Sempre ouvi muita gente cobrar que educação financeira deveria ser assunto aprendido em sala de aula. Confesso que eu também sou uma das pessoas que defende a educação financeira nas escolas, mas não como uma disciplina isolada ou simplesmente como uma justificativa para os pais.

Nos últimos anos, muito se falou sobre o assunto e hoje algumas escolas já adotam práticas com o intuito de tornar o tema mais discutido em sala de aula e praticado na vida real das crianças, jovens e suas famílias.

Infelizmente, na maioria das ações propostas em sala de aula o tema acaba sendo trazido à tona como complemento de algumas aulas de matemática, onde são considerados mais aspectos financeiros do que comportamentais (estes extremamente importantes para o aprendizado correto da educação financeira).

A importância do envolvimento da família

Além de falharem na mensagem, as escolas também falham na forma como abordam o assunto. O projeto deve, de alguma maneira, envolver pais, alunos e a comunidade escolar, afinal as crianças aprendem cidadania e educação financeira com a necessidade de atestar sua prática, o que requer ativa participação das famílias.

Perde-se hoje muito tempo, e estou falando principalmente das escolas particulares, com passeios e discussões muitas vezes inócuas, que não acrescentam habilidades reais às crianças. Isso porque a mensagem não ecoa em casa e no entorno, o que precisa ser trabalhado e incentivado com a mesma energia.

Em um levantamento recente, foi perguntado a crianças e adolescentes onde eles costumavam se informar sobre dinheiro e investimentos. Veja abaixo os resultados:

Pesquisa - Dinheiro e Jovens

Mesmo com as respostas sendo de múltipla escolha, fica claro que é indispensável discutirmos a educação financeira em âmbito familiar. Os adolescentes afirmaram em 63% dos casos se informar sobre dinheiro em casa, com os pais, enquanto apenas 14% disseram procurar esse aprendizado na escola, com professores.

Logo, por mais que a escola faça um trabalho complementar e introdutório, se os exemplos em casa não forem condizentes com o que prega a educação financeira em qualquer outro lugar (escola, por exemplo), a chance de mudança é mínima.

Já algum tempo, quando participou como convidado de um programa de rádio, o Conrado Navarro tocou no assunto, mostrando que a escola deve participar ativamente do dia a dia da criança também sob a ótica financeira.

Ele sugere que se incentive os alunos com dinâmicas e tateando conceitos relevantes de poupança, objetivos e futuro, mas que para isso, professores, pais e alunos devem manter ótimo relacionamento e encontros frequentes. Sem isso, a chance de sucesso é pequena. Clique aqui para ouvir a entrevista.

Educação financeira é sinônimo de cidadania e responsabilidade

Todos vivemos uma realidade financeira nova para os padrões brasileiros. Os adultos de hoje possivelmente acompanharam de perto a realidade de superinflação. Eu lembro dos meus pais correndo para aproveitar, no mesmo dia que recebiam o salário, as “promoções” do supermercado.

Naquele período, a inflação era algo praticamente impensável para os tempos de hoje. Era um “salve-se quem puder”: quem não agisse com rapidez via o dinheiro “virar pó” em poucos dias.

Com o advento do Plano Real, a inflação nos últimos 20 anos entrou em uma realidade que propicia o planejamento, mesmo nesse período surgindo alguns picos (que nem de longe lembram o que existia nas décadas de 80 e início da de 90, é bom dizer).

A realidade mudou bastante, mas muita gente ainda parece viver naquele período, um pouco por não ter com quem aprender a lidar com o atual cenário e muito por não demonstrar interesse.

As famílias estão no centro desse debate, porque temos hoje a chance de planejar o consumo e a realização dos sonhos, algo que os nossos pais não possuíam.

A educadora financeira Bernadette Vilhena trouxe algumas perguntas muito importantes em um artigo publicado aqui no Dinheirama. Ao responder essas questões, talvez você encontre uma ótima oportunidade promover a conversa sobre educação financeira em casa, acompanhe:

  • O clima costuma ficar pesado na hora de pagar as contas?
  • Estranham-se dentro da loja na hora da compra de algum produto?
  • Como anda a consciência ecológica da família?
  • Costumam fazer planejamento mensal ou das próximas férias?
  • Envolvem as crianças nesse planejamento?
  • Qual foi a última vez que levou seu filho ao supermercado e ele te ajudou na pesquisa de preços ou na escolha do melhor produto?
  • Seu filho(a) sabe usar o dinheiro da mesada?
  • O que você faz quando a quantia acaba logo e ele pede mais?
  • A última festinha de aniversário deixou a sua conta corrente no vermelho?

Leitura sugerida: O sucesso financeiro de seus filhos virá do conhecimento

Conclusão

Está mais do que na hora do brasileiro entender que falar sobre dinheiro não pode ser um tabu. A participação das escolas nesse processo é muito importante, mas não podemos como pais terceirizar a responsabilidade de ensinar o assunto.

Em relação ao dinheiro, o que realmente conta no aprendizado é o exemplo, e esse sempre deve vir de casa. Por mais que a escola se esforce para conscientizar as crianças, pais relapsos e que não apresentem aos filhos práticas (e não só discurso) de consumo consciente não conseguirão obter êxito.

A verdade é que quando o assunto é educação financeira não basta apenas ser pai e mãe, tem que participar, tem que ser mais do que falar. Tem que fazer! Obrigado e até a próxima.

Foto “Saving for the future”, Shutterstock.

Ricardo Pereira
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