Por Carlos Jenezi, especialista em marketing e desenvolvimento de produtos, e articulista da Plataforma Brasil Editorial.

Caro leitor, semanas atrás fomos surpreendidos com o anúncio de mais uma megaoperação financeira capitaneada pelo 3G Capital, a fusão das gigantes do setor de alimentação Kraft Foods e Heinz.

A criação do colosso Kraft Heinz, de receitas estimadas em US$ 28 bilhões/ano, foi mais uma realização do trio de brasileiros Jorgel Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles (com a ajuda nada modesta de Warren Buffett, mais uma vez).

Mesmo se tratando de uma operação envolvendo o já famoso trio de megainvestidores brasileiros, tal notícia ainda causa sentimentos contraditórios nesse tão maltratado ouvido. Um misto de esperança em perceber que o capitalismo pujante e arrojado ainda existe, e tristeza em perceber que essa pujança e dinamismo não encontra abrigo no meio empresarial brasileiro.

Claro que enxergar o 3G Capital como um grupo empresarial exclusivamente brasileiro é uma falácia, considerando não somente suas ramificações internacionais, mas o fato de que os negócios mais relevantes envolvendo o trio já são feitos fora do país há tempos. Mas, na ausência de referências de magnitude similar em território nacional, infelizmente é o “pouco” que nos resta.

Analisar a história desse grupo e de seus fundadores nos dá, além das migalhas de um efêmero orgulho nacionalista, uma visão clara e um tanto quanto perturbadora do quanto estamos anos-luz do que se pode chamar de um país desenvolvido.

Quando falo em desenvolvimento e seus indicadores, obviamente não me refiro aos números do Bolsa Família ou dos milhões de brasileiros recém-chegados (e muitos já recém-saídos) da chamada nova classe média. Refiro-me a um país de governo eficiente, instituições sólidas, população instruída e, por que não, empresas fortes, lucrativas e lastreadas em conceitos perenes de gestão.

Quando analisamos esse último, percebemos que o abismo é colossal! Nossos estandartes empresarias genuinamente brasileiros são construtoras atoladas em corrupção, empresas familiares se segurando já na segunda ou terceira geração e, claro, a Petrobrás, que nesse momento de sua história não merece qualquer comentário.

Claro que não podemos nos esquecer de Eike Batista, o garoto prodígio do novo Brasil que, assim como nosso país na capa da “The Economist”, decolou e tão logo caiu.

O Brasil representa hoje o ambiente mais assustador para qualquer iniciativa empresarial séria, a começar por um sistema fiscal caótico, uma legislação trabalhista arcaica, mão de obra pouco especializada e uma infraestrutura capenga, além de governo intervencionista e com profunda aversão pela iniciativa privada.

Todos esses fatores nos deixam cada vez mais distantes de uma base empresarial séria, sólida, que funcione junto com o governo como verdadeira força motriz do desenvolvimento. A consequência mais grave, além do vácuo de desenvolvimento, é o preenchimento desse espaço vazio por aventureiros, especuladores, corruptos e claro, “amigos” do governo.

Enquanto a situação não muda, só nos resta compensar a frustação comendo um hambúrguer com bastante ketchup, tomando uma lata de cerveja e, quem sabe, um chocolate para arrematar. Um brinde ao Brasil que deu certo, ainda que so far away. Até o próximo.

Plataforma Brasil
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