Investimentos: a perigosa cultura do curto prazoJordão comenta: “Navarro, tenho 30 anos e só recentemente consegui começar a poupar parte de minha receita. Minha primeira decisão foi conversar sobre investimentos com meus pais, que logo me desencorajaram a alocar parte de meu dinheiro em produtos ligados à bolsa de valores ou que não tenham liquidez imediata. Como devo agir? Obrigado”.

Tem um ditado popular muito simples e poderoso que adoro usar em palestras sobre investimentos: “A pressa é inimiga da perfeição”. Como a perfeição ao investir é algo subjetivo, prefiro adaptá-lo: “A pressa é inimiga da independência financeira”.

O cenário econômico traumatizou o brasileiro?
É importante que nossa história econômica seja lembrada antes de tratar do que o investidor inteligente pode fazer, hoje, para maximizar suas chances de retorno. Convido-o a relembrar um pouco de nossa história recente: no Brasil pré Plano Real, longo prazo e planejamento financeiro eram utopias, assuntos completamente fora de propósito para a imensa maioria das famílias.

Com uma inflação galopante, o salário logo precisava ser trocado por produtos de uso pessoal, itens de consumo, compras de supermercado e etc. O dinheiro “tinha que ser trocado por alguma coisa física, palpável, antes que a inflação o levasse”, dizia minha mãe.

Ah, sim, investir sempre foi importante, mas sobravam poucas alternativas interessantes e confiáveis naquela época:

  • Imóveis eram as escolhas preferidas, já que representavam um bem físico que o dragão da inflação não arrasava, além de transmitirem segurança (tijolos são bem palpáveis, não é mesmo?);
  • A poupança tinha seu apelo, era acessível, mas depois sofreu um arranhão com a polêmica decisão do famoso ex-presidente Fernando Collor (não rendia muito, mas era simples e objetiva – ainda hoje é muito usada e recomendada, como sabemos);
  • Havia a conta-investimento chamada overnight, ou simplesmente “over”, cuja liquidez era diária e consistia em um dinheiro aplicado e com correção monetária. Esse dinheiro “não perdia valor”, mas exigia aportes maiores dos aplicadores (era restrito);
  • Havia outras opções (bolsa de valores, títulos etc.), é claro, mas elas eram restritas a gente muito interessada (e qualificada), profissionais e especialistas do mercado financeiro.

Restava a todos a consumir
Investir, você que é mais jovem deve estar pensando (com razão), não era algo trivial. Garantir retornos maiores que a inflação e associar o hábito de investir à realização de objetivos parecia (e realmente era) coisa de gente muito rica e bem assessorada.

O que houve, portanto, foi uma associação perigosa: a cultura que prevaleceu foi a de que investimentos arrojados eram manobras de gente mal intencionada (e muitos eram mesmo!), enquanto que investimentos mais simples eram essencialmente ruins para fins de construção de patrimônio (e eram mesmo, com exceção dos imóveis).

Insisto na realidade da época: o salário chegava e logo todo mundo corria para as ruas, lojas e supermercados para comprar tudo que viam pela frente. De tarde o dinheiro “valeria menos”; amanhã já não seria suficiente para comprar o que se desejava; semana que vem o soldo seria quase inútil para garantir o bem-estar familiar. Complicado, não?

Instaurou-se a cultura do curto prazo
Guardar dinheiro? Investir? Nada disso era possível, como vimos muito superficialmente até agora (aliás, recomendo aos interessados em entender melhor a história de nossa moeda que leiam o ótimo livro “Saga Brasileira”, da jornalista Miriam Leitão). O planejamento era diário ou, no máximo, mensal. Para muitos, um mês era longo prazo. Um ano? Futuro distante.

É preciso aceitar que o “país da classe média” é um fenômeno recente. O Plano Real tem apenas 19 anos. A estabilidade econômica e a inflação sob controle (há controvérsias, eu sei disso, mas há também quem tenha morrido sonhando com anos e anos consecutivos de inflação de um dígito) são conquistas marcadas pela desconfiança em muita gente.

Impera, portanto, a cultura do curto prazo. Apesar de o horizonte estar mais limpo e com visibilidade muito melhor, tendemos a olhar apenas alguns metros à frente de nossos pés (quando não para o próprio nariz). Na prática, agimos de forma a curar os desejos represados de consumo e pouco investimos no médio e longo prazo.

O Brasil é outro? Provavelmente sim. Nós mudamos nossa forma de encarar o planejamento financeiro? Não muito.

Como mudar essa realidade?
Infelizmente, não tenho a resposta certeira. O que trago são reflexões simples sobre o aspecto humano das finanças e como devemos nos preparar, enquanto família, para permitir que novos hábitos preencham a casa de forma a acelerar nosso processo de enriquecimento e independência financeira.

A mudança que proponho está baseada em três passos. Acompanhe.

1. Tenha uma reserva de emergência
Ao permitir que se desfrute, com grande lastro, dos dias de sacrifício no trabalho, exigências familiares e compromissos sociais, a reserva de emergência injeta tranquilidade financeira no cotidiano das famílias de um país ainda à mercê de mudanças econômicas intrigantes (basta observar como oscilou nosso PIB nos últimos cinco anos).

Traduzindo, manter em um investimento líquido boa reserva de capital permite que encaremos as emergências sem o desespero habitualmente ligado a situações de estresse. O dinheiro não vai acabar no mês que vem se algum membro da família perder o emprego – só quem viveu isso sabe como as coisas “esquentam” em momentos assim.

Atitude desejada: combine com a família a criação e manutenção de uma reserva de emergência (aplicação líquida) equivalente a 10 meses de receitas líquidas do lar.

2. Vá além da cultura da liquidez imediata
Com o “colchão financeiro” construído, é desejável apontar objetivos e relacioná-los a uma métrica temporal. Definir metas a serem realizadas em um período de até 12 meses, de 12 meses a cinco anos, e depois de cinco anos permite que diferentes modalidades de investimento possam ser aproveitadas.

Antes acostumados aos produtos conservadores (renda fixa) que rendiam muito (nossas taxas de juros eram elevadas demais) e tinham liquidez imediata, agora precisamos traçar estratégias mais inteligentes e melhor relacionadas ao tempo. Aplicações dinâmicas exigem carências maiores, o que significa que são apropriadas para perfis diferentes daqueles do passado. Fica o convite: precisamos agir no presente.

Atitude desejada: seja conservador com a maior parte de seu patrimônio (renda fixa, títulos e investimentos que protejam da inflação), mas use também aplicações mais sofisticadas para prazos mais longos (fundos multimercado e LCI, por exemplo).

3. Invista para um horizonte de mais de 10 anos
Até aqui, vimos a importância de ter uma reserva e de investir em metas conhecidas e devidamente precificadas (quanto e quando). A má notícia é que o processo de enriquecimento e construção da independência financeira não é rápido e leva, no mínimo, 10 anos. Isso mesmo, 10 anos! No mínimo.

A boa notícia é que 10 anos passam muito rápido (basta ver quanta gente se arrepende de tê-los visto passar sem agir) e que, principalmente para os mais jovens (e essa é uma definição ampla), os próximos 10 anos estão diante de seus olhos neste instante. É hora de começar a investir neles.

Lembre-se que agora você tem reserva (está coberto em caso de uma emergência) e já investe em objetivos bem claros (poupa para conquistar o que quer). Falta algo: o investimento frequente e disciplinado de pequena parte da receita em modalidades mais arriscadas e focadas no longuíssimo prazo. Seu risco em relação ao todo será pequeno, mas o resultado lá na frente tende a ser compensador.

Atitude desejada: do total possível para investimentos, alocar de 10% a 25% em investimentos mais arrojados (fundos de ações e bolsa de valores), de preferência através de gestores especializados (que não são os bancos de varejo).

Conclusões
Ao relacionar segurança (reserva de emergência), disciplina (investir em metas claras) e risco (lançar-se de forma mais arriscada rumo ao futuro), minha intenção é compartilhar a estratégia que funcionou comigo nos últimos 12 anos como investidor. No meu entender, a principal vantagem deste processo é que ele é relativamente simples, o que facilita muito o tão necessário envolvimento familiar.

Este breve artigo tem como objetivo alertá-lo para a necessidade urgente de inserir o longo prazo em suas atitudes presentes enquanto investidor. Afinal de contas, todos concordamos que a cultura do curto prazo normalmente acaba levando ao endividamento, causando incidentes familiares e gerando angústia e ansiedade.

Se buscamos a independência financeira, é porque queremos um futuro livre de problemas financeiros. Isso só é possível se fizermos do amanhã nossa prioridade. Hoje. Concorda? Tem alguma história para compartilhar? Use o espaço de comentários abaixo ou mande-me uma mensagem no Twitter – sou o @Navarro por lá. Até mais.

Foto de freedigitalphotos.net.

Conrado Navarro
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