Inteligência financeira contra a euforia do baixo IPICristiano comenta: “Navarro, a recente redução do IPI para alguns eletrodomésticos tem gerado grande euforia nos consumidores. Parece que o objetivo da medida – reaquecer a economia e fazer as pessoas voltarem a consumir – será alcançado. No entanto, muitos compram simplesmente porque o produto está ‘em promoção’, sem observar qualquer regra de planejamento ou mesmo necessidade. Dito isso, onde fica a lógica da medida? E que raciocínio deve ter o consumidor?”

Consumir é um ato que representa a necessidade de inserção social (palavras muito diferentes de inclusão social), especialmente quando se trata da parcela da população por muito tempo sem acesso ao que hoje se considera essencial para uma vida mais rica e confortável. Como sempre digo, não há nada de errado em consumir e alinhar sonhos e desejos à tendência de aumento de renda e produtividade[bb]. Assim, fica fácil enumerar pelo menos três pontos que definem a importância do consumo:

  • Mais empresários lançam seus produtos e novidades. O país cresce, “fatura mais”, gera mais empregos e oportunidades de trabalho. O ciclo ganhar-gastar-crescer toma corpo;
  • Aumenta a competitividade. Com mais opções, o consumidor pode comprar melhor e as empresas têm que criar produtos diferenciados e mais acessíveis. Basta pensar no exemplo clássico do celular, sua facilidade de aquisição e preços cada vez menores;
  • A economia se fortalece. O giro de capital movimenta as esferas econômicas que sustentam o país, seus investimentos em capacidade produtiva e programas sociais. O dinheiro circula, como há de ser, e é aplicado onde faz diferença (em tese).

O contra-ponto está no lado do consumidor, que tanto trabalha para receber seu salário e benefícios e acaba gastando-os de forma imprudente e não planejada. Apesar do já ressaltado valor econômico e social do consumo, sua equação prática e moral não é tão simples. Consumir muitas vezes significa comprometer prioridades familiares, destruir sonhos e cair em um problema crônico de endividamento – e essa realidade aflige milhões de cidadãos de nossa nação. Tenho certeza que você conhece pelo menos uma família com graves problemas financeiros.

A relação entre consumidor, governo e economia
Muitos comentários e mensagens recentes tratam as ações tomadas pelo governo de forma superficial. A questão deve ser pensada de forma menos partidária e mais pragmática. Neste sentido, proponho duas reflexões:

  • Até que ponto as eleições do ano que vem influenciam as decisões do governo no combate à crise? Pense de outra forma: um ano economicamente fraco, com maior desemprego e sem oportunidades de consumo para os grandes eleitores do país diminuiria muito a aprovação e satisfação com o governo? Em quanto?
  • Até que ponto as medidas tomadas realmente reanimam a economia e permitem que o quadro seja revertido? Ou: incutir juros mais baixos nas transações, incentivar o consumo através de concessões tributárias e facilitar o acesso ao crédito trarão o ciclo produtivo ao seu nível satisfatório, com empregos e crescimento? Quando?

A ausência da hipocrisia, característica típica de meus textos, não deixa espaço para qualquer tentativa de manipulação política. A verdade é que ambas as reflexões têm que ser realizadas em um mesmo contexto, com os vieses e conseqüências cuidadosamente trabalhados de forma a melhorar o país. Em suma, trata-se de observar o Brasil enquanto conjunto formado por política, bom senso, conhecimento técnico e tácito e boa vontade. Se nossos representantes assim o fazem, ou deixam de fazer, já não me meto a opinar.

Logo, é no mínimo interessante notar o apetite do governo em promover medidas anti-crise. Mas, ao que parece, o movimento é assim intenso para “correr atrás” do tempo perdido, quando havia a impressão de que seríamos atingidos por uma “marolinha”. Agimos tarde? Parece que sim, mas em economia[bb] tudo é muito mais complicado (e simples) do que parece. Acertar pode ser tão difícil quanto prever erros e acertos. Criticar, ufa, é sempre mais fácil.

Consumamos, pois, mas com inteligência financeira
A esta altura você está achando o texto politicamente complexo e financeiramente pobre demais. Você não tem razão. O breve insumo sobre a nossa economia e sobre as complicadas decisões que fazem parte do dia-a-dia de uma equipe de governo é material precioso para que possamos formar opinião sobre um ano que se mostra repleto de mudanças e desafios. Sugiro que as inflamações partidárias sejam finalmente deixadas de lado para que possamos debater o consumo consciente, uma das razões de existência deste espaço.

Comprar porque há redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) representa uma decisão inteligente? Por que? Enquanto muitos vendedores e consumidores nem ao menos entendem a razão para a queda do imposto e se endividam para aproveitar a “oferta do ano”, outros usam o momento para aproveitar suas planejadas economias para melhorar seu padrão de vida. Ambos consomem, mas apenas um grupo se beneficia.

Uns têm prioridades. Outros as vêem como armadilhas contra a realização pessoal. Imediata, é claro! Comprar porque custa menos não sinaliza, nem de longe, uma boa compra. Parcelar, levar para casa um carnê que vai penalizá-lo durante meses e comprometer seu orçamento não é nada saudável. E pegam no meu pé porque eu sou contra o parcelamento. Pois é, sou contra.

Assim como sou contra quem compra, mesmo à vista, aquilo que lhe serve apenas como consolo emocional. Sou contra apimentar o já incipiente e desvalorizado preparo das pessoas para lidar com dinheiro[bb] com doses de euforia, consumismo e culto ao esbanjamento. Pagar o melhor preço sem se endividar e sem sacrificar prioridades e planos para a família e a hora de diminuir o ritmo, isso sim é comprar bem. Tudo o mais é passível de opiniões azedas de minha parte.

Inteligência financeira significa separar o que querem que você compre daquilo que você planejou e se preparou para comprar. Se agora custa menos, ótimo. Se não, paciência. Afinal, se você planeja e sustenta um orçamento equilibrado, vai comprar e realizar seu objetivo mais cedo ou mais tarde. Ou melhor, na hora certa. Não adianta inflar artificialmente (leia-se com dinheiro que você não tem) sua teia de bens quando o futuro é incerto. Para estes, a casa sempre cai – e nisso não há intervenção federal que dê jeito.

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Conrado Navarro, educador financeiro, formado em Computação com MBA em Finanças e mestrando em Produção, Economia e Finanças pela UNIFEI, é sócio-fundador do Dinheirama. Atingiu sua independência financeira antes dos 30 anos e adora motivar seus amigos e leitores a encarar o mesmo desafio. Ministra cursos de educação financeira e atua como consultor independente.

Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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