Então você quer ser um trader?O trader de mercados financeiros é um dos personagens mais admirados (por alguns), odiados (por outros) e mal compreendidos (por quase todos) que existe. Algumas pessoas são naturalmente fascinadas pelos mercados financeiros, afinal, e de certa forma, tudo que acontece de relevante no mundo se reflete (ou se origina) neles – esses indivíduos são quase “candidatos naturais” a trader.

Outras pessoas talvez não tenham essa mesma atração pelos mercados financeiros, mas se interessam pelo trading, pois vêem, nessa atividade, uma possibilidade de ter ganhos maiores do que com suas profissões regulares ou então enxergam uma possibilidade de ter maior qualidade de vida, trabalhar de sua própria casa, sem horários rígidos e sem chefes “pegando no pé”.

Se você, leitor, vem de alguma forma desenvolvendo interesse pela especulação financeira como forma de vida (“viver de trading”, como se diz no mercado), provavelmente se enquadra em uma das duas categorias descritas. Se é seu caso, convido-o a refletir sobre alguns pontos relevantes antes de tomar a decisão de abraçar esse estilo de vida, na visão de alguém que já passou uns bons anos da vida vivendo exclusivamente disso (esse “alguém”, por acaso, sou eu mesmo).

1 – Expectativas realistas
Viver de trading raramente é tão fácil quanto muitas pessoas (especialmente alguns autores, instrutores de cursos e intermediários de serviços financeiros) fazem parecer que é. Existem muitos cursos e métodos “mirabolantes” que prometem, consistentemente, resultados espantosos que permitem a qualquer pessoa ganhar em um mês (ou mesmo um dia!) a rentabilidade que, em circunstâncias normais, se levaria um ano para conseguir.

Muitas pessoas são presas fáceis para esses engodos, tão desesperadas que estão para encontrar um “atalho para a fortuna”, e acabam deixando o senso crítico de lado. Informe-se, saiba o que esperar do mercado em termos de rentabilidade e não acredite em tudo que lhe falarem.

2 – A importância da informação e da educação
Trading é uma atividade solitária. Ponto final. Se você ganha, ganhou sozinho. Se perder, a dor será só sua. Você é 100% responsável por suas atitudes e por seus resultados quando estiver operando no mercado financeiro, por isso saiba o que está fazendo. Aprenda sobre as diferentes “escolas” de análise (fundamentalista, técnica, quantitativa etc.), selecione aquela que mais se adapta a você, estude muito, faça muitas simulações e, só então, vá ao mercado “pra valer”.

Se você tem dúvidas e precisa de “dicas” e encorajamento de terceiros ou sente necessidade de freqüentar fóruns de internet especializados em busca de “aprovação” para suas operações, então você simplesmente não está pronto para ser um trader. “Volte para a prancheta”, estude mais e prepare-se melhor – seu dinheiro agradece.

3 – Faça um inventário de si mesmo
Coloque no papel todas as informações sobre seus recursos materiais, intelectuais e psicológicos para traçar um retrato fiel de si mesmo que o permita avaliar se essa atividade é adequada para você. Comece pelo seu capital: quanto dinheiro você tem disponível? Quanta perda estaria disposto a suportar (e por quanto tempo) caso o mercado passe por uma “maré ruim”? Quanto tempo você tem disponível para se dedicar? Quais são seus conhecimentos sobre finanças, matemática, programação, estatística e outras habilidades que são importantes no mercado? O que precisa melhorar?

4 – A única coisa certa é a perda
Se você virar um trader, a única coisa que posso afirmar, com absoluta convicção, é que você vai perder dinheiro em algum momento. O mercado pode passar por longos períodos agindo de forma extremamente favorável (quem esteve na bolsa brasileira de 2003 a 2008 sabe disso), mas em algum momento a perda virá.

Os traders bem sucedidos são aqueles que conseguem minimizar suas perdas através do gerenciamento de riscos, de tal forma que, no longo prazo, eles ganham mais do que perdem. É o famoso “cortar as perdas rapidamente e deixar os lucros fluírem”.

Traders de sucesso passam muito tempo refinando seus sistemas ou metodologias em busca daquilo que, no mercado, se chama de “expectativa matemática positiva”, que é a segurança probabilística de que, no longo prazo, os ganhos superarão as perdas (e o resultado será um lucro líquido), pois eles sabem que é impossível simplesmente “não perder”. Perdas são fatos da vida.

5 – Trading não é investimento, é profissão
Um investidor de longo prazo geralmente compra ações e “esquece” delas. Não fica acompanhando cada movimento do mercado e buscando o melhor momento para comprar ou vender. Ele não investe muito tempo nessa atividade. Já o trader, que está em busca de movimentos oportunistas, precisa estar constantemente “ligado” no mercado, acompanhando os preços e fazendo análises.

Trading é um “trabalho” como qualquer outro, que demanda tempo e planejamento. Quem é trader “dá expediente”, tem que trabalhar, e esse tempo trabalhado tem um custo. O trader profissional tem que remunerar seu capital e seu tempo. Ele deve constantemente comparar seus resultados em determinado período com o que seria se ele simplesmente comprasse ações e as deixasse “quietinhas”, sem movimento (ou, como se diz no jargão do mercado, o “buy and hold”).

Se o resultado não for significativamente melhor que o “buy and hold”, então o trader está perdendo tempo e dinheiro. Descubra qual é seu “custo/hora” e considere esse valor em suas simulações antes de começar. Se não conseguir uma rentabilidade que remunere adequadamente seu capital e pague o custo de sua hora, é melhor procurar outra metodologia… Ou outra atividade.

Se depois de pesar os pontos expostos você está mesmo convencido de que quer abraçar esta atividade, então seja bem vindo ao clube! Nunca se esqueça que o trading é um negócio como outro qualquer, que exige tempo, dedicação, estudo, planejamento, perseverança e, às vezes, um pouco de sorte.

Foto de sxc.hu.

André Massaro
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