Lúcia comenta: “Navarro, estou enfrentando sérios problemas com meu filho adolescente. Antes eu e meu marido trabalhávamos, mas com a crise eu perdi o emprego e ainda não me recoloquei. A renda da família caiu. Meu filho está ficando muito frustrado por nós não conseguirmos mais comprar algumas coisas para ele, como roupas, calçados e acessórios de marca, e também algumas experiências, como viagens e saídas para festas com os amigos. Algum tempo atrás tomamos um empréstimo para ele poder participar de uma viagem com a turma da escola, para o Nordeste. Estou preocupada com tudo isso e percebendo que a harmonia do lar está dependendo mais de coisas e dinheiro do que de nosso relacionamento e amizade. Alguma dica para mim? Obrigada“.

Quando leio e-mails desse tipo, fico triste e também preocupado, vendo as sérias consequências de uma sociedade que está tão voltada para o consumismo a ponto de perder sua identidade e inverter seus valores. Esse é um assunto sério. As consequências de situações assim podem tomar proporções maiores e até destruírem uma família.

Necessidade e satisfação

Você sabe, o mercado é insaciável. Enquanto estou aqui escrevendo este texto, alguém está “fritando a mente” para descobrir novas maneiras de criar uma necessidade de alguma coisa para você comprar. E há tempos que o foco deixou de ser apenas a necessidade; muito têm explorado outra coisa: a satisfação (ou o prazer experimentado).

Um exemplo clássico é a necessidade de possuir um meio de transporte, como um carro. Uma coisa é comprar um veículo para suprir essa necessidade, como um carro usado, com algum conforto e segurança. Mas que tal comprar um carro de luxo ou mesmo esportivo? Agora já estamos falando de satisfação, prazer e status.

Antes, as pessoas conviviam melhor com suas impossibilidades de possuir algo ou com a possibilidade de ter algo razoável (o carro usado), mas que não gerava satisfação plena (o carrão importado). Este cenário era positivo na medida em que deixava mais clara a importância de galgar degraus de forma planejada.

Hoje em dia, queremos satisfação plena e imediata (rápida), e terminamos por ficar muito intolerantes às chances de não possuir algo e nesse desespero usamos todos os recursos (disponíveis e emprestados) para resolver essa “dor”. O problema é que a satisfação imediata tem um preço alto e perigoso.

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Alimentando o problema

É muito comum ver filhos acostumados neste atual modelo de consumo imediato e incapacidade de lidar com a frustração. Quem nunca viu uma criança fazendo “birra” em uma loja ao ver recusado seu desejo de obter algum brinquedo? Ela pressiona um pouco mais, se joga no chão, e os pais terminam cedendo.

Afinal, todos temos saldo no cartão de crédito e podemos deixar para pagar depois, não é mesmo? A cena vai se repetindo, a criança cresce e se torna um jovem totalmente intolerante com as frustrações. O que será deste jovem quando for encarar a vida real, que não costuma ser assim tão benevolente como seus pais?

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Uma solução perigosa

Essa inversão de valores tem tirado a essência das pessoas, que é o “ser”, e no lugar tem colocado a cultura do “ter”. Hoje, possuir coisas já não representa apenas uma satisfação dos desejos, mas sim um tipo de poder.

Quem tem mais passa a ser mais poderoso e a ter mais valor do que quem não tem. Como toda essa trama está associada ao consumo, a saúde financeira do indivíduo ou da família passa ser perigosamente ameaçada. Podemos representar esse risco com uma fórmula, criada pela especialista Márcia Tolloti e publicada no livro “Armadilhas do Consumo”, resumida na imagem abaixo:

Seus filhos sabem lidar com as frustrações? E você?

O crédito em si não é um problema. Da mesma forma que o dinheiro, ele é um instrumento para ser utilizado de forma consciente. O problema é que a falta de controle em relação às frustrações pode levar ao endividamento irresponsável, que se não for contido terminará colocando todos os envolvidos num problema ainda maior.

O tamanho do risco é diretamente proporcional à capacidade de reconhecer o problema e colocar (ou não) um freio nesse ciclo.

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Conclusão

Uma boa educação financeira passa também pelas finanças comportamentais. Reflita sobre suas atitudes e procure separar suas necessidades de seus desejos. Faça uma viagem para dentro de si e (re)descubra o que realmente te faz feliz e cultive isso.

Foto “teen frustration”, Shutterstock.

Conrado Navarro
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