Alta dos juros e o seu bolsoNa última segunda feira, dia 16/06, participei, como editor de economia do Dinheirama, da cobertura da entrevista dada pelo presidente do Banco Central Henrique Meirelles ao programa Roda Viva (TV Cultura), comandado pela jornalista Lilliam Witte Fibe. Assistir ao programa ao vivo e interagir com os participantes trouxe excelentes insights para o artigo de hoje.

Durante o programa, deixei minhas impressões e opiniões disponíveis a todos através do meu perfil no Twitter. Também comentei um pouco do que acontecia nos bastidores – ouso dizer que, algumas vezes, durante os intervalos foram ditas coisas mais interessantes que durante o programa. Aliás, algum leitor acompanhou a entrevista na TV Cultura? O que você achou?

De uma maneira geral, a experiência foi maravilhosa. Mais uma vez aprendi muito e tive a oportunidade de estar próximo da maior autoridade econômica[bb] do país. Figura ímpar que, diga-se de passagem, colocou os jornalistas “no bolso” durante o programa. As perguntas foram muito focadas nas altas taxas de juros. Temas importantes, como a dívida brasileira e os gastos públicos, acabaram ficando fora da pauta.

Que tal a dívida pública? Ela deveria ser abordada principalmente porque foi um dos pontos negativos que as agências de avaliação de risco fizeram sobre o futuro do Brasil. Mais, sobre ela ainda pesa a questão dos juros, que fazem a dívida aumentar ainda mais.

E os gastos públicos? Este talvez seja o verdadeiro responsável pelo aumento dos juros. O governo gasta muito e gasta mal. Enquanto faltam investimentos em educação e infra-estrutura, o governo gasta milhões em projetos sociais que não resolvem problemas de cidadania – apenas criam dependentes da boa vontade do governo.

Pior, abre espaço para que, em nome desses projetos, o governo aumente a arrecadação com novos impostos e contribuições financeiras sem cabimento. Falou-se de inflação, mas faltou entender, sob a ótica do presidente do Banco Central, o que verdadeiramente motiva a utilização dos juros como instrumento de contenção inflacionária, já que parece claro que não é a demanda a causadora dessa alta.

Minhas observações e o que esperar…
Falou-se um pouco sobre o dólar, mas não percebi nenhuma atitude, por parte do BC, capaz de surtir efeito em um curto espaço de tempo e conter o avanço do Real frente à moeda americana. Acredito, neste caso, que a lei do mercado prevalecerá.

A expectativa de inflação no médio prazo parece estar controlada, mas não sei se agüentaremos ficar dentro da meta estabelecida para o ano de 2008. O próprio governo já toma dinheiro emprestado a pouco mais de 15% ao ano em um dos seus títulos: as Letras do Tesouro Nacional (LTN) com vencimento em julho de 2010, um título da dívida pública prefixado.

Levando-se em conta o desconto da taxa de inflação esperada pelo mercado para os próximos 12 meses, o papel renderia uns 9,7% no primeiro ano. Se a situação melhorar, o rendimento será ainda maior. Há exatamente um ano, o governo pagava cerca de 10,5% no mesmo papel que venceria dali a dois anos, com taxa real esperada de pouco menos de 7%.

Os números realmente trazem mais pensamentos ao investidor inteligente[bb] e perspicaz, que pensa e estrutura o investimento em prazos. Assim, no curto e médio prazo parece interessante aproveitar os altos juros pagos pelo governo e investir em seus títulos da dívida – o famoso Tesouro Direto.

Em um cálculo simplista, seria necessário o Ibovespa subir ao patamar de 77 mil pontos para “compensar” o rendimento dos títulos do Tesouro. Isso sem contar a segurança dos papéis emitidos pelo governo, garantia de que não haverá volatilidade. No mercado de ações[bb], como já sabemos, a história é outra.

Não estou sugerindo que você simplesmente abandone sua carteira de ações. Não é isso, cuidado com a interpretação. O investidor sensato e antenado já percebeu que não é nada sadio manter todo o seu capital em uma única aplicação. Dada a tranqüilidade demonstrada no discurso de Henrique Meirelles, parece que estamos diante do momento ideal para aproveitar a ótima rentabilidade garantida ao emprestar dinheiro ao país.

Quer saber mais sobre os títulos públicos e sua compra? Fique por dentro do Tesouro Direto. O artigo contou com dados, detalhes e informações publicados também no jornal Folha de S. Paulo. Até sexta-feira.

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Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Ricardo Pereira
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