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Dinheirama Entrevista: Camila Farani, Empreendedora e Investidora

por Isabella Abreu
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Neste mês de março, o Dinheirama celebra o fundamental papel das mulheres na sociedade e sua enorme contribuição para com a educação financeira e o ecossistema empreendedor.

Lan√ßamos o eBook gratuito ‚ÄúFinan√ßas Pessoais para Mulheres‚ÄĚ (clique para download) e no decorrer desta semana publicaremos entrevistas especiais com grandes mulheres da cena empreendedora brasileira.

A primeira entrevista é com Camila Farani, 34 anos, uma referência quando se fala em empreendedorismo no Brasil. Camila é Presidente no Gávea Angels, primeiro grupo de investidores-anjo do Brasil, e está à frente do MIA (Mulheres Investidoras Anjo), uma iniciativa que busca fomentar o investimento-anjo feminino.

Nessa entrevista, ela conta um pouco sobre a sua história e fala sobre o novo perfil das mulheres empreendedoras.

Camila, conte um pouco de sua trajetória e de como o empreendedorismo surgiu na sua vida. 

Camila Farani: Nasci em uma família que tinha como ponto central uma mulher empreendedora. Com a perda do meu pai (eu tinha quatro anos na época) vi surgir uma figura forte e inspiradora, minha mãe, que ao lado do meu irmão começou a administrar uma tabacaria no Rio de Janeiro.

Aos 16 anos, comecei a trabalhar no neg√≥cio fazendo todas as fun√ß√Ķes. Aos 20 anos sugeri uma pequena inova√ß√£o para o neg√≥cio e tive √™xito no resultado. Foi justamente a√≠ que percebi que minha vis√£o diferente e inconformista poderia fazer sentido. Descobri que eu poderia fazer acontecer.

Ingressei na faculdade de Direito e com o pouco capital que dispunha na época, reinvesti sistematicamente para abrir negócios na área de alimentação. Aos 23 anos já comandava minha própria empresa e aos 26 anos já tinha quatro negócios.

De l√° para c√°, com o passar dos anos e aquisi√ß√£o de experi√™ncias na √°rea, fui convidada a ser diretora de um novo projeto de alimenta√ß√£o saud√°vel, da Rede Mundo Verde. Foi quando passei a adquirir mais conhecimento sobre neg√≥cios e suas viabilidades econ√īmicas e gerenciais.

Quando decidi sair do grupo Mundo Verde, j√° com uma bagagem de aprendizado, voltei para meus neg√≥cios e criei o Grupo Boxx, consolidando as marcas de alimenta√ß√£o e criando novos segmentos em servi√ßos para empresas como tamb√©m ao p√ļblico final. Nesse per√≠odo, um amigo me convidou a conhecer o que era investimento-anjo e startups.

Decidi ir a um fórum do Gávea Angels, no Rio de Janeiro e ali me apaixonei pelo empenho e dedicação tanto dos investidores quanto dos empreendedores em estabelecer novas formas de empreender e investir via tecnologia. Era fascinante conhecer outros negócios e poder fazer parte deles de uma certa forma.

Ao longo desse caminho, procurei me especializar tecnicamente já que a prática eu vivenciava por mais de 15 anos.  Fiz cursos de especialização em empreendedorismo na Babson College e Customer Development em Stanford.

Co-fundei a Lab22, junto com dois outros grandes investidores anjo, para um laboratório de investimento-anjo no Brasil, para auxiliar na criação e gestão de startups de tecnologia.

Este ano tive a honra de ser nomeada Presidente da Gávea Angels, associação privada sem fins lucrativos, com o propósito de promover o desenvolvimento de startups, a mesma que havia ingressado quatro anos atrás. Também sou professora de empreendedorismo e inovação no curso de pós-graduação da FGV e participo de grupos e entidades focados em apoiar startups.

Investimento-anjo é um investimento de grande risco. Por que você decidiu se tornar anjo e qual tipo de análise você faz para diminuir o potencial de risco em suas escolhas?

C.F.: Tudo aconteceu de forma muito natural. Fui participar de um evento na Gávea (Angels) e sentei em um auditório com aproximadamente 35 homens, ali naquele momento despertou uma vontade que até então era desconhecida.

Eu me apaixonei por investimento-anjo e comecei a avaliar empresas e estudar muito para entender como todo aquele universo funcionava. Uma mulher na época me disse que tinha uma empresa de cosméticos e tinha uma grande dificuldade de dialogar sobre negócios porque não existiam investidoras. Foi aí que comecei a me dedicar de verdade (ao investimento-anjo) e consequentemente aos seus desdobramentos no mercado.

Depois fiz um curso em Stanford, com Steve Blank, um dos maiores nomes do cen√°rio empreendedor, para entender a din√Ęmica das startups, mas sobre investimento eu aprendi na pr√°tica, estudando muito e observando como fundos de venture capital faziam para adaptar ao modelo de investimento-anjo.

Os riscos estão presentes em qualquer investimento que façamos, mas algumas dicas para quem deseja entrar na área e que pode ajudar a evitar erros desnecessários giram em torno principalmente do controle da ansiedade e do impulso.

Um investidor-anjo analisa umas 10 startups no primeiro momento, não faz investimento de cara, questiona, estuda o negócio em todas as suas vertentes. Outra coisa: invista com quem já faz isso há mais tempo.

Eu adotei essas premissas e aprendi com quem já fazia (todos homens, claro!) Agora quero reverberar isso para o conhecimento chegar a outras mulheres, este é o objetivo.

Leitura recomendada: Por que o Investimento Anjo é um bom negócio?

Conte um pouco sobre a criação do MIA (Mulheres Investimento Anjo). Como funciona o grupo e qual é o seu objetivo?

C.F.: Como eu disse acima, este ainda é um universo onde a atuação masculina predomina e honestamente não vejo nenhum problema nisso. O aprendizado é enriquecedor e complementar aos nossos atributos que vêm da essência, como sensibilidade, multitarefas e olhar detalhista.

Ao longo das √ļltimas d√©cadas, n√≥s mulheres quebramos diversos tabus e paradigmas e j√° est√° mais que provado que somos capazes, competentes e extremamente profissionais.

Foi pensando em tudo isso que em 2014 fundamos o Mulheres Investidoras Anjo (MIA), grupo que busca atrair mulheres para investir em startups no Brasil e, consequentemente, ajudar mais mulheres a criar negócios inovadores. Estudamos algumas pesquisas que relatavam que mulheres investem muito mais em mulheres e com isso conseguimos ter um impacto no ecossistema todo.

Acho que a mulher tem que entender e se conscientizar da import√Ęncia do associativismo e do networking. Voc√™ precisa se unir com pessoas que t√™m interesses semelhantes aos seus.

Como você analisa o perfil da mulher empreendedora? O que tem levado as mulheres a empreender? Há alguma mudança em relação a alguns anos atrás? Como o interesse das mulheres por empreendedorismo evoluiu ao longo do tempo?

C.F.: Nos √ļltimos anos houve crescimento, em rela√ß√£o a conscientiza√ß√£o e acesso √†s oportunidades e atua√ß√£o das mulheres nesta √°rea, sem d√ļvida nenhuma. Acho que essa amplifica√ß√£o que a gente tem (do empreendedorismo) se deu em fun√ß√£o da revolu√ß√£o tecnol√≥gica que est√° trazendo muito mais for√ßa para as mulheres. Alia-se a isso movimentos femininos (ou feministas) ao longo de todo o mundo ganhando for√ßa.

Sem contar que ter mulheres no poder tamb√©m alavanca movimento e consequentemente acaba inspirado as demais que passam a pensar ‚Äúse ela conseguiu, eu tamb√©m posso‚ÄĚ.

Quando você vê mulheres como a Luiza Helena Trajano (do Magazine Luiza) liderando esses movimentos femininos, o engajamento também aumenta, além de iniciativas como o MIA e a Rede Mulher Empreendedora.

Quais s√£o as maiores dificuldades de hoje para as mulheres que querem empreender?

C.F.: As principais dificuldades giram em torno da própria autoconfiança e autoconhecimento. Quando a mulher acredita em si mesma e entende quais são seus objetivos ao empreender e principalmente aonde pretende chegar, tudo fica infinitamente mais fácil.

Hoje isso soa como clichê, mas a verdade é que somente entendendo seus pontos fortes e fracos, você consegue direcionar sua vida trazendo pessoas que são melhores do que você naquilo que você não é.

Importante ter uma meta, lutar para atingi-la e assim criar outras metas. Vejo pessoas chegando para mim e dizendo que precisam de dinheiro. Eu pergunto o motivo e dizem que é para capital de giro. Aí eu pergunto por que precisa de capital de giro e ela não sabe responder.

Existe menos uma cultura de entender metas, indicadores e objetivos entre as mulheres at√© por uma quest√£o hist√≥rica. A mulher se inseriu no mercado de trabalho muito depois do homem. √Č uma quest√£o de tempo, experi√™ncia pr√°tica e dedica√ß√£o para isso mudar.

Leitura recomendada: Empreender: um estilo de vida com alguns desafios e muitas recompensas

Você trabalha em um mercado que é composto por uma grande maioria masculina. Como lida com isso? Ainda há muito preconceito contra a mulher?

C.F.: N√£o gosto de usar a palavra preconceito, pois ela j√° denota um inconsciente negativo. Creio que quanto mais usarmos, mais ela se propaga; prefiro ressignificar a palavra para degrau.

Não se trata de uma visão poética e sim de alguém que precisou entender na dor, como ter um lugar ao sol. Então, prefiro dizer que tive muitos degraus enfrentados e ainda os tenho todos os dias, o que ocorreu foi uma mudança na minha forma de encará-los.

√Č not√≥rio que com tudo que j√° provamos at√© aqui ainda tem aquela coisa da mulher precisar trabalhar dez vezes mais para provar sua capacidade e compet√™ncia. Como todas as mulheres (e homens tamb√©m), em algum momento da minha vida j√° fiz isso, precisar de certa forma me provar.

Mas hoje percebo que isso é um erro, é um rótulo desnecessário. Não tem que trabalhar mais para compensar nada, você tem é que trabalhar nos seus pontos fortes por você, não pelos outros (ou pelo que vão achar ou pensar de você).

Quais benefícios e vantagens você enxerga no empreendedorismo como uma opção de vida? 

C.F.: Ser empreendedor √© voc√™ se tornar protagonista da sua pr√≥pria vida. √Č investir em ideias, sonhos, prop√≥sitos e o mais importante: fazer com que sua rotina seja repleta de grandes conquistas, parcerias, metas alcan√ßadas, evolu√ß√Ķes di√°rias que te motivam e fazem com que todo esfor√ßo e dedica√ß√£o sejam recompensados.

Muita gente ainda acha que ser dono do seu próprio negócio significa trabalhar menos ou ficar rico rapidamente, dois equívocos. Um empreendedor pensa e vive seu negócio 24 horas por dia de forma prazerosa, mas não menos estressante, afinal, é justamente essa pessoa que quer ver seu negócio deslanchar. E dinheiro é consequência do trabalho, dedicação e escolhas a médio e longo prazo.

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