As preocupações em torno da economia chinesa têm abalado os mercados internacionais, provocando agitação nas principais bolsas de valores do mundo. A forte turbulência tem como pano de fundo as indicações de que a desaceleração do país asiático possa ser maior do que vêm indicando as projeções para o PIB oficial.

O temor em relação ao crescimento chinês insere mais incerteza sobre a economia mundial, que até bem pouco tempo depositava sobre a China as esperanças de dinamismo econômico. A China era vista como a locomotiva do mundo, agora há receio que isso não continue ou, pelo menos, não com a mesma força.

Roberto Dumas, especialista em economia chinesa e professor do Insper, explica que o país está passando por um processo de rebalanceamento de seu modelo de crescimento econômico.

Até 2011, a economia chinesa tinha a rubrica investimentos responsável por 50% de seu crescimento. Esse excesso de investimentos gerava uma sobre capacidade que era escoada para os EUA. “Enquanto a China produzia mais do que consumia, os EUA fechavam essa contabilidade gastando mais do que produzia, comprando esse déficit da China”, diz Roberto.

Após a crise da subprime em 2008, os EUA passaram a consumir menos do que consumia em percentuais do PIB. Assim, a China passou a buscar outros mercados para escoar seu excedente de produção, entre eles o Brasil e outros países da América Latina e da África.

“No entanto, esses novos mercados não conseguiram compensar a queda do consumo das famílias norte-americanas, fazendo com que a China precise produzir menos e consumir mais do que produz. Para que isso ocorra, a renda do trabalhador chinês precisa crescer mais fortemente como forma de impulsionar o consumo doméstico”, ressalta o especialista.

Dumas avalia que o que está acontecendo na China não é crise, mas resultado de uma política que busca rebalancear a economia, tornando o consumo o principal motor do crescimento.

“Isso levará pelo menos uma década para acontecer. Então, certamente ainda veremos mais notícias de que o crescimento econômico chinês virá cada vez menor”, afirma. Na expectativa do especialista, o país crescerá, em média, no máximo entre 4% e 4.5% nos próximos 10 anos.

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Impactos no Brasil

Desde 2010, quando ultrapassou o Japão, a China se tornou a segunda maior economia do mundo. Além disso, antes mesmo de assumir tal relevância no cenário internacional, o país já era o maior parceiro comercial do Brasil. Dessa forma, qualquer turbulência no gigante asiático costuma afetar os mercados.

Nos últimos 15 anos, o ritmo acelerado de desenvolvimento da economia chinesa gerou um aumento na procura por matérias-primas que o Brasil vende, como minério de ferro e soja. Entre 2003 e 2010, o preço do minério de ferro na China chegou a subir 750%. No entanto, desde 2011, a desaceleração do país fez com que o apetite por insumos diminuísse, levando a uma queda gradual de preços no mercado internacional.

A expectativa é que o preço de tais produtos possa despencar ainda mais. “Além do Brasil, o impacto será em todos os países exportadores de commodities metálicas, como minério de ferro, cobre ouro, platina… Com a subida de juros dos EUA e um menor nível de exportações para o gigante asiático, as moedas desses países (Peso Chileno, Peso Colombiano, Real Brasileiro, Sol Peruano, Rand Sul-Africano e até mesmo o Dólar Australiano) continuarão a se depreciar neste ano, além do que já depreciaram em 2015”, avalia Roberto Dumas.

Já do lado positivo, posto que a economia chinesa busca aumentar seu consumo doméstico em relação ao PIB através de um aumento da renda das famílias, Dumas acredita que o segmento de soft commodities ou agrícolas tende a se beneficiar de uma maior demanda (soja), assim como a proteína animal (carne).

“Desde o ano passado, a China já liberou a importação de pelo menos 10 frigoríficos de carne bovina e suína do Brasil, antecipando essa mudança do motor econômico chinês”, afirma. Outro segmento que tende a se beneficiar é o de papel e celulose. “Com o aumento da renda do trabalhador chinês e maior celeridade no processo de urbanização do país, a demanda por papel (higiene, etc.) certamente aumentará. Além disso, 95% da nossa produção de papel e celulose no Brasil é destinada à exportação, o que tem se beneficiado com a depreciação de nossa moeda”, diz.

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Foto “China Stock Market”, Shutterstock.

Isabella Abreu
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