Educação Financeira e Cidadania, uma relação delicadaSempre que converso com amigos e conhecidos sobre educação financeira, uma questão surge de forma espontânea: “Por que você decidiu especializar-se e trabalhar com o aprendizado sobre finanças pessoais e educação financeira?”. Afinidade pessoal, claro, é sempre uma resposta honesta. Mas, além de gostar do tema e conhecê-lo, acredito que a relação entre ser humano e dinheiro precisa ser muito melhor explorada, especialmente no sentido da liberdade e da responsabilidade.

Planejar a realização de sonhos e objetivos, aprender a lidar com as frustrações do dia a dia, adiar consumo para criar e multiplicar patrimônio e enxergar a possibilidade de ser livre através da disciplina são experiências enriquecedoras em muitos sentidos. Trabalho com educação financeira porque acredito que ela pode realmente transformar o ambiente familiar. Essa realidade, no entanto, não sensibiliza muita gente.

A missão é nobre, mas os percalços são muito maiores que só a resistência pessoal de cada um em tratar das finanças com naturalidade. Por aqui há um sentimento generalizado, quase que cultural, de que para se dar bem é preciso ser mais esperto. O conceito de construir, criar oportunidades e gerar riqueza com paciência é pouquíssimo valorizado. Imperam a safadeza, o oportunismo e a política “o que eu ganho com isso?”.

O que dizer de um país democraticamente jovem que abdica de seus princípios fundamentais de transparência? Sediar o Mundial de Futebol em 2014 e as Olimpíadas em 2016 parece ser um simples pretexto para aumentar a farra com o dinheiro público, tratando a nós, contribuintes e eleitores, como idiotas. O que houve com o Pan-Americano de 2007 não foi uma exceção, infelizmente – o custo total foi 10 vezes maior que o orçamento inicial e praticamente não há legado].

Ora, não é preciso ser muito inteligente para comparar realidades de sedes de mundiais recentes. Veja o caso da Alemanha: construir o estádio Allianz Arena, do zero, custou o equivalente a R$ 850 milhões, valor já atualizado monetariamente. A população de Munique exigiu que nenhum centavo de dinheiro público fosse investido na obra, que é privada. O investimento previsto para a reforma do Maracanã ultrapassa a casa de R$ 1 bilhão. Trata-se de uma previsão. E será usado o seu, o nosso dinheiro.

O que dizer de um país que acolhe um sabido “fora da lei” estrangeiro, condenado em seu país, apadrinhando-o através de diversos personagens da política nacional? Cabe lembrar que a Justiça Brasileira havia sido favorável à sua extradição e que sua permanência foi decisão da figura suprema da nação, o presidente da República. A ordem do “fico” foi então votada e cumprida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no início deste mês. Se quer entender o caso, sugiro que clique aqui.

Indignados também ficam os muitos estrangeiros sérios que aqui procuram oportunidades e chances, mas que tem na burocracia o inimigo principal para sua permanência – há diversos casos de pessoas que aguardam meses (e anos) para receberem sua documentação. O italiano, acusado de quatro homicídios, recebeu seus papéis em incríveis 13 dias.

O que dizer de um país em que escândalos políticos e financeiros amplamente investigados e noticiados são simplesmente “empurrados com a barriga”? Gravações, flagras, depoimentos, nada disso serve para punir quem arrebata nossas contribuições. Depois de algum tempo, as mesmas figuras voltam ao poder, eleitas por nós ou empossadas por quem quer que seja. Se você não se lembra dos fatos, sugiro três casos emblemáticos (clique sobre eles para ler mais): Escândalo do Mensalão, Dossiê dos Aloprados e Suposta propina no governo Arruda em Brasília.

Onde estamos? Onde queremos chegar?
Eu sei que você quer que eu fale dos contratos excusos entre prefeituras e empreiteiros, licitações combinadas, grupos empresariais formados por políticos que controlam estados e municípios, corrupção, salários pífios de professores, inchaço da máquina pública, oneração tributária, sistema previdenciário à beira do colapso, saúde precária e etc. Ufa!

Eu poderia citar inúmeros outros exemplos de situações constrangedoras para aqueles que, como eu e você, caro leitor, preocupam-se com os rumos de nossos cidadãos. Porque educar é isso: formar cidadãos. Educação financeira é parte do processo, mas depende de um arcabouço de valores, princípios e sentimentos mais sinceros, íntegros e coerentes. Não é que falte seriedade, mas sobra sacanagem… O desafio é grande. Pois é.

Ficamos – tenho a certeza de que você concorda comigo – com a sensação de que falta muita coisa. O quê? Quanto falta? Falta patriotismo? Falta gente engajada, mais consciente de seu poder de transformação e voto? Falta gente séria? Falta “vontade política”? Falta tudo isso?

Quem se importa?
O brasileiro, é de se imaginar, deve estar bastante preocupado e chateado com o futuro que o aguarda. Deveria? Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) baseado em pesquisa do Instituto Gallup mostra que somos o país recordista em felicidade futura. Em uma escala de 0 a 10, o brasileiro dá uma nota 8,7 à sua expectativa de satisfação com a vida em 2014. O índice é o maior entre os 144 países da pesquisa.

Tudo porque podemos comprar a felicidade na próxima esquina e porque enquanto estamos ocupados comprando, valorizando a possibilidade de tudo aquilo que podemos comprar e ter, nos esquecemos da importância de ser, aprender e melhorar. A inclusão social pelas posses é mais divertida que a escolha dos nossos representantes e a luta por melhores exemplos. Afinal, quem disse que você precisa de dinheiro para comprar um carro? Coragem basta!

Veja você, nobre leitor, que o desafio da educação financeira se transformou em um monstro. Domá-lo requer o resgate do ser humano, da família e da transformação também do próximo. Fica fácil apontar o dedo e afirmar que sobram oportunismo, picaretagem e charlatanismo. O duro é olhar no espelho, encarar o grande e vermelho nariz de palhaço e admitir que falta vergonha na cara. Seria um bom começo…

Foto de sxc.hu.

Conrado Navarro
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