltadas, segundos dados da Agência CNT de notícias. Outro problema encontrado é o enorme “vazio” de ferrovias entre as fronteiras agrícolas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Os portos do Brasil são considerados arcaicos quando comparados aos de grande referência mundial, como o de Roterdã na Holanda e o de Cingapura. Além disso, há toda uma politicagem e uma grande burocracia que acabam concentrando um grande volume de operações em poucos portos e, assim, dificultam o abastecimento e escoamento de produtos.

Os aeroportos representam cerca de 1% apenas do escoamento no país, sendo que os serviços ainda são de péssima qualidade quando comparados com os pares mais desenvolvidos.

Segundos da Fundação Dom Cabral, o Brasil investe cerca de 2% do PIB em infraestrutura, o que nos deixa na última posição entre os países integrantes do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). O ideal levando em conta o tamanho de nossa economia seria investir 8% do PIB.

Estes problemas de logística citados anteriormente também contribuem para os altos custos de exportação em relação a outros países. Por exemplo, é mais caro exportar soja no Brasil que nos Estados Unidos, sendo que o Brasil é o maior produtor de soja do mundo.

Além dos necessários investimentos em infraestruturas já citados e defendidos aqui, é preciso construir mais hospitais, escolas e investir “pesado” para “amenizar” os problemas de abastecimento e fornecimento de energia.

Problema 1: Custo Brasil

No Brasil, todas as obras de infraestrutura acabam sendo mais caras que em muitos países com economia semelhante e também mais ricos. Um exemplo atual que pode ser citado é o do Mundial de Futebol realizado aqui em 2014, considerado o mais caro da história.

O Custo Brasil se deve à alta carga tributária, elevados encargos trabalhistas e, principalmente, pelas “comissões” (propinas!) pagas pelos empreiteiros aos políticos para “vencerem” as licitações e conseguirem os contratos, conforme pode ser acompanhado constantemente na mídia.

Problema 2: Corrupção nas estatais

Um exemplo bem atual de corrupção em empresa estatal é o da Petrobras, a partir da Operação Lava Jato, lançada pela Policia Federal para investigar esquemas de lavagem de dinheiro e corrupção envolvendo empreiteiras, políticos e a Petrobras.

Além de obras superfaturadas, a Petrobras foi responsável por causar uma onda de desemprego e falências em empreiteiras/fornecedores que estavam realizando as “obras” das refinarias, conforme se pode observar ao ler o noticiário e acompanhar o desdobramento das investigações.

Situações como estas só agravam mais a crise de confiança vivida pelo país, repelindo cada vez mais os investimentos estrangeiros.

Conclusão

Conforme observado no decorrer deste artigo, a história serve para mostrar como determinados problemas foram solucionados no passado e como estas soluções podem ser aplicadas no presente para “resolver” o futuro.

Como o Brasil possui sérios problemas de infraestrutura, o New Deal brasileiro poderia “amenizar” com certo sucesso a situação do país, uma vez que geraria empregos, renda, arrecadação tributária e uma maior margem de resultado nas exportações, afinal o “maior” custo vem da ineficiência da infraestrutura do país.

Poderia, você leu bem! O Custo Brasil, que inclui a corrupção, acaba tornando esse plano inviável. O que parece ser a saída logo se transforma em uma “bomba relógio” e avanços são perdidos em pouco tempo por conta dos desvios de dinheiro, ineficiência na gestão pública e custos.

Talvez o primeiro caminho para sair da crise seja punir de forma severa e exemplar corruptos e corruptores. Um segundo passo talvez seja uma gestão mais transparente e profissional. Estamos muito longe disso? Espero que não!  Obrigado e até a próxima.

Foto “Brazil doubt”, Shutterstock.

João Ribeiro Furtado Neto
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