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Cuidado com as Pessoas que Moram no Facebook

por Conrado Navarro
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Não sei você tem a mesma sensação que eu, mas parece haver um contingente cada vez maior de pessoas que “moram” no Facebook. Essa sensação é traduzida em cada vez mais tempo dedicado à rede social e diversos perfis virtuais ideais, verdadeiros modelos de líderes, esposas, maridos, amigos e profissionais.

Ao criarem a realidade desejada através de fotos, postagens, compartilhamentos e comentários, os moradores do Facebook acabam acreditando na nova versão de suas vidas e passam a se ver dependentes dessa nova imagem gerada. Vivem a emoção de finalmente terem controle de sua vida e fazer dela o melhor que podem, ainda que seja apenas no plano virtual (e de mentira, é claro!).

Facebook, o país ideal?

Você já deve ter reparado em como o Brasil apresentado pelos políticos em seus perfis no Facebook é bem diferente daquele em que você vive. Uma maravilha no mundo virtual, mas como fica o dia a dia do lado de fora da janela? Você enxerga tudo o que está sendo dito e compartilhado no Brasil real? Pois é, nem eu!

Você também já deve ter reparado que a maioria dos seus amigos enaltece o trabalho voluntário e as ações transformadoras de pessoas extraordinárias e suas histórias nas redes sociais, mas nunca participou de alguma iniciativa neste sentido e tampouco doou um agasalho que seja. É mais fácil clicar em “Compartilhar” que compartilhar de fato.

O que dizer dos vídeos e fotos das comidas experimentadas, da vista da varanda de casa, de cada esquina conhecida e cada instante de um evento ou viagem? Os momentos e experiências são para serem vividos com intensidade, não para serem “jogados na cara dos outros” (ninguém admite que é isso que se pretende, é claro!).

Lembranças ou “likes”?

O registro de nossas experiências deveria servir para acionar nossa memória e despertar lembranças vivas daquele instante, mas hoje isso parece superado pelo registro para o puro marketing pessoal (“Eu vou a mais lugares legais que você porque sou livre”) e para despertar a inveja (“Viu só onde e com quem eu estive? Viu como sou feliz?”).

Alguns dirão que estou exagerando e que ao compartilhar queremos que os outros vejam aquilo que logramos alcançar, tudo com o objetivo nobre de compartilhar nossa felicidade, e só isso! Pode ser, mas por que não optar por primeiro curtir intensamente a felicidade e fixá-la antes na memória para só depois pensar em contá-la para o mundo?

Fotografias, vídeos, comentários, opiniões, tudo isso agora existe para receber curtidas e compartilhamentos. Ao postar alguma coisa no seu perfil, o adepto do exibicionismo virtual fica voltando a todo instante para contar seus “likes”. Seus momentos e suas experiências – que deveriam trazer prazer pelo simples fato de terem sido vividos – agora geram angústia numa competição por popularidade.

Se por um lado a facilidade de contato e a manutenção de grupos de interesse é um fantástico benefício das redes sociais, o engajamento presente no virtual parece sempre muito maior que aquele necessário para mudar de verdade as coisas do lado de fora do computador.

“Curtir” é facil, mas e viver?

Não surpreende que seja assim, afinal os problemas seguem sendo os mesmos, assim como as pessoas. Arregaçar as mangas e fazer alguma coisa pelo bem comum ou mesmo para sanar uma questão pontual exige muito trabalho, dedicação, persistência e competência. Ficar clicando em “Curtir” e “Compartilhar” e muito mais fácil.

Arrisco-me a dizer que as redes sociais se tornaram, em muitos casos, uma ferramenta de marketing pessoal e “geração de inveja”, mesmo que este não seja exatamente o objetivo dos moradores do fantástico mundo virtual. O problema, infelizmente, é mais grave de que “apenas” querer se exibir; estamos diante de uma autoimagem distorcida e carente de atenção real.

O resultado da perigosa relação que envolve baixo autocontrole e muita expectativa acaba sendo o refúgio dentro de uma realidade paralela, ideal (ou surreal?!), que pode ser criada a partir dos perfis, relacionamentos e compartilhamentos nas redes sociais. Quase que como atores, há um grupo enorme de pessoas representando, transmitindo uma imagem absolutamente fantasiosa sobre si mesmo e seus feitos.

As consequências destas atitudes para o convívio familiar são diversas e perigosas. Dentre elas, cito:

  • Problemas financeiros decorrentes do exagero necessário para manter as postagens fantasiosas em dia. Roupa nova a todo instante, viagens e um estilo de vida de mentira implicam gastos excessivos. Infelizmente, a imagem parece ser mais importante que a realidade, o que leva famílias inteiras à ruina financeira na busca por status;
  • Divórcios ou brigas constantes entre quatro paredes. As fotos nas redes sociais são sempre do casal em harmonia, da família curtindo momentos fantásticos ou do cônjuge sarado, mas o dia a dia geralmente é de cobranças e discussões por conta da exposição cada vez maior no mundo virtual. Já vi casais se separarem por conta disso;
  • Amizades superficiais e vazias. É comum que pessoas com interesses comuns se mantenham em contato, mas se estes interesses são superficiais e/ou fúteis, as amizades criadas a partir deles serão igualmente desinteressantes. O círculo vicioso se fecha na medida em que passar tanto tempo online e com essas pessoas passa a ser a atividade principal do indivíduo;

Conclusão

Que fique claro que este texto não é uma crítica ao Facebook ou às redes sociais como um todo. Interpretar o texto de hoje desta forma é simplificar a questão e isentar-se da responsabilidade de viver de verdade a sua vida. A questão central somos nós, cidadãos, pessoas, e como temos agido no universo virtual.

Conheço muitas pessoas que simplesmente decidiram sair das redes sociais e curtir mais e melhor a vida. Não se arrependeram. Assim como conheço muita gente que usa as redes sociais com o conceito simples de manter contato e conversar com pessoas que moram longe.

Existem os que equilibram bem seu tempo e são os mesmos online e off-line, embora mantenham seus perfis sempre atualizados e com alguma coisa coerente compartilhada. No final das contas, só existe uma vida a ser vivida e seus desdobramentos, virtuais ou reais, serão reflexos de quem somos e nossas atitudes. Portanto, muito cuidado com as pessoas que moram no Facebook.

O texto é um convite à reflexão sobre nossos hábitos virtuais e o quanto estamos deixando de fazer para satisfazer expectativas dos outros, decisão essa que costuma cobrar um preço alto. O que você pensa sobre o tema? Deixe sua opinião no espaço de comentários ou mande-me uma mensagem no Twitter – sou o @Navarro por lá. Até a próxima.

Foto “Surfing the Internet”, Shutterstock.

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