Crise financeira: saberemos surfar a Você se lembra do que disse o Excelentíssimo Presidente de nosso país ao ser questionado sobre a crise econômica e seus efeitos na economia real do Brasil? Ah, e quem esqueceria tal frase, não é mesmo? “Uma marolinha”, assim Lula classificou os efeitos da crise quando (e se) esta chegasse por aqui. Blah, marolinha que nada: eu conheço pelo menos uma pessoa que foi demitida e/ou teve férias coletivas impostas pela empresa. Você também deve conhecer, certo? Isso não pode ser normal.

E não é. Setores como alimentos e bebidas, mineração, papel e celulose, telecomunicações, entre outros, já vivem significativa queda de lucratividade e resultados muito abaixo daqueles esperados pelos seus acionistas. Vendas são perdidas, contratos cancelados. Traduzindo, serão realizados menos investimentos[bb] nestas áreas fundamentais para o aquecimento da economia real. Isso mesmo, 2009 será um ano “apertado”.

Quer ver? O uso do lançamento de ações como fonte de financiamento produtivo e captação de recursos certamente vai continuar em ritmo lento. Com a volatilidade que marca o ano de 2008 (retorno próximo de 40% negativos), empresas com bom potencial de abertura de capital deverão esperar mais. Quem sabe em 2010?

É mesmo tão grave?
Segundo levantamento realizado pelo jornal Folha de S. Paulo, o total de investimentos produtivos adiados que foram anunciados por grandes empresas brasileiras somam, pelo menos, R$ 40 bilhões. Segundo o estudo, o valor se refere a companhias que admitiram estender cronogramas de seus projetos ou cancelaram empreendimentos após 15 de setembro, data da intensificação da crise (falência do banco Lehman Brothers). É muito dinheiro, não acha?

Em suma, projetos importantes de infra-estrutura e expansão industrial foram cortados e ainda serão revisados. Você, claro, deve estar pensando na queda do número de vagas disponíveis no mercado de trabalho. Também já deve estar preocupado com possíveis demissões decorrentes do enorme esfriamento da economia neste final de ano e nas previsões para 2009. Como investidor[bb], você também deve estar preocupado com suas aplicações financeiras para o ano que chega.

Só para constar, outubro registrou apenas 61.400 novos empregos com carteira assinada no Brasil. Setembro, 282.800. Agosto, 239.100. Julho, 203.200. Imagine como ficariam estes números em um gráfico – não vou plotá-lo porque sua imaginação vai percebê-lo exatamente como uma marolinha. O Presidente acertou na mosca.

O que dizem as pesquisas?
Lula conta com 70% de aprovação, segundo pesquisa do Datafolha. Espantoso, mas não surpreendente. Que presidente teria coragem de usar a expressão “marolinha” para definir efeitos de uma grave crise econômica? Isso para não abordar outras falas históricas. Ele é um brasileiro típico, que influencia pelo que é, não pelo que logra realizar enquanto figura número 1 da nação. Mérito dele, é claro. Intrigante, é claro. Eliane Catanhêde, articulista da Folha, completa:

“O mesmo Datafolha que apurou os 70% de Lula completou a informação: 78% dos brasileiros estão otimistas e achando que a vida vai melhorar em 2009. Mais: 58% acreditam que serão pouco afetados, e 10%, nada afetados. Crise? Que crise? Os brasileiros, portanto, ainda acreditam em Papai Noel e que a crise é só uma marolinha, enquanto o tsunami devora 1,2 milhão de vagas em três meses e 533 mil num único mês nos EUA. E está vindo.”

Mas o brasileiro é um povo único…
A crise se agravou e a popularidade do Presidente aumentou. Engraçado, porque quando a FGV pesquisou o ICC (Índice de Confiança do Consumidor), em novembro, notou que a confiança é 15,2% mais baixa que a encontrada no mesmo mês do ano passado. O consumidor reconhece que a situação das finanças[bb] da família não é tão favorável e concorda que comprar agora pode trazer problemas financeiros no futuro.

Seremos tão inteligentes e informados assim, a ponto de não incutir em Lula uma pequena parcela da culpa pelos problemas? Pudera, mas não creio. O número de entrevistados que acredita ser mais difícil arranjar um emprego nos próximos meses é mais de duas vezes maior que aquele que representa os que julgam ser mais fácil. Então o brasileiro sabe que algo não cheira bem e tem noção de que o perigo para a economia real já se instalou, mas ama seu representante porque ele é um “brasileiro de verdade”?

“Tem horas que me sinto um dom Quixote. Às vezes me sinto sozinho tentando pregar o otimismo em uma coisa muito prática, que é fazer a economia girar” – Lula

Otimismo não faz mal nenhum. Aliás, é fundamental para que tenhamos automotivação e energia para superarmos os obstáculos do dia-a-dia. Mas doses excessivas de autoconfiança, especialmente nos líderes, podem causar a falsa sensação de que tudo vai bem. Fico com a impressão de que o Estado está cuidando de tudo, inclusive de nos induzir ao falso testemunho de que estamos felizes. Não estamos. Eu não estou.

A economia real desmorona lentamente ao redor de nossos lares e de nosso ambiente profissional. Mentira? O drama da recessão norte-americana pode chegar ao Brasil. Este artigo pode ser esquecido rapidamente – aliás, torço muito por isso. Tudo pode acontecer, mas para 2009 não parecem sustentáveis as garantias de crescimento do PIB e retomada do crescimento. No entanto, uma certeza se avizinha: a marolinha renderá ótimas ondas. Será que saberemos surfá-las?

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Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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