Um movimento tem chamado positivamente minha atenção: a cada dia que passa novas e ótimas iniciativas de educação financeira surgem no Brasil, alavancadas por gente jovem e engajada com a verdadeira transformação do comportamento dos brasileiros.

Uma dessas pessoas é Nathalia Arcuri, Jornalista, Blogueira, Educadora e Planejadora Financeira. Formada em jornalismo pela Uni Fiam Faam em 2006, Nathalia atuou como Estagiária SBT entre 2005 e 2006, Repórter, Produtora, Editora e Apresentadora SBT entre 2007 e 2009 e é Repórter e Apresentadora Rede Record de TV desde 2009.

Nathalia também é Autora do excelente Blog Me poupe! desde 2013, tem formação em educação financeira pelo Instituto DSOP (2012) e formação em planejamento financeiro pelo INSPER (2014).

Confira como foi nosso papo:

Nathalia, muitos de nossos leitores costumam confundir conceitos de educação financeira, valorizando demais ferramentas, mas pouco o comportamento. Você defende que devemos respeitar nosso tempo e nossos sonhos. Como fazer a ponte entre o que queremos e nossa situação financeira hoje?

Nathalia Arcuri: Trazendo para o linguajar coloquial:  todo ser humano, assim como os coelhos, precisa de uma “cenoura”, ou seja, uma meta ou um objetivo no qual concentrar os seus esforços e o seu planejamento.

À medida em que deixamos de lado nossas grandes metas, aquelas em que realmente deveríamos gastar nossa energia, estamos negligenciando nossos sonhos e a nossa realização pessoal e profissional.

Muitas pessoas, porém, pecam ao esquecer que para alcançar o objetivo final, é preciso cumprir algumas etapas, superar algumas barreiras e, muitas vezes, abrir mão de algumas coisas.

Voltando ao nosso amigo coelho, imagine quantos pés de alface ele encontrou pelo caminho, quantos brotos dando sopa por ai… As tentações estão por toda parte, mas o coelho, esperto, mirou na cenoura e deu de ombros a todas elas. E o resultado? Guardou energia, economizou tempo e ainda chegou faminto à bela cenoura, seu maior prêmio.

Nós não somos tão diferentes. Os pequenos impulsos do dia a dia nos deixam cada vez mais distantes dos nossos grandes objetivos e saber lidar com o coelho guloso que existe dentro de nós é o maior desafio. Isso vale pra qualquer um. Desde o pequeno assalariado consumista ao patrão afobado.

Como lidar com a oferta cada vez maior por crédito fácil (e caro) e apelos de consumo que associam nosso bem-estar à impressão que os outros têm de nós? Precisamos nos voltar mais para a família? E as prioridades, parece que as pessoas não as tem mais.

N. A.: Nada funciona melhor do que uma boa conversa. Antes de mais nada é preciso bater um papo consigo mesmo e se questionar sobre alguns aspectos da vida:

  • O que eu quero pra minha vida?
  • Estou aproveitando meu tempo da melhor maneira possível?
  • Esta é a melhor maneira de usar o meu dinheiro?
  • O que eu gostaria de ter e ainda não tenho?

O cidadão que souber responder a essas perguntas poderá facilmente se livrar das tentações e manter o foco no que é essencial para ele, livrando-se das armadilhas crédito fácil e extremamente caro.

Digo isso porque só quem respeita o próprio dinheiro e o próprio trabalho é capaz de analisar friamente a oferta de um produto “da moda”, inacessível à vista, mas que em pequenas prestações teoricamente cabe no orçamento.

Enganar-se e fechar os olhos para a realidade infelizmente é uma atitude comum entre os brasileiros. Não é à toa que 60% da renda familiar estão comprometidos com parcelamento de compras, o que reduz a zero a possibilidade de reserva e, consequentemente, a realização de grandes conquistas.

Seu relacionamento com o dinheiro existe e acontece de forma intensa desde os 8 anos. Conte-nos um pouco mais sobre essa história e o que aprendeu.

N. A.: Costumo dizer que sou uma aberração cromossômica por lidar de maneira tão íntima com o dinheiro desde a infância.

Tudo começou quando uma amiga do colégio comentou que o pai havia feito uma poupança para que ela comprasse um carro aos 18 anos. Chegando em casa, cheia de otimismo, descobri que aos dezoito anos tudo o que teria era a obrigação de entrar em uma faculdade, além do fato de poder ser presa.

Foi assim que aos 8 anos começou a minha saga rumo à minha “cenoura”. Minha meta era juntar R$ 2.000 para comprar um carro. Passava os finais de semana analisando os anúncios do jornal em busca de opções que coubessem no meu restrito orçamento.

Não recebia mesada, mas às vezes ganhava dinheiro para comprar o lanche no colégio. Não comia. Virei o cofrinho da família e era a mim que meu pai e minha mãe, principalmente, recorriam quando precisavam de dinheiro.

Aos 15 já tinha o dinheiro necessário, mas fui surpreendida aos 18 com uma carta de crédito de um consórcio, feita pela minha madrinha, no valor de R$12.000. Investi o valor poupado para o carro, algo em torno de R$ 6.000 e assim começou minha longa jornada rumo a independência financeira, o dia em que poderei trabalhar apenas por prazer e não por necessidade.

Por que decidiu-se pelo Jornalismo como profissão?

N. A.: Comecei a trabalhar aos 14 anos fazendo alguns comerciais de TV, naquela época estava em dúvida entre o teatro e a medicina, paixões que eu tenho até hoje e curiosamente posso aplicar no meu trabalho como repórter.

Ciente das minhas limitações, optei pelo jornalismo, carreira na qual poderia exercer um pouco do meu lado médico e atriz. Sempre adorei escrever e lia o quanto pudesse. Minha ideia inicial era oferecer um serviço de assessoria de imprensa especializada em medicina.

Já na faculdade me encantei pela TV e sua agilidade. Meu lado artista gritou e não descansei enquanto não consegui um estágio no SBT. De lá pra cá as coisas aconteceram rápido.

Fui convidada para ser repórter do programa Hoje em Dia da Rede Record, um dos mais longevos da emissora, onde tive a oportunidade de conhecer pessoas de todas as classes sociais, com os mais diversos tipos de problemas, atitudes, méritos e histórias de vida.

Cobri algumas tragédias. Fui ao Japão após o Tsunami que matou pelo menos 30 mil pessoas em 2011, me deparei com o sofrimento da população de Nova Friburgo e Teresópolis após a catástrofe natural no mesmo ano e em janeiro do ano passado tive que ir às pressas para a pequena cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde 241 pessoas perderam a vida em um incêndio.

O contato tão próximo com a morte contribuiu de maneira inestimável para a minha percepção de vida. De cada uma dessas tragédias, tirei bons exemplos. Da mãe que ergueu a cabeça após a perda de dois filhos ao pai que agradeceu porque a chuva levou apenas a própria casa.

E como foi essa mudança para a área de finanças pessoais e a oportunidade de agir em prol da educação financeira dos brasileiros?

N. A.: Essa profissão te dá também a possibilidade de conhecer os melhores profissionais de todos os mercados, inclusive do planejamento financeiro. Depois de fazer algumas reportagens sobre economia doméstica percebi o quanto aquele universo era familiar para mim.

De repente me dei conta de que guardar meu dinheiro e planejar o futuro, da maneira como eu fazia, não era sinal de avareza como muitos me diziam. Está aí uma verdade.

No caminho para as grandes conquistas existem vários sabotadores, pessoas que dizem ser impossível, sem ao menos ter tentado. Já fui chamada de muquirana, mão de vaca, turca, e na base da brincadeira ganhei um apelido que pegou: Sara. Uma referência às mulheres judias que tão bem cuidam do seu patrimônio e da sua família.

Ser “Sara” já me deixou intimidada, mas hoje é motivo de orgulho. Devo tudo o que tenho ao meu “sarismo” (sim, virou até substantivo). Sempre fui contra os apelos das marcas, sempre otimizei ao máximo o salário que ganho ao final de cada mês.

Busco, sim, os menores preços, bato perna, vou a brechós, choro… e como choro! Pago à vista, digo não aos vendedores insistentes, peço de volta os R$ 0,10 de troco, não aceito balas no lugar de dinheiro, compro as frutas da estação porque estão mais baratas e deixo de comprar se percebo que estão muito acima do preço.

Já vendi bugigangas para aumentar a renda, já tive dois empregos e dou presentes que cabem no meu bolso. Não custam fortunas, mas pode ter certeza, foram comprados com amor.

Agi assim durante toda a minha vida porque sempre tive um foco e nada é mais prazeroso do que chegar aos 29 anos com a sensação de ser uma mulher livre, independente, dona de seu próprio destino e da sua casa. Transmitir essa sensação e torná-la possível ao maior número de pessoas virou um lema, um mantra, quase uma obsessão.

Como dizem por ai, resolvi fazer do meu limão uma bela limonada. Busquei conhecimento, fui atrás de livros, sites, cursos e professores. Continuo me aprimorando e batalhando outras metas, claro! Hoje divido meu tempo entre as reportagens que amo fazer e meu apetite pela educação financeira.

O tema é inesgotável e quanto mais aprendo, mais percebo que estamos longe de uma fórmula mágica para a riqueza. Não existe prêmio sem esforço, assim como não existe esforço que não seja recompensado.

Pensando nos leitores que têm ou desejam ter filhos, como essa sua experiência de vida pode ser entendida e praticada por mais gente? Seus pais foram exemplos de cidadania e educação financeira? Sempre gostamos de lembrar a importância do exemplo.

N. A.: Desde pequena me acostumei a ouvir uma palavra sábia e mágica: não. Saber que não se pode ter tudo o que se quer naquele momento é a melhor lição de vida que os pais podem dar a um filho e pra mim, é um ato de amor.

O “Não” dado com sabedoria e acompanhado de um bom argumento vale mais do que qualquer curso básico de educação financeira. Lembro-me até hoje de como eram prazerosos nossos passeios em família aos finais de semana. Íamos a uma lanchonete bacana, pedíamos o hambúrguer que quiséssemos, mas com uma condição: nada de sucos.

Suco era caro e poderíamos fazê-lo e bebê-lo em casa. O que percebo hoje nos meus aconselhamentos financeiros é que os pais não estão sendo capazes de dizer “Não” nem para si mesmos. Como então garantir uma postura diferente para os filhos?

Seus textos com dicas de compras e como economizar são bastante acessados. Deixe algumas dicas para quem deseja manter o orçamento em dia sem deixar de comprar uma ou outra ciobinha.

N. A.: Deixe a preguiça de lado e faça da caça aos menores preços uma ferramenta para alcançar os objetivos mais caros. Isso vale pra tudo, desde alimentos a roupas, eletrônicos, artigos de decoração, etc.

Graças à tecnologia, hoje temos acesso a todo tipo de informação a respeito de preços, promoções, bazares, isso sem falar nos sites como o próprio Dinheirama ou o Me Poupe! onde é possível pegar várias dicas e o melhor, de graça.

Nathalia, obrigado pela sua participação. Deixe uma mensagem final e um convite aos leitores para que conheçam melhor seu trabalho. Até a próxima.

N. A.: Quero agradecer a oportunidade de poder compartilhar um pouco da minha história e transmitir aos leitores do Dinheirama aquilo em que realmente acredito e vivencio há pelo menos 20 anos. Convido o leitor a conhecer meu trabalho acessando o Blog Me Poupe! Até a próxima!

Conrado Navarro
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