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Dinheirama Entrevista: Deb Xavier, Empres√°ria e Idealizadora do Jogo de Damas

por Isabella Abreu
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O Dinheirama segue trazendo excelentes e inspiradoras entrevistas com mulheres de sucesso. Hoje, o papo é com Deb Xavier, empresária, idealizadora do Jogo de Damas e expert em empreendedorismo feminino e carreira da mulher.

Deb foi escolhida embaixadora brasileira do Women‚Äôs Entrepreneurship Day (Dia do Empreendedorismo Feminino), uma iniciativa conjunta da Funda√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas e do Departamento de Estado Americano.

Em 2015, Deb foi apontada como uma das 21 mulheres que estão fazendo do Brasil um país melhor. A seguir, confira um bate-papo sobre empreendedorismo, carreira e negócios para mulheres.

Deb, conte um pouco de sua trajetória e de como o empreendedorismo surgiu na sua vida. 

Deb Xavier: Para falar sobre minha trajetória e sobre como o empreendedorismo surgiu na minha vida, acho que ficaria incompleto se eu não contextualizasse falando de minha atuação profissional atual.

Hoje eu atuo com o Jogo de Damas, que √© um neg√≥cio social voltado para o protagonismo profissional e econ√īmico de mulheres da gera√ß√£o Y atrav√©s de informa√ß√£o, conte√ļdo, eventos e projetos criativos.

Tamb√©m lancei agora em mar√ßo a Impacta – que presta consultoria e desenvolve projetos inovadores para empresas, governos e institui√ß√Ķes com foco no potencial econ√īmico feminino.

Minha trajetória não é linear e passa por diversas áreas. Quando saí do colégio fui estudar Arquitetura e Urbanismo na UFRGS, onde fiquei por alguns anos, mas não cheguei a concluir. O curso me deu uma visão política da influência do ambiente e do espaço na sociedade que hoje também fazem parte do meu arcabouço teórico.

Depois de um tempo, troquei o curso por Rela√ß√Ķes Internacionais, na mesma universidade. Esse segundo curso foi uma experi√™ncia completamente diferente, pois eu tinha uma facilidade com os assuntos, mas faltava a paix√£o, o desafio que havia na arquitetura.

O fato de eu n√£o ter ingl√™s fluente me levou a buscar uma experi√™ncia no exterior ‚Äď e acabei passando uma temporada em Nova York, onde participei de um programa de trabalho para estudantes.

Quando voltei desse per√≠odo no exterior, fui trabalhar na startup de um amigo e tive o primeiro contato mais aprofundado com empreendedorismo. Me apaixonei. Continuava estudando Rela√ß√Ķes Internacionais num turno, no outro trabalhava com meu amigo e, claro, tinha minha filha para cuidar (eu fui m√£e aos 16 anos).

Comecei a frequentar eventos e fazer cursos sobre tudo que envolvesse tecnologia, startups, empreendedorismo, negócios. Depois de um tempo, saí da empresa do meu amigo e achei que estava preparada para abrir a minha própria. Fechamos por falta de maturidade, falta de experiência. Ficou o aprendizado.

Mas foi a partir dessa empresa que fracassou que dei início ao Jogo de Damas, então valeu a pena. Acho que a vida é isso, a construção de nós mesmos ao longo do caminho.

Como surgiu a ideia de criar o Jogo de Damas e qual o seu propósito?

D. X.: O Jogo de Damas surgiu de maneira espont√Ęnea, por acaso e sem grandes ambi√ß√Ķes. Eu trabalhava com tecnologia na √©poca e foi a vontade de querer discutir as quest√Ķes de g√™nero e tamb√©m querer discutir neg√≥cios tamb√©m entre mulheres (os ambientes de neg√≥cios eram, at√© ent√£o, dominados por homens) que me levou a criar um encontro informal entre mulheres.

A ideia era reunir mensalmente 7-15 mulheres em Porto Alegre, isso em março de 2012, quando ainda não se falava massivamente de empreendedorismo ou empoderamento feminino.

Para minha surpresa, no primeiro evento vieram quase noventa mulheres, desconhecidas, mas que se interessaram pelo tema. Ali eu percebi que eu n√£o estava sozinha nas minhas inquieta√ß√Ķes e que existia um problema a ser resolvido – e uma oportunidade.

Completamos quatro anos agora em mar√ßo de 2016 e tivemos grandes conquistas. O Jogo de Damas esteve presente em quatro regi√Ķes brasileiras (s√≥ falta a regi√£o Norte!), temos parcerias internacionais, somos um dos principais projetos brasileiros na √°rea de empoderamento econ√īmico e profissional feminino.

O prop√≥sito √© levar conte√ļdo de qualidade sobre e para mulheres profissionais, estejam elas empreendendo ou no mercado de trabalho. Tamb√©m queremos fomentar a discuss√£o na sociedade, na imprensa, no governo sobre a relev√Ęncia e o impacto econ√īmico da mulher.

O objetivo √© que sejam criadas pol√≠ticas corporativas e p√ļblicas que levem em considera√ß√£o as necessidades dessas mulheres, para que elas, n√≥s, sejamos consideradas partes relevantes e estrat√©gicas da sociedade. N√£o apenas porque n√≥s somos expressivas numericamente (somos maioria), mas porque somos relevantes socialmente, economicamente e politicamente.

Onde você busca inspiração para realizar seu trabalho?

D. X.: Num primeiro momento na minha avó Cecilia, que trabalhou desde cedo. Na minha mãe, Marli, que trabalhou para pagar a faculdade na década de 70, numa época em que as mulheres eram minoria no ensino superior.

Mas, mais ainda, nas diversas mulheres que me cercam e frequentam meus eventos, que eu conheço diariamente, que me são apresentadas. Ou na Adriani Gonçalves, que era diarista e iniciou um negócio na área de organização de residências. A Adriana é um exemplo de resiliência, garra e perseverança.

Eu também me inspiro na Bianca Magalhães, minha personal stylist e que se mostrou uma profissional séria, competente e altamente dedicada. E na Patrícia Chiela, minha role model em termos de profissionalismo, ética profissional e qualidade de entrega. São mulheres assim, do meu dia a dia, que me inspiram.

Essas s√£o algumas delas. Coleciono v√°rias. E claro, minha filha, Tathiana; ela me inspira, me motiva. Por ela busco ser uma pessoa, uma profissional, uma m√£e e uma mulher melhor.

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Muitos dos problemas que as mulheres enfrentam no ambiente de trabalho est√£o relacionados a uma cultura machista. Qual a sua avalia√ß√£o sobre isso? As empresas t√™m prestado mais aten√ß√£o na import√Ęncia de promover a diversidade?

D. X.: Do meu ponto de vista existe sim uma cultura machista em muitos ambientes de trabalho, mas também existem ambientes de trabalho que são masculinos, e não machistas.

Precisamos levar em considera√ß√£o que muitas empresas, principalmente as grandes, foram constru√≠das h√° mais de 50 anos, quando as estruturas sociais e familiares eram outras ‚Äď o papel social da mulher era outro. √Č natural que a cultura corporativa reflita isso.

Os próprios diretores e gerentes, a maioria são pessoas mais velhas Рhomens mais velhos, com 50 anos ou mais; pessoas que cresceram numa sociedade com estrutura social diferente. Nasceram com uma legislação diferente, homens e mulheres não eram iguais perante a lei.

Se formos pensar, o ambiente de trabalho e a cultura corporativa s√£o velhos para a nova gera√ß√£o – e os gerentes e diretores est√£o tamb√©m. Provavelmente as m√£es (e talvez as esposas) desses gerentes e diretores n√£o trabalharam. Essas gera√ß√Ķes est√£o em choque.

A gente v√™ muitos RHs falando disso em termos de gera√ß√£o X, Y, Z. Mas esquecem que para os homens dessas gera√ß√Ķes pouco mudou; em compensa√ß√£o, para as mulheres dessas gera√ß√Ķes houve grandes avan√ßos em termos sociais, educacionais, profissionais e econ√īmicos.

As mulheres entraram no mercado de trabalho massivamente ‚Äď e est√£o crescendo dentro desse mercado, ainda que numa velocidade menor. Paralelamente a isso, o poder econ√īmico feminino tem crescido, bem como o poder de decis√£o de compra. E isso afeta os neg√≥cios.

O lado ‚Äúde fora‚ÄĚ das empresas (o p√ļblico consumidor) est√° ficando cada vez mais conectado com o lado ‚Äúde dentro‚ÄĚ (o lado estrat√©gico) e n√£o vai bastar fazer propaganda ‚Äúempoderadora” para disfar√ßar a falta de mulheres nessas posi√ß√Ķes de comando.

E diversidade de gênero não quer dizer mulheres dominando e sim a intersecção entre homens e mulheres, aproveitando o que há de melhor entre os dois gêneros. Assim como um bom gerente de RH não iria querer todos os funcionários de uma mesma universidade, não faz sentido querer todos de um mesmo gênero (nem de uma mesma raça).

Diversidade é bom, traz inovação, traz resultado. Para a sociedade e para os negócios.

Como você analisa o perfil da mulher empreendedora? O que tem levado as mulheres a empreender? Há alguma mudança em relação a alguns anos atrás? Como o interesse das mulheres por empreendedorismo evoluiu ao longo do tempo?

D. X.: Existem diversos perfis de mulher empreendedora. Temos mulheres que empreendem por necessidade e mulheres que empreendem por oportunidade. E podemos fazer recorte por idade tamb√©m, bem como por momento de vida ‚Äď da√≠ entendemos melhor o empreendedorismo materno, por exemplo.

Se formos pegar esse ‚Äúboom” do empreendedorismo feminino de agora, ele acompanha outros movimentos de empreendedorismo que temos no Brasil, que √© o caso das startups e do empreendedorismo criativo.

As mulheres, entretanto, se sobressaem em n√ļmero e isso √© um acontecimento mais atual e mais forte especialmente nas gera√ß√Ķes mais novas. Pensando em interesse das mulheres em empreendedorismo ao longo do tempo, n√£o h√°, que eu conhe√ßa, nenhuma pesquisa a respeito. O que posso inferir √© que faltava cr√©dito.

At√© pouco tempo atr√°s a mulher n√£o podia nem abrir conta em banco sem a autoriza√ß√£o do marido ‚Äď ou seja, n√£o t√≠nhamos nem nossos direitos financeiros garantidos. At√© a d√©cada de 90, abrir um neg√≥cio pr√≥prio era algo praticamente revolucion√°rio para uma mulher, principalmente porque a economia brasileira n√£o era favor√°vel ao empreendedorismo como um todo.

Com a melhora da economia brasileira e das condi√ß√Ķes sociais e jur√≠dicas da mulher, houve um processo aumento do empreendedorismo feminino, que passou por diminui√ß√£o da informalidade nos neg√≥cios, aumento do cr√©dito (que ainda √© muito menor do que para os homens), surgimento de grupos de apoio.

Atualmente, o que percebo é que muitas mulheres optam por empreender não como uma escolha saudável e bem planejada, mas sim como uma alternativa ao mundo corporativo que não está preparado para reter seus talentos femininos.

Olho com preocupação, pois o cenário do empreendedorismo feminino também não é dos melhores: falta crédito, falta mercado, falta representatividade. Também não há igualdade de oportunidades no mundo empreendedor.

Na sua opinião, qual é a principal boicote ou empecilho que a mulher encontra e que a impede de, de fato, empoderar-se?

D. X.: A questão da mulher é mais complexa do que apenas a mulher Рé uma questão social, que diz respeito a todos nós. A mulher já se empoderou o bastante. Já estudou Рsomos maioria no ensino superior e pós-graduação.

A economia feminina cresce numa velocidade maior que a economia da China. Nosso poder de decis√£o de compra √© de aproximadamente 80-85%. Nos Estados Unidos, s√£o as mulheres da gera√ß√£o Y que podem decidir a elei√ß√£o presidencial ‚Äď e isso significa bem mais do que decidir o futuro de um pa√≠s.

As mulheres da gera√ß√£o Y est√£o discutindo a maternidade e a op√ß√£o de n√£o ter filhos ‚Äď a popula√ß√£o est√° envelhecendo e diminuindo. √Č de interesse do governo, das empresas, de todos que a economia continue crescendo ‚Äď n√£o d√° para ignorar a maioria da popula√ß√£o, e metade da for√ßa de trabalho, e √© isso que n√≥s mulheres representamos hoje.

Ent√£o eu vejo a quest√£o da mulher como uma quest√£o social e econ√īmica – uma quest√£o de todos. Do meu ponto de vista, a mulher j√° fez a parte dela e vai continuar fazendo. Est√° na hora de nos perguntarmos o que e quando os outros interessados (governo, homens, empresas, sociedade) v√£o fazer a parte deles.

Quais benefícios e vantagens você enxerga no empreendedorismo como uma opção de vida? 

D. X.: Empreendedorismo, quando √© uma escolha bem-feita, consciente, planejada, com riscos avaliados pode ser uma excelente escolha. √Č, como tu mesma colocou, uma op√ß√£o. Eu s√≥ fui considerar essa op√ß√£o aos 25 anos de idade, at√© ent√£o n√£o tinha considerado ser empreendedora.

Hoje √© perfeito para meu estilo de vida e, mais do que isso, consigo realizar meus projetos atrav√©s da minha empresa. Claro, n√£o teria problema algum em voltar para o mercado de trabalho – desde que fosse a empresa certa. Meu √ļnico problema seria o hor√°rio fixo. Nisso acho que a legisla√ß√£o trabalhista brasileira, al√©m de retr√≥grada, atrapalha bastante.

Deb, agradeço muito sua entrevista. Por favor, deixe uma mensagem final aos nossos leitores.

D. X.: Li recentemente um artigo no New York Times que citava uma pesquisa da psicóloga americana Emmy Werner sobre o poder da resiliência.

Estudando crian√ßas que vieram de ambientes e situa√ß√Ķes adversos, mas conseguiram superar e obter sucesso, viram que o que as diferenciava das outras era a exist√™ncia do que os psic√≥logos chamam de ‚Äúlocus de controle interno‚ÄĚ: eles acreditavam que eles, e n√£o as circunst√Ęncias, afetavam suas conquistas.

Minha mensagem, portanto, √© a seguinte: mesmo nas situa√ß√Ķes mais dif√≠ceis, acredite em voc√™ mesmo. Pode parecer autoajuda ou clich√™, mas est√° comprovado cientificamente que isso d√° resultado. Parab√©ns pelo site e at√© a pr√≥xima!

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