Fábio comenta: “Navarro, tenho lido muita coisa sobre finanças pessoais e educação financeira, mas às vezes fico com a sensação de que alguns autores estrangeiros não passam sugestões que se encaixam na realidade brasileira. Estou viajando? O que pensa sobre isso? Obrigado”.

Como você já sabe, completamos em 2015 o oitavo ano do Dinheirama. Ao longo desses anos, consegui acompanhar de perto um pouco do dia a dia das pessoas que se preocupam com a gestão das finanças e aprendi bastante coisa.

Nosso trabalho, sempre apoiado na educação financeira voltada para a qualidade de vida e liberdade, colaborou para que muita gente pudesse encontrar apoio e opiniões isentas sobre temas como crédito, investimentos, dívidas e muito mais.

Vi muitas iniciativas nascerem e serem descontinuadas. Percebi que algumas dessas iniciativas decidiram trilhar um caminho mais fácil, o da “educação financeira enlatada”, importada e, em muitas situações, traduzida para um contexto fora da realidade nacional.

O famoso caminho “quanto mais barato, melhor” acabou se mostrando um desserviço para muitos brasileiros que, inspirados em autores que defendiam teses regionais, acabaram por caminhar no sentido contrário ao que funciona melhor por aqui. O Brasil é um capítulo à parte, e por aqui respeitamos isso.

Educação financeira: nem tudo que vem de fora funciona no Brasil

Mesmo nos momentos de crescimento econômico, aqui no Brasil os juros sempre se mantiveram em patamares considerados altos, principalmente se comparados com a realidade da maioria dos países desenvolvidos (onde há mais conteúdo sobre educação financeira).

A facilidade do crédito deu a entender que consumir através de financiamentos e parcelamentos seria uma decisão inteligente para aumentar o patrimônio e adquirir bens – só faltou dar o real valor ao tamanho da conta, considerando os juros cobrados da pessoa física por aqui.

Alguns grandes e admirados autores, como Robert Kiyosaki (autor do celebrado livro “Pai Rico Pai Pobre”) defendem algumas ideias muito boas para a realidade americana, mas não tão aplicáveis ao pé da letra no Brasil.

A compra de imóveis financiados, por exemplo, pode ser uma verdadeira cilada levando em conta a dificuldade do brasileiro em organizar as finanças e a necessidade de arcar com parcelas elevadas por um longo tempo.

Os juros do financiamento imobiliário no Brasil são pelo menos duas vezes maiores que os de fora, enquanto a renda média é a metade. Lá fora você ainda consegue dar uma entrada e pagar parcelas muito próximas do retorno do aluguel da propriedade, empatando investimento e receita a partir do patrimônio. Esqueça isso por aqui!

Cartão de crédito e cheque especial: ferramentas que muitos não sabem utilizar

O uso do cartão de crédito por aqui também se tornou um problema e acompanhamos isso muito de perto; este foi um dos assuntos mais explorados aqui durante esse tempo. O cartão nada mais é do que uma ferramenta de pagamento, e não uma carteira recheada que garante às pessoas as chances de ter qualquer coisa sem ter dinheiro na hora.

No atual cenário, os juros médios da modalidade rotativa do cartão ultrapassam os 300% ao ano. Para entender o tamanho disso, saiba que se você não pagar a fatura integralmente a dívida mais do que dobra em apenas 6 meses.

Lá fora, são muito comuns os exemplos de empreendedores que usam o cartão de crédito para investir nos estágios iniciais de suas empresas, inclusive abusando do limite oferecido e se endividando. É verdade que eles falam do perigo de fazer isso, mas dizem se tratar de uma saída legítima.

Bom, os juros lá nos EUA, para ficar no exemplo mais clássico, são de 16% ao ano. Aqui, repito, os juros são de pelo menos 300% ao ano (15% ao mês). Usar o crédito do cartão como fonte de financiamento para iniciar sua empresa não é exatamente uma decisão inteligente, concorda?

Com o cheque especial, os valores ultrapassam em média 200% ao ano no Brasil, o que torna sua utilização extremamente perigosa. E o que vejo é que muita gente ainda utiliza o cheque especial como complemento de renda. Como assim? Loucura!

Ah, mas alguns autores renomados explicam que ele pode ser útil em caso de emergência, desde que cobertos em poucos meses. Isso mesmo, eles falam em meses. Não, aqui isso seria “suicídio financeiro”. Precisamos criar o hábito de formar nossa própria reserva de emergências e não contar com o crédito para isso (só mesmo em casos muito específicos e particulares essa decisão faz sentido).

Conclusão

A verdade é que o ensinamento básico da educação financeira, a famosa regra de ouro das finanças pessoais traduzida no “gastar menos do que se ganha” é universal, mas em cada país existe uma realidade socioeconômica que deve ser tratada de maneira especial e particular. Não estou minimizando ou de “mimimi” em relação aos gringos, mas sendo sincero em relação à aplicabilidade das ideias no Brasil.

Práticas que utilizam material importado sem a devida supervisão de especialistas que conhecem o mercado nacional mais prejudicam do que ajudam as pessoas, por duas razões: 1) são impraticáveis, o que gera angústia; e 2) simplesmente não trazem resultados, o que causa frustração e desmotiva.

Ao leitor, reforço nosso compromisso: o Dinheirama seguirá acompanhando aquilo que acontece no mundo, inclusive as tendências e lições de outros autores, mas sempre apresentando nossas próprias opiniões, e a de outros especialistas locais, sobre os reais desdobramentos no Brasil.

De tudo, o que mais nos deixa feliz é o reconhecimento genuíno, demonstrado por diversos canais, como o espaço de comentários abaixo, que transforma nossos artigos em convite para discussões sadias sobre o futuro financeiro do Brasil e dos brasileiros. O que você acha disso tudo? Contribua!

Ah, você também pode me seguir no Twitter – sou o @Navarro por lá. Espero sua opinião. Obrigado e até a próxima!

Foto “touching money”, Shutterstock.

Conrado Navarro
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