Difícil - CuidadoNa maioria das vezes caímos em certos apertos financeiros por pura distração. Outras vezes por falta de conhecimento. E outras vezes por uma combinação fatal de ambas as alternativas anteriores. Quase sempre a luz no fim do túnel é invisível. Braços ditos amigos desaparecem. O relacionamento com o(a) cônjuge estremece, os filhos reclamam. O trabalho passa a ficar em segundo plano. E nascem histórias tristes, arrasadoras e complicadas. Histórias que chocam. Histórias que ensinam.

Como começou…
João tinha 40 anos quando tudo aconteceu. Mecânico, ele trabalhava em uma grande concessionária de veículos e todos o consideravam um excelente profissional e colega de trabalho. João tinha um sonho: conseguir guardar dinheiro e aplicá-lo na caderneta de poupança, pensando no crescimento de sua filha mais nova. Ele sempre ouvia alguns de seus colegas falar do tal limite e da grana que usaram desse limite para pagar contas atrasadas e(ou) comprar novos objetos. João ficava intrigado. Que limite é esse que ultrapassa o salário?

Em mais um dia comum, um de seus amigos tratou de explicar-lhe que o limite era uma quantia que o banco deixava ele usar, além do que ele tinha na conta, por ele ser um cliente especial. João agradeceu e caminhou até o banco. Ele tratou logo de perguntar a razão de não estar sendo considerado um cliente especial como seu amigo. Jogaram-lhe um bom papo e algumas boas promessas. João acreditou, deu-se por feliz e foi para casa.

Como piorou…
Passadas algumas semanas, João foi novamente ao banco. Como costumava fazer, ele foi até o caixa para retirar todo o salário. Em dinheiro. Toda sua renda estava comprometida e o saldo ficava sempre zerado já nos primeiros dias do mês. Mas desta vez foi diferente. Puxando conversa com a atendente do caixa, ele perguntou novamente sobre o limite e se ela poderia ajudá-lo. “Será que já fui promovido?” ele perguntou. Ela fez que sim. João sorriu como uma criança.

“Então saque todo o dinheiro por favor, incluindo o tal limite” ordenou ele. Sem pestanejar, ela fez o que ele pediu. João foi para casa e contou a novidade para toda a família. A esposa logo tratou de lembrá-lo da promessa feita à filha. Ele teria que poupar alguma coisa para que ela pudesse estudar quando crescesse. Mas ele não tinha caderneta de poupança ou, se tinha, não sabia como usá-la. Assim, sua mulher ficou com os R$ 300,00 do limite e os depositou em sua caderneta de poupança, em outro banco, com a ajuda da patroa.

Como terminou…
João estava sempre devendo, tinha a impressão de que seu salário estava sendo depositado de forma incorreta e decidiu conversar com seu gerente, que lhe pediu explicações sobre sua movimentação financeira. Indignado com o que João lhe contou, o gerente tratou de reunir-se reservadamente com ele e sua esposa. Explicado o plano, João ficou mais aliviado. Porém tenta, até hoje, extinguir seu limite de crédito junto ao banco. Felizmente, poupar ele já conseguiu.

Que história dramática. Não parece real…
Acredite caro leitor, essa é uma história real! E ela acontece diariamente com o João, o Pedro, a Maria, a Joana e com muitos brasileiros. Quem sabe ela não acontece com você? Você pode ter usado o limite do cheque especial por outra razão que talvez julgue “inteligente”, mas paga os mesmos juros que o João. Qual a diferença para o drama por ele vivido? Você tem mais informação, oportunidade e discernimento. E mesmo assim se deu mal. Será que não é hora de repensar sua estratégia financeira?

Uma propaganda da Fundação Victor Civita alerta: 74% dos brasileiros são analfabetos funcionais e não compreendem nada mais complexo que um bilhete. Enquanto isso, vemos nosso número de milionários crescer 30% desde 2003. São dois grupos opostos, mas que dividem o mesmo Brasil. E agora? Você não está nem lá nem cá, não é mesmo? Isso significa, meu caro, que você sabe ler e interpretar um contrato. Mas ainda assim você tem dívidas corrigidas pelos juros mais altos do planeta. Posso chamá-lo de João agora?

No país onde o João daqui e o João de lá vivem pendurados nos juros, sem saber como lidar com seu pouco dinheiro, você e eu ainda discutimos a necessidade de aprender a valorizar nosso dinheiro e a importância da educação financeira. Uma discussão besta cuja resposta todos conhecemos, não é mesmo? Mas não nos mexemos porque somos incapazes de acreditar que o João e os ferozes juros existam. Em um e-mail fui chamado de avarento. Mais respeito com o João, por favor.

PS: Que fique claro que o nome João não foi usado com conotação pejorativa. A intenção foi a de apenas ilustrar o dia-a-dia do brasileiro através de um personagem de nome João.

Conrado Navarro
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