O Dinheirama segue trazendo excelentes e inspiradoras entrevistas com mulheres de sucesso. Hoje, o papo é com Deb Xavier, empresária, idealizadora do Jogo de Damas e expert em empreendedorismo feminino e carreira da mulher.

Deb foi escolhida embaixadora brasileira do Women’s Entrepreneurship Day (Dia do Empreendedorismo Feminino), uma iniciativa conjunta da Fundação das Nações Unidas e do Departamento de Estado Americano.

Em 2015, Deb foi apontada como uma das 21 mulheres que estão fazendo do Brasil um país melhor. A seguir, confira um bate-papo sobre empreendedorismo, carreira e negócios para mulheres.

Deb, conte um pouco de sua trajetória e de como o empreendedorismo surgiu na sua vida. 

Deb Xavier: Para falar sobre minha trajetória e sobre como o empreendedorismo surgiu na minha vida, acho que ficaria incompleto se eu não contextualizasse falando de minha atuação profissional atual.

Hoje eu atuo com o Jogo de Damas, que é um negócio social voltado para o protagonismo profissional e econômico de mulheres da geração Y através de informação, conteúdo, eventos e projetos criativos.

Também lancei agora em março a Impacta – que presta consultoria e desenvolve projetos inovadores para empresas, governos e instituições com foco no potencial econômico feminino.

Minha trajetória não é linear e passa por diversas áreas. Quando saí do colégio fui estudar Arquitetura e Urbanismo na UFRGS, onde fiquei por alguns anos, mas não cheguei a concluir. O curso me deu uma visão política da influência do ambiente e do espaço na sociedade que hoje também fazem parte do meu arcabouço teórico.

Depois de um tempo, troquei o curso por Relações Internacionais, na mesma universidade. Esse segundo curso foi uma experiência completamente diferente, pois eu tinha uma facilidade com os assuntos, mas faltava a paixão, o desafio que havia na arquitetura.

O fato de eu não ter inglês fluente me levou a buscar uma experiência no exterior – e acabei passando uma temporada em Nova York, onde participei de um programa de trabalho para estudantes.

Quando voltei desse período no exterior, fui trabalhar na startup de um amigo e tive o primeiro contato mais aprofundado com empreendedorismo. Me apaixonei. Continuava estudando Relações Internacionais num turno, no outro trabalhava com meu amigo e, claro, tinha minha filha para cuidar (eu fui mãe aos 16 anos).

Comecei a frequentar eventos e fazer cursos sobre tudo que envolvesse tecnologia, startups, empreendedorismo, negócios. Depois de um tempo, saí da empresa do meu amigo e achei que estava preparada para abrir a minha própria. Fechamos por falta de maturidade, falta de experiência. Ficou o aprendizado.

Mas foi a partir dessa empresa que fracassou que dei início ao Jogo de Damas, então valeu a pena. Acho que a vida é isso, a construção de nós mesmos ao longo do caminho.

Como surgiu a ideia de criar o Jogo de Damas e qual o seu propósito?

D. X.: O Jogo de Damas surgiu de maneira espontânea, por acaso e sem grandes ambições. Eu trabalhava com tecnologia na época e foi a vontade de querer discutir as questões de gênero e também querer discutir negócios também entre mulheres (os ambientes de negócios eram, até então, dominados por homens) que me levou a criar um encontro informal entre mulheres.

A ideia era reunir mensalmente 7-15 mulheres em Porto Alegre, isso em março de 2012, quando ainda não se falava massivamente de empreendedorismo ou empoderamento feminino.

Para minha surpresa, no primeiro evento vieram quase noventa mulheres, desconhecidas, mas que se interessaram pelo tema. Ali eu percebi que eu não estava sozinha nas minhas inquietações e que existia um problema a ser resolvido – e uma oportunidade.

Completamos quatro anos agora em março de 2016 e tivemos grandes conquistas. O Jogo de Damas esteve presente em quatro regiões brasileiras (só falta a região Norte!), temos parcerias internacionais, somos um dos principais projetos brasileiros na área de empoderamento econômico e profissional feminino.

O propósito é levar conteúdo de qualidade sobre e para mulheres profissionais, estejam elas empreendendo ou no mercado de trabalho. Também queremos fomentar a discussão na sociedade, na imprensa, no governo sobre a relevância e o impacto econômico da mulher.

O objetivo é que sejam criadas políticas corporativas e públicas que levem em consideração as necessidades dessas mulheres, para que elas, nós, sejamos consideradas partes relevantes e estratégicas da sociedade. Não apenas porque nós somos expressivas numericamente (somos maioria), mas porque somos relevantes socialmente, economicamente e politicamente.

Onde você busca inspiração para realizar seu trabalho?

D. X.: Num primeiro momento na minha avó Cecilia, que trabalhou desde cedo. Na minha mãe, Marli, que trabalhou para pagar a faculdade na década de 70, numa época em que as mulheres eram minoria no ensino superior.

Mas, mais ainda, nas diversas mulheres que me cercam e frequentam meus eventos, que eu conheço diariamente, que me são apresentadas. Ou na Adriani Gonçalves, que era diarista e iniciou um negócio na área de organização de residências. A Adriana é um exemplo de resiliência, garra e perseverança.

Eu também me inspiro na Bianca Magalhães, minha personal stylist e que se mostrou uma profissional séria, competente e altamente dedicada. E na Patrícia Chiela, minha role model em termos de profissionalismo, ética profissional e qualidade de entrega. São mulheres assim, do meu dia a dia, que me inspiram.

Essas são algumas delas. Coleciono várias. E claro, minha filha, Tathiana; ela me inspira, me motiva. Por ela busco ser uma pessoa, uma profissional, uma mãe e uma mulher melhor.

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Muitos dos problemas que as mulheres enfrentam no ambiente de trabalho estão relacionados a uma cultura machista. Qual a sua avaliação sobre isso? As empresas têm prestado mais atenção na importância de promover a diversidade?

D. X.: Do meu ponto de vista existe sim uma cultura machista em muitos ambientes de trabalho, mas também existem ambientes de trabalho que são masculinos, e não machistas.

Precisamos levar em consideração que muitas empresas, principalmente as grandes, foram construídas há mais de 50 anos, quando as estruturas sociais e familiares eram outras – o papel social da mulher era outro. É natural que a cultura corporativa reflita isso.

Os próprios diretores e gerentes, a maioria são pessoas mais velhas – homens mais velhos, com 50 anos ou mais; pessoas que cresceram numa sociedade com estrutura social diferente. Nasceram com uma legislação diferente, homens e mulheres não eram iguais perante a lei.

Se formos pensar, o ambiente de trabalho e a cultura corporativa são velhos para a nova geração – e os gerentes e diretores estão também. Provavelmente as mães (e talvez as esposas) desses gerentes e diretores não trabalharam. Essas gerações estão em choque.

A gente vê muitos RHs falando disso em termos de geração X, Y, Z. Mas esquecem que para os homens dessas gerações pouco mudou; em compensação, para as mulheres dessas gerações houve grandes avanços em termos sociais, educacionais, profissionais e econômicos.

As mulheres entraram no mercado de trabalho massivamente – e estão crescendo dentro desse mercado, ainda que numa velocidade menor. Paralelamente a isso, o poder econômico feminino tem crescido, bem como o poder de decisão de compra. E isso afeta os negócios.

O lado “de fora” das empresas (o público consumidor) está ficando cada vez mais conectado com o lado “de dentro” (o lado estratégico) e não vai bastar fazer propaganda “empoderadora” para disfarçar a falta de mulheres nessas posições de comando.

E diversidade de gênero não quer dizer mulheres dominando e sim a intersecção entre homens e mulheres, aproveitando o que há de melhor entre os dois gêneros. Assim como um bom gerente de RH não iria querer todos os funcionários de uma mesma universidade, não faz sentido querer todos de um mesmo gênero (nem de uma mesma raça).

Diversidade é bom, traz inovação, traz resultado. Para a sociedade e para os negócios.

Como você analisa o perfil da mulher empreendedora? O que tem levado as mulheres a empreender? Há alguma mudança em relação a alguns anos atrás? Como o interesse das mulheres por empreendedorismo evoluiu ao longo do tempo?

D. X.: Existem diversos perfis de mulher empreendedora. Temos mulheres que empreendem por necessidade e mulheres que empreendem por oportunidade. E podemos fazer recorte por idade também, bem como por momento de vida – daí entendemos melhor o empreendedorismo materno, por exemplo.

Se formos pegar esse “boom” do empreendedorismo feminino de agora, ele acompanha outros movimentos de empreendedorismo que temos no Brasil, que é o caso das startups e do empreendedorismo criativo.

As mulheres, entretanto, se sobressaem em número e isso é um acontecimento mais atual e mais forte especialmente nas gerações mais novas. Pensando em interesse das mulheres em empreendedorismo ao longo do tempo, não há, que eu conheça, nenhuma pesquisa a respeito. O que posso inferir é que faltava crédito.

Até pouco tempo atrás a mulher não podia nem abrir conta em banco sem a autorização do marido – ou seja, não tínhamos nem nossos direitos financeiros garantidos. Até a década de 90, abrir um negócio próprio era algo praticamente revolucionário para uma mulher, principalmente porque a economia brasileira não era favorável ao empreendedorismo como um todo.

Com a melhora da economia brasileira e das condições sociais e jurídicas da mulher, houve um processo aumento do empreendedorismo feminino, que passou por diminuição da informalidade nos negócios, aumento do crédito (que ainda é muito menor do que para os homens), surgimento de grupos de apoio.

Atualmente, o que percebo é que muitas mulheres optam por empreender não como uma escolha saudável e bem planejada, mas sim como uma alternativa ao mundo corporativo que não está preparado para reter seus talentos femininos.

Olho com preocupação, pois o cenário do empreendedorismo feminino também não é dos melhores: falta crédito, falta mercado, falta representatividade. Também não há igualdade de oportunidades no mundo empreendedor.

Na sua opinião, qual é a principal boicote ou empecilho que a mulher encontra e que a impede de, de fato, empoderar-se?

D. X.: A questão da mulher é mais complexa do que apenas a mulher – é uma questão social, que diz respeito a todos nós. A mulher já se empoderou o bastante. Já estudou – somos maioria no ensino superior e pós-graduação.

A economia feminina cresce numa velocidade maior que a economia da China. Nosso poder de decisão de compra é de aproximadamente 80-85%. Nos Estados Unidos, são as mulheres da geração Y que podem decidir a eleição presidencial – e isso significa bem mais do que decidir o futuro de um país.

As mulheres da geração Y estão discutindo a maternidade e a opção de não ter filhos – a população está envelhecendo e diminuindo. É de interesse do governo, das empresas, de todos que a economia continue crescendo – não dá para ignorar a maioria da população, e metade da força de trabalho, e é isso que nós mulheres representamos hoje.

Então eu vejo a questão da mulher como uma questão social e econômica – uma questão de todos. Do meu ponto de vista, a mulher já fez a parte dela e vai continuar fazendo. Está na hora de nos perguntarmos o que e quando os outros interessados (governo, homens, empresas, sociedade) vão fazer a parte deles.

Quais benefícios e vantagens você enxerga no empreendedorismo como uma opção de vida? 

D. X.: Empreendedorismo, quando é uma escolha bem-feita, consciente, planejada, com riscos avaliados pode ser uma excelente escolha. É, como tu mesma colocou, uma opção. Eu só fui considerar essa opção aos 25 anos de idade, até então não tinha considerado ser empreendedora.

Hoje é perfeito para meu estilo de vida e, mais do que isso, consigo realizar meus projetos através da minha empresa. Claro, não teria problema algum em voltar para o mercado de trabalho – desde que fosse a empresa certa. Meu único problema seria o horário fixo. Nisso acho que a legislação trabalhista brasileira, além de retrógrada, atrapalha bastante.

Deb, agradeço muito sua entrevista. Por favor, deixe uma mensagem final aos nossos leitores.

D. X.: Li recentemente um artigo no New York Times que citava uma pesquisa da psicóloga americana Emmy Werner sobre o poder da resiliência.

Estudando crianças que vieram de ambientes e situações adversos, mas conseguiram superar e obter sucesso, viram que o que as diferenciava das outras era a existência do que os psicólogos chamam de “locus de controle interno”: eles acreditavam que eles, e não as circunstâncias, afetavam suas conquistas.

Minha mensagem, portanto, é a seguinte: mesmo nas situações mais difíceis, acredite em você mesmo. Pode parecer autoajuda ou clichê, mas está comprovado cientificamente que isso dá resultado. Parabéns pelo site e até a próxima!

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Isabella Abreu
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