Esforços somados geram resultados sensacionais! Hoje compartilho com você, caro leitor, uma entrevista com uma profissional que admiro muito, e que desempenha um fantástico trabalho em prol da educação financeira.

Conversei com Angela Nunes, CFP®, planejadora financeira certificada pelo IBCPF. Ela é Economista com extensão em Psicologia Econômica pela FIPECAFI e especialização em Mercado de Capitais pela FGV, além de Consultora e Administradora de Valores Mobiliários autorizada pela CVM.

Angela é sócia da Moneyplan – Consultoria em Planejamento Financeiro e Educação Financeira, docente do Curso de Planejamento Financeiro do INSPER e membro das Comissões de Educação e de Comunicação do IBCPF e do Grupo de Estudo e Trabalho em Psicologia Econômica (GET-PE) e da International Association for Research in Economic Psychology (IAREP).

Uma pioneira e sempre com conteúdo e opiniões muito inteligentes, Angela foi Diretora do Banco Itamarati, da BCN Alliance Capital Management e do Banco BCN/Bradesco e traz luz a diversos temas ligados ao nosso bolso. Confira como foi nossa conversa:

Angela, como você vê o atual nível de educação financeira da população brasileira? Existe alguma forma de avaliarmos esse quesito ou isso sequer aparece como algo visível? Quais os desafios neste sentido?

Angela Nunes: A educação financeira no Brasil ainda é um tema que precisa entrar na pauta das discussões e ações da sociedade como um todo. Não é um tema que deve ser preocupação apenas dos governos, é preciso que a sociedade se envolva na sua implementação.

Obviamente já temos ações importantes acontecendo, como o Programa de Educação Financeira nas Escolas da ENEF, que é um programa muito bem elaborado, mas a sua abrangência ainda é pequena comparada com as imensas necessidades brasileiras.

Sou uma forte defensora de que a Educação Financeira deveria fazer parte obrigatória da grade escolar do Ensino Fundamental ao Ensino Superior. Todas as escolas deveriam estar preocupadas com o tema porque temos que preparar os cidadãos. Pensar na vida financeira tem que fazer parte do cotidiano das pessoas.

Afinal, todos nós temos que lidar com a nossa vida financeira e se não o fizermos bem, nos tornaremos um passivo para nós mesmos, para as nossas famílias e também para a sociedade.

Tenho um enorme receio de que, pela falta de Educação Financeira e Planejamento Financeiro, agravemos ainda mais um dos grandes problemas de grande parte da população: passar pelo dissabor de uma longevidade sem recursos para o seu próprio sustento.

Na sua experiência com atendimento a pessoas com problemas, quais são as questões mais comuns relacionadas ao planejamento financeiro? Que sugestões pode oferecer ao nosso leitor para abordá-las?

A. N.: Antes de responder as suas questões, vou pedir licença para fazer algumas colocações: de maneira geral, acho que o grande problema em relação ao Planejamento Financeiro é o fato das pessoas não “enxergarem” o seu enorme valor e benefício.

Um outro ponto muito importante é que quando se fala em Planejamento Financeiro, as pessoas, em geral, pensam em investimentos financeiros e automaticamente acham que Planejamento Financeiro é para quem tem recursos para aplicar. Isto não é verdade, Planejamento Financeiro é para TODOS!

Se não somos aqueles monges que fizeram votos de pobreza, temos vida financeira e precisamos dar atenção à ela. E temos que tratá-la de forma natural, não como algo no qual estamos envolvidos “de vez em quando”; a nossa vida financeira é parte intrínseca do nosso dia a dia, assim como a nossa saúde, por exemplo.

Agora respondendo suas questões: o problema mais comum é que as pessoas não têm uma visão abrangente do seu quadro financeiro. Poucas pessoas fazem orçamento porque:

  • Acham desnecessário, por considerarem que “sabem o quanto gastam nas grandes despesas” e desconsideram os valores menores que é muitas vezes onde mora o problema;
  • Acham muito “chato” fazer orçamento.

Costumo dizer que orçamento é “libertador”, porque a partir dele você tem a ideia clara de para onde vai o esforço do seu trabalho. Além disto, você passa a poder analisar e decidir como administrá-los, o seu orçamento e o seu dinheiro.

Outro ponto importante é fazer as pessoas saírem da inércia, do “status quo” e realmente implementarem mudanças, que incluem hábitos e muitas vezes mexem com valores e negociações familiares que nem sempre são fáceis de tocar e alterar.

Outro ponto é o que chamamos na Psicologia Econômica de “Escolhas Intertemporais”, que implicam em eleger prioridades. Por exemplo: faço uma grande viagem todos os anos ou guardo para a aposentadoria?

O Planejamento Financeiro, por ser um processo ordenado e holístico (vê você como um todo), ajuda muito nas decisões.

Acho que a grande sugestão é começar pelo começo, abrir o “coração” e decidir fazê-lo! Pode ser começando a fazer o orçamento familiar, estabelecendo os objetivos e aí ir desenhando um caminho ordenado. Vale lembrar que sem disciplina é muito difícil implementá-lo.

O consumismo puramente voltado para a ostentação parece ter ganhado muita força no Brasil depois da estabilidade econômica e da farta oferta de crédito. Como lidar com essa situação?

A. N.: O grande caminho é as pessoas começarem a ganhar consciência de que tudo isto tem um preço. E o preço é o comprometimento da sustentabilidade financeira ao longo da vida.

Podemos fazer uma analogia com a fábula da cigarra e da formiga. A sua autoria é atribuída ao grego Esopo, que viveu no século VI antes de Cristo. Ou seja, este é um tema muito antigo, todo mundo conhece alguém com um problema nesta área. No entanto, o grande problema é que nunca vivemos tanto para ter e não para ser. Acho que a sociedade atual está um pouco”adoecida”.

Diante do atual cenário econômico brasileiro e as perspectivas para o futuro, que tipo de investimentos nosso leitor deve ter em seu radar e considerar ao começar suas aplicações?

A. N.: Minha visão em relação ao cenário atual é bastante pessimista. Acho que conservadorismo é uma boa pedida. Apesar de considerar a diversificação de carteira muito importante, acho que, neste período, investimentos mais voltados para renda fixa, especialmente as taxas de juros diárias (CDI e SELIC) e baixo risco de crédito devem ser priorizados.

Se você pudesse reunir as cinco principais atitudes/decisões que uma pessoa deve tomar para mudar seu quadro financeiro, o que diria?

A. N.: Acho que algo assim faz sentido:

  1. Fazer orçamento e estabelecer objetivos;
  2. Não gastar mais do que ganha, preferencialmente, que sobre dinheiro para poupar;
  3. Começar o orçamento estabelecendo o quanto você vai guardar e não deixar para guardar se sobrar alguma coisa no fim do mês;
  4. Não se endividar, especialmente em um momento econômico difícil como nos estamos e estaremos vivendo;
  5. Ter a consciência de que você é o responsável pela sua vida financeira.

Angela, muito obrigado pela disponibilidade. Por favor deixe uma mensagem final ao nosso leitor interessado em educação financeira e também maneiras dele entrar em contato e conhecer seu trabalho. Até a próxima.

A. N.: Eu que agradeço, Conrado, e aproveito para parabeniza-lo pelo fantástico trabalho de educação financeira que faz há tanto tempo. Para o leitor que quiser conversar diretamente comigo, convido-o a acessar meu site em www.moneyplan.com.br. Até a próxima.

Conrado Navarro
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