Crise financeira, hora de aprender alguma coisaO mercado financeiro mundial atravessou, nas últimas semanas, um período de fortes emoções. No Brasil, como no mundo, os reflexos levaram a fortes quedas do índice Ibovespa e de quase todas as ações que dele fazem parte. A crise, criada nos EUA e agravada esta semana mundo afora, parece, enfim, dar seus primeiros movimentos em nosso país. Já há diminuição do crédito e encarecimento do dinheiro em curso. Muito se falou e se discutiu, mas quais as lições que ficam para o investidor?

Quem tem aplicação em renda variável se viu no centro de um furacão, cujo primeiro momento foi devastador. O investidor[bb] que optou pela bolsa e passou a investir em ações apenas nos últimos doze meses tem a decepcionante sensação de ter entrado em uma “gelada”, afinal todos os jornais, revistas e emissoras de TV bombardearam nossas casas com informações sobre a crise e seus desdobramentos.

Quebra do Lehman Brothers, venda, no saldão, do Merrill Lynch, socorro emergencial à seguradora AIG, emissão de títulos da dívida americana de curto prazo, flight to quality. Ufa! Tudo isso trouxe aos nossos ouvidos falas e frases de personagens que passaram a fazer parte de nosso dia-a-dia, como Ben Bernanke (Presidente do FED) e Henry Paulson (Secretário do Tesouro dos EUA). Agora, suas aparições são comparadas às de estrelas de cinema, mas com responsabilidade infinitamente superior.

O Navarro abordou importantes aspectos pessoais decorrentes da crise, o que, de certa forma, me motivou a escrever este texto. O que muito me chamou a atenção nos últimos dias foi o fato de que algumas velhas e sábias lições de mercado foram subitamente esquecidas. Embora o texto aborde aspectos comentados pelo Navarro em seu artigo de quarta-feira, preferi abordar os temas de forma mais referencial, com alguns números e representações.

Para nossa alegria, temos recebido inúmeros e-mails de pessoas interessadas em entender os problemas e aprender sobre a questão, para só então começarem a investir. O leitor Braga, por exemplo, pede que apontemos os fatores capazes de direcionar os ainda novatos no mundo dos investimentos em ações[bb]. Pois bem, com enfoque mais teórico e informativo, arrisco-me a citá-los:

Renda variável
É um mercado de risco, marcado pela volatilidade. O período 2003-2007, de retornos muito acima da média, animou muita gente e trouxe investidores carregados de emoção e pouca informação. Como o próprio nome já diz, renda variável é um tipo de aplicação que varia bastante, o que significa ver retornos positivos e negativos.

O investidor precisa estar certo de que, muitas vezes em uma velocidade espantosa, tudo pode mudar. A viagem ao sucesso depende do desenvolvimento das habilidades financeiras de cada um, do prazo determinado e das estratégias escolhidas. Por exemplo, diversificar (manter parte do patrimônio em renda fixa, parte em ações etc.) ajuda.

O fator tempo
Quem comprou ações da Petrobras há 10 anos, e mantém os ativos em sua carteira, tem hoje rentabilidade aproximada de 1900%. Que tal? Pois é, mesmo após todo esse sobe e desce, diversas crises financeiras (quem se lembra do problema com a Ásia?), o retorno acumulado é muito expressivo. Ah, o famoso longo prazo, não é mesmo?

O tempo é fundamental para o investidor, diferente do que ocorre com o especulador. Quem pensa no futuro precisa entender que o risco para o investidor[bb] de longo prazo é sempre menor, pois está diluido e expõe menos o capital investido. Dessa forma, pensar no longo prazo significa maximizar o horizonte de valorização. A questão é a pressa, comum nos dias de hoje. Pra que correr?

Comprar na alta e vender na baixa
Esta ai uma das afirmações mais usadas diante desta crise. A lição é importante, mas é preciso interpretá-la com cuidado. Muitos entraram na bolsa em meados de 2007, ao final de um forte ciclo de valorização. A crise traz um novo teste: é possível sustentar o prejuízo e mirar o longo prazo? De novo, o tempo.

Porque é sempre fácil falar, dizem alguns. Mas, felizmente ou infelizmente, é assim que funciona: aquele que enxerga uma crise como oportunidade pode ter, no decorrer dos anos (o bendito tempo), ganhos significativos, pois existe a possibilidade de adquirir ativos subvalorizados. Para quem investe pensando assim, comprar na baixa e vender na alta parece não ser algo muito complicado.

Não direcionar todo seu patrimônio para a renda variável
Nós insistimos. Muito. Por inúmeras vezes, conversando com alguns leitores e amigos, afirmei que não era financeiramente saudável alocar todo o poder de poupança e dinheiro disponível em ações e produtos de renda variável. “Eu gosto de correr riscos” era resposta comum.

Com dinheiro[bb] não se brinca, mas isso todo mundo sabe. O risco pode até ser calculado para aqueles que planejam, mas a verdadeira diferença está no cuidado com a gestão das finanças, na atenção aos detalhes, ao noticiário e ao que se lê por ai. Nossas avós sempre diziam que “cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”.

Por que falar de tudo isso durante a crise?
Falamos antes, falamos durante e falamos depois. Falamos sempre. Durante porque é importante lembrar aos que ainda vivem o terror da crise que há saída, há horizonte possível no longo prazo. Durante porque aqueles que jamais vivenciaram um crise capaz de devorar seu dinheiro podem aprender e incorporar importantes lições.

O Dinheirama é um espaço de aprendizado, como sempre costumamos afirmar. Jamais assumimos a responsabilidade de direcionar seus investimentos[bb] para A, B ou C. Nossa preocupação é, de uma forma bastante sincera, didática e agradável, transformar o universo financeiro, tido por muitos como extremamente técnico, em leitura acessível e em debates de alto nível. O resto é conseqüência.

Reafirmamos aqui nosso compromisso com a responsabilidade de mantê-lo como nosso maior patrimônio. Com crise ou sem crise, levamos adiante a bandeira da educação financeira, do suporte técnico, da opinião honesta e da amizade, valores e atitudes que sobrevivem diante de qualquer tempestade. Bom final de semana.

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Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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