Conheço e admiro o trabalho do Flávio Siqueira há algum tempo. Sua visão de mundo e suas palavras tocam nossa consciência. Através de seus artigos, livros e vídeos somos inspirados a buscar a transcendência. Temas fundamentais dentro do universo humano são abordados por ele de forma leve, onde somos felizmente tirados da nossa zona de conforto.

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Flavio Siqueira é uma das vozes mais conhecidas do rádio brasileiro. Com passagem pela Rede Jovem Pan Sat, Transamérica, Musical, Nova Brasil FM, Clip FM, 97 FM, Metropolitana, Band FM, Band News, Bandeirantes AM, Sul América Trânsito e direção artística na Rádio Mix FM em Brasília.

Autor dos livros: “Dez histórias e algo mais” (Ed. Besouro Box), e “O Éden” (Cia dos livros), também mantém seu blog pessoal com textos e vídeos sobre comunicação, espiritualidade e gente. Convido vocês para conhecerem mais sobre o trabalho do Flávio acessando seu site pessoal, canal no Youtube e página no Facebook.

Estou satisfeita em compartilhar com vocês leitores um pouco de seu pensamento nessa entrevista, onde falamos sobre dinheiro, juventude e desafios cotidianos.

A sociedade capitalista impõe seu modo de funcionar. As novas tecnologias surgem trazendo grandes contribuições para humanidade, mas ao mesmo tempo se não formos atentos, elas nos colocam para funcionarmos no modo fast, reducionista e vazio de sentidos. Em seu ponto de vista, o que leva as pessoas a viverem sob esse stress diário e não buscarem um modo de viver mais saudável e livre?

Flávio Siqueira: O capitalismo e a tecnologia são apenas sintomas, não causas. Tudo pode ser bom, tudo pode fazer bem, quando quem usa está bem. Trata-se de um reflexo: projetamos nos “ismos”, no consumo, na tecnologia, nos relacionamentos, aquilo que somos, como estamos por dentro.

O problema é que entramos em um fluxo que não estabelece conexões, que não permite reflexão, que dificulta pararmos para enxergar onde estamos e para onde estamos indo, temos medo de enxergar com clareza e percebermos que nosso estilo de vida é letal.

Essa desconexão que nos distancia dos prazeres simples, dos significados mais básicos, dos vínculos mais essenciais fragmenta nossa alma, nos amedronta e nos coloca nessa roda hedonista de consumo e stress, quase como uma tentativa de silenciar em definitivo aquela inquietude interior que, de tempos em tempos, nos lembra que há algo errado em nossas escolhas.

Percebo que muitos jovens atendem ao modelo do Ter distanciando-se da construção da sua identidade e da busca pela sua essência. Esse processo dificulta um pouco mais a complexa fase de construção da identidade pessoal e ingresso na vida adulta. Em sua opinião como pais e educadores podem sensibilizar esses adolescentes para a descoberta de caminhos felizes e mais saudáveis?

F. S.: Na minha opinião, um dos problemas é que faltam referências. Vivemos na chamada era pós moderna, onde a crença absoluta na razão deparou-se com dilemas insolúveis, com a constatação que nossas ciências não eram suficientes para nos dar as respostas que precisamos.

Isso pode ter gerado em algum momento um movimento para o outro lado, as religiões, o misticismo, a busca pelo invisível como tentativa se resignificar a existência, mas, especialmente as religiões institucionais, foram se distanciando das pessoas e seus dilemas humanos, seja por excesso de conservadorismo, seja pela adesão a símbolos capitalistas contraditórios ao que essencialmente pregavam, caindo em descrédito.

Descredito, por sinal, projetado também nas instituições políticas como vimos recentemente nos protestos espalhados pelo Brasil. O que sobra como referências a não ser o que sempre deveria ter sido? Ou seja, os relacionamentos, os vínculos o exemplo que vem de casa, dos pais, dos parentes, dos educadores.

Jovens e crianças respondem ao que veem, refletem o meio onde estão inseridos, e, ainda mais, hoje em dia estão muito mais atentos, são conectados, informados, mais sensíveis, mais sedentos. Por isso o simples discurso não vale mais.

O “faça porque é certo” ou a cartilha do politicamente correto tem mais dificuldades em gerar padrões de comportamento saudáveis porque, antes de tudo, os jovens estão à procura de uma referência consistente, de algo que realmente lhes convença da sua força e potencial. Antes de qualquer coisa, é preciso que pais e educadores questionem a si mesmos, enxerguem seus próprios comportamentos, revisem seus valores e, então, concluam se de fato estão aptos a serem tais referências.

Sabemos que o dinheiro é uma energia neutra, nós é que damos um significado para ele. A realidade nos mostra que muita gente tem dificuldade em resinificar positivamente a relação com ele, tornando-se refém desse recurso material. Como você entende esse cenário?

F. S.: Mais uma vez isso reflete nossas escolhas. Acho que vivemos um tempo de sobrecarga de informação, o que poderia ser bom, se grande parte do que consumimos não fosse apenas ruídos. Por ruídos me refiro ao tipo de informação que nos fragmenta, nos sequestra, nos transforma em máquinas de consumo, que pouco refletem, mas reagem o tempo todo.

Repare como a nossa cultura popular, seja pela via do jornalismo ou do entretenimento, se apoia basicamente em dois pilares: no medo e na distração. É como se vivêssemos entorpecidos, entregues a uma espécie de devaneio coletivo, assombrados pelas “ameaças” das ruas, da política, da violência, das doenças, da insegurança até que o próximo intervalo comercial, espaço bonito de gente feliz, nosso oráculo moderno, nos alivie e nos diga a fórmula da felicidade. No fim das contas, quem pode comprar será salvo, quem não pode, prepare-se para a infelicidade, é a mensagem embutida.

Obviamente, não é isso que cria essa relação adoecida com o dinheiro, isso faz parte da natureza humana e sua necessidade de controle, de segurança e, se não fosse assim, nenhum “ruído” interferiria em nossas escolhas.

Sim, são escolhas como eu disse no começo, mas é inegável que nossas escolhas produziram um tipo de cultura que vazou para a política, para a publicidade, para o jornalismo, para o que chamamos de entretenimento, criando um círculo vicioso, inebriante muitas vezes, que só pode ser quebrado quando eu escolho quebrar. Quando me enxergo e percebo que não está bom. Quando deixo de culpar a sociedade e o mundo capitalista e mudo o mundo todo a partir do meu próprio mundo.

Retirei essa frase de um de seus artigos, pois entendo que ela é fundamental na construção da nossa relação com o dinheiro: “Espero que antes de ficar rico, você conheça seus limites. Para que, ao se sentir poderoso, possa lembrar que na verdade não é.”  Você pode nos falar mais sobre esse seu pensamento?

F. S.: Acho que isso tem a ver com o que falávamos há pouco. Na era da completa falta de referências, em dias de sobrecarga de informações, de ruídos, não é difícil acreditar que serei de verdade o que dizem que posso ser se tiver dinheiro, se ficar rico.

Quanta gente acredita que só tem problemas reais porque falta dinheiro? Quanta gente vive projetando a felicidade eterna em uma miragem, enquanto acumula amarguras por sentir-se injustiçado em um mundo contraditório?

O problema é que isso é uma ilusão que ganha musculatura na alma humana, especialmente por conta dos discursos que não vem apenas na publicidade ou da política, mas até da religião em alguns casos, que promovem a crença de que o dinheiro é a solução para nossos problemas.

Todos precisam de dinheiro, é claro que todos querem e podem ganhar bem, é lícito lutar por uma situação financeira melhor, mas não é disso que se trata, falo sobre a necessidade de enxergarmos nossas prioridades e questionarmos até que ponto não invertemos o que era para ser quarto, quinto lugar em nossa lista de importâncias como se fosse primeiro lugar.

O reconhecimento de minha natureza mais básica, a percepção de minha própria fragilidade natural dificulta a crença nesse tipo de absolutos ligados ao dinheiro, essa busca desenfreada pelo poder perde o sentido quando entendo que poder de verdade é outra coisa.

Flávio, sou grata pela oportunidade de aprender com você e poder levar aos leitores conhecimentos valiosos sobre o instigante universo chamado “Ser Humano”, o qual você contribui imensamente através de seu trabalho. Coloco o espaço à sua disposição para suas considerações finais.

F. S.: Obrigado Bernadette! No fim das contas, tudo gira em torno de uma coisa só, simples, acessível e presente em todos que é nossa capacidade de enxergarmos. Acho que tudo tem a ver com o fato de andarmos distraídos demais, perdidos e consequentemente expostos a qualquer coisa que se coloque como resposta.

As respostas, todas elas, vivem em nós e cabe a mim, a você e nossos leitores a coragem de colocarem sob a luz da consciência que se revisa, se questiona e, finalmente, se enxerga. Quando a gente se vê, começa a entender o próximo e, quando entende o próximo, fica mais fácil perceber as dinâmicas da vida.

Há muitas formulas e propostas no mundo, muitos discursos, muitas utopias, muitas soluções, algumas válidas, outras nem tanto, ainda assim, nada será eficaz se não produzir consciência, se não me iluminar por dentro, se não me lembrar que, apesar dos pesares, não há respostas se antes não encontra-las dentro de mim.

Sou grata Flávio pela disponibilidade e pelo aprendizado. Até uma próxima oportunidade! Convido você, leitor, para fazer parte dessa conversa! O espaço para comentários é todo seu! Abraço e até a próxima.

Foto: divulgação.

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