Algumas histórias são tão simbólicas que passam despercebidas diante dos olhos de muita gente. Suas lições, no entanto, são razão para profundas reflexões, especialmente quando nos damos conta de sua importância.

Parte de meu aprendizado rumo à independência financeira surgiu a partir da observação, do conhecimento experimentado, do olhar atento ao que ocorria comigo e à minha volta. A história abaixo servirá de gancho para conversarmos mais sobre isso.

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Eu devia ter uns quatro, cinco anos no máximo. Andava pelas ruas do bairro ao lado de meus pais, alguns amigos e seus pais. De repente encontrei alguns Cruzeiros (moeda da época) no chão, em notas amassadas, claramente perdidas há um bom tempo.

Percebi o pequeno “tesouro” e ao abaixar para recolhê-lo, uma voz gritou: “Não pegue dinheiro assim. Não faça isso, dinheiro é sujo. O dinheiro está cheio de micróbios, bactérias e você vai ficar doente”.

Pelo tom da voz, soube imediatamente que as palavras não vinham de meu pai ou de minha mãe. Ufa.

Era Dona Ana, mãe de Pedro, que apontava seu dedo para mim e começava a esboçar a reação típica de alguém preocupado, querendo saber quão grave havia sido minha descoberta e atitude. Eu estava fazendo algo realmente impróprio e indesejado, segundo sua avaliação.

Com calma e elegância, minha mãe colocou sua mão no ombro de Dona Ana e lhe pediu licença. Ao se interpor entre mim e ela, falou com serenidade: “Imagine, está tudo bem com ele Ana”.

Então virou-se para mim e disse: “Meu filho, recolha seu tesouro e vamos aproveitar para multiplicá-lo, como já o ensinei. Guarde-o com segurança e só então vamos lavar suas mãos”.

Eu estava tranquilo, afinal aquela não era a primeira vez que eu “farejava uma oportunidade”. Ouvi os passos calmos de minha mãe em minha direção e continuei a trabalhar em uma forma de retirar o dinheiro sem danificá-lo.

Quando chegamos em casa, algumas horas depois, fui correndo depositar meu tesouro no cofrinho dado pelos meus pais alguns meses antes.

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Educação financeira começa cedo

Educação financeira começa com o exemplo; com o apoio dos pais; e com a crença de que o dinheiro não é, nem nunca será sujo. Aquele dia transformou minha vida por duas razões simples:

  • Eu podia confiar nos meus pais para realizar meus sonhos. Para uma criança, comprar um brinquedo e encontrar alegria em uma simples visita a um parque de diversões são metas ousadas, que exigem esforços de negociação, disciplina e algum dinheiro. Aprendi a valorizar a conquista porque era motivado a sonhar, mas também a valorizar (dar valor) o que desejava. Saber quanto custa é diferente de saber quanto vale. Uma criança só pode aprender isso com a ajuda dos pais;
  • Amor não significa proteger o outro de tudo. É certo que eu poderia ter desenvolvido alguma infecção, alergia ou coisa parecida ao tocar aquele dinheiro encontrado no chão, mas estava em jogo uma lição mais importante, felizmente incentivada por minha mãe: nossas atitudes geram consequências, muitas delas frustrações. Viver em uma bolha não faz o tipo de quem quer ser independente financeiramente. Fui o tipo de criança que teve todo e qualquer tipo problema relacionado à curiosidade; aprendia e seguia em frente, sempre sob o olhar desafiador de meus pais.

Você, pai ou mãe, já se deu conta do quanto ensina ao seu(s) filho(s) sobre dinheiro, finanças pessoais e investimentos através de seu comportamento, suas decisões e atitudes? Provavelmente não.

Você costuma negociar e pedir desconto quando vai comprar alguma coisa? Investe no futuro de sua família? Guarda algum dinheiro? Está endividado? Sua família observa tudo e toma seu passo como modelo.

Você, filho ou filha, já é capaz de observar suas decisões econômicas e compará-las ao que acontece em sua família, com seus pais?

Você simplesmente replica muito do comportamento familiar, sentindo-se em uma espécie de piloto automático? Ou será que é capaz de discutir as opções, agregando valor à discussão, além de tentar provocar uma visão “fora da caixa”?

Como você percebeu, o texto de hoje é um convite. Precisamos ser mais responsáveis com a formação de nossos cidadãos.

Crianças, adolescentes e jovens são parte do processo, o que traz enorme responsabilidade ao ambiente familiar, escolar e às amizades. Você tem se preocupado apenas com a educação formal ou tem agido de forma a ensinar também com suas próprias mudanças e melhores escolhas?

O futuro cultural, financeiro e familiar de uma geração pode estar amparado no que nós, adultos, fazemos agora, hoje. Geralmente está. Será que somos humanos demais para perceber isso?

Ora, justificar a inércia abusando de nossa natureza é abrir mão do verdadeiro amor que uma família deve carregar. Amar significa dizer “não” de vez em quando, ficar doente, “cair do cavalo”. Amar significa ajudar o outro a se levantar, processar as lições e dar o próximo passo.

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Não é de hoje que temos que aprender a lidar melhor com a frustração, os momentos tensos, decisões difíceis e as muitas responsabilidades presenteadas pela vida. Ouvia muito minha avó dizendo que “as palavras ensinam, mas só o exemplo arrasta”.

Que tal viver um padrão de vida sustentável, dentro de seus limites possíveis? Que tal olhar para o seu filho e ver nele um cidadão, alguém que você quer que melhore as coisas, que deixe um legado? Que tal começar a dar exemplos decentes, dos quais você realmente se orgulharia? Ainda dá tempo.

Conrado Navarro
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