Está na hora de comprar um carro zero? E imóvel?Pedro diz: “Navarro, estou surtando. Calma, explico as razões: o Dinheirama deu ampla e excelente cobertura aos acontecimentos ligados à crise financeira mundial, especialmente no que se refere aos seus efeitos para o bolso dos cidadãos. Ótimo. Mas eis que, lendo alguns jornais e revistas, noto reportagens e propagandas estimulando a compra de veículos, casas e apartamentos. Como assim? Vimos que a tendência do momento é de escassez de crédito, que torna o juro mais elevado, e tem gente mandando a gente comprar? Gostaria de sua opinião sobre isso”.

Tem muita gente surtando. Aliás, tem um sem número de pessoas que já surtou. “Crédito fácil não significa crédito barato”, máxima proferida com propriedade pelo colega Ricardo Pereira e que sempre exploramos no Dinheirama nos coloca diante de uma questão ainda mais crucial sobre os juros e as compras da população: quem disse que antes da crise os juros estavam em patamares interessantes e que o crédito era a ferramenta indicada para tanta gente?

A “briga” é boa, mas sua discussão nem sempre é tão produtiva. Afinal, o crédito é um instrumento essencial para o crescimento da economia[bb], já que permite que muitas pessoas executem ordens de poder e movimentem o comércio e padrão de vida locais. O dinheiro, meio de troca que é, também tem seu lado social – que é subjetivo, mas de grande impacto nas decisões cotidianas. Portanto, discutir se o crédito é bom ou ruim é um desafio capcioso e muito maior que as capacidades intelectuais deste humilde blogueiro. Vou por outro caminho.

Quem mandou financiar?
Passada a observação sobre relevância do crédito, finalmente volto para o ponto central de todo nosso bate papo: a compra parcelada, normalmente financiada através de juros altos, era saída inteligente mesmo antes da crise? Certamente era a mais fácil. Do ponto de vista de planejamento financeiro[bb] e orçamento, talvez a realidade devesse ser completamente diferente. Mas, disso, você já sabe.

Pois bem, com o temor de inadimplência contaminando bancos, instituições financeiras e demais fontes de crédito, é natural que se empreste menos capital e que os rigores no empréstimo sejam maiores. Isso significa notar, em alguns casos, juros maiores e/ou exigência de entradas maiores. Em outras palavras, financiar continua sendo uma opção disponível, mas certos detalhes mudaram.

Entendo perfeitamente a dúvida em relação ao momento atual. Felizmente, os financeiramente educados partem para o saudável debate sobre as decisões de empresas e bancos, discutindo a viabilidade da compra diante de um cenário delicado e ainda imprevisível. Os demais sentem-se atraídos, mesmo sem entender porquê. Vejamos o caso dos carros: é fato que o mercado de automóveis derreteu de forma acentuada e os juros médios nos financiamentos e empréstimos já subiu. E daí?

Promoções? Será hora de comprar?
Feirões para lá e para cá, ofertas de juro zero, parcelas mais atraentes e descontos no preço à vista. Uau! Mas será que isso não estaria indo na contra-mão do atual cenário de crise? Repare que a partir daqui a discussão fica bem interessante. Antes, com dinheiro[bb] caro ou barato, existia enorme demanda (ou procura). Todo mundo queria um carro e estava disposto a pagar o que fosse para tê-lo. Os fabricantes, claro, queriam vender e produziram muito.

Você já deve ter captado a mensagem, afinal estoque é a palavra-chave do mês. Montadoras e concessionárias estão com estoques elevados, tendo inclusive que convidar seus funcionários a viver momentos de lazer com a família (leia-se convocando férias coletivas). Para produzir mais, primeiro é necessário vender aquilo que já foi produzido. Estoque significa, dentre outras coisas, custo e ineficiência.

Ora, com uma queda brusca nas vendas, previsões inteiras foram arruinadas, resultados e novas análises foram prejudicadas. Entre não vender e vender mais barato, ainda que diminuindo margens, o que parece mais sensato? Pois é, os descontos na compra de carros novos e algumas facilidades na negociação explicam parte deste comportamento. Logo, comprar agora pode representar a realização de um bom negócio? Pode. Mas, como insistir na necessidade de planejamento e organização das finanças é parte de meu dever, lembre-se:

  • Regra 1: Só compre se puder comprar. É fácil. Você precisa ter dinheiro disponível para a realização do objetivo, sem que isso comprometa seus outros objetivos em andamento. Não é porque está mais barato que você vai comprar e depois se matar para pagar (ou não pagar);
  • Regra 2: Prefira comprar à vista ou dê a maior entrada possível, desde que a regra anterior seja respeitada. Os preços promocionais ainda podem ser negociados e você fica livre dos juros do financiamento. Mas você precisa poder pagar;
  • Regra 3: Cuidado com o juro zero. Os financiamentos possuem taxas administrativas e impostos, muitas vezes repassados de forma não usual (leia-se embutida no preço final do carro). Negocie muito e negocie sempre!

O caso dos imóveis é ainda mais lógico: a procura por casas e apartamentos diminuiu em diversas regiões do país, o que naturalmente fez os preços caírem. Claro, parte da queda de procura se dá pela escassez de crédito e pela atitude “melhor esperar” de muitos investidores. Neste contexto, sim, é possível encontrar imóveis interessantes com preços também muito interessantes. No entanto, essa análise deve ser cuidadosa e deve respeitar as mesmas regras explicitadas acima.

O assunto é importante e foi abordado com muita propriedade no caderno “Classificados” do jornal Folha de S. Paulo de ontem, dia 16/11. De lá, tirei inspiração para criar esta importante relação entre o momento, a oportunidade e a realidade de cada um de nós. Por que? Simplesmente porque não concordo com a afirmação “a prestação coube no meu bolso”, dita pela grande maioria dos brasileiros que ainda compram carro financiado sem dar entrada e em um prazo muito longo. Será assim tão “simples”? Tomara que não.

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Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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