Juros baixos ou enésimas prestações?Outra reportagem encaminhada por um leitor, outro susto. Transcrevo aqui a pergunta que encabeça o e-mail enviado pelo amigo Michel. Pense no brasileiro típico: quando se trata de financiamento de veículos, cartão de crédito e cheque especial, será que ele se preocupa mais com os juros que vai pagar ou com o prazo de financiamento colocado à sua disposição? Onde fica a preocupação com as finanças pessoais[bb]?

A relação juros x prazo é pauta de um fantástico estudo realizado pelo Ibmec-SP sob coordenação do economista Domingos Pandeló, cujos resultados foram alvo de uma reportagem na edição impressa de ontem (9 de junho) do jornal Folha de S. Paulo. Se levado em conta o aspecto econômico, a facilidade na obtenção do crédito piorou – e muito – a qualidade das decisões financeiras dos consumidores.

Pandeló sustenta que a decisão de fazer um empréstimo no banco com juros proibitivos tem mais a ver com necessidades pontuais de caixa e com a comodidade do que com taxas e prazos. O brasileiro quer o simples, mas se esquece de que o amanhã, o dia do pagamento, nunca é fácil. O autor do estudo arremata:

“Quanto mais fácil a adesão ao financiamento – como o cheque especial, o cartão de crédito e os limites pré-aprovados -, mais irracional o consumidor se mostra do ponto de vista econômico, que avalia a relação custo/benefício”

No português claro, o brasileiro sua muito para receber seu salário no final do mês, mas o emprega de forma irresponsável quando tem uma necessidade imediata ou desejo de compra que vai além de suas possibilidades. Mais, temos o hábito horrível de apenas calcular o impacto da parcela dentro do orçamento, mas não da compra dentro da realidade de nosso padrão de vida[bb].

Compramos porque algo está “barato”, sem ter o mínimo senso econômico. A passividade diante das cobranças de juros impede que a negociação de valor seja feita de forma inteligente, deixando o mercado livre para “flexibilizar” o pagamento, incutando taxas de juros mais altas e ganhos maiores no crédito direto. O economista Pandeló, responsável pelo material, vai além:

“O banco conhece o comportamento do cliente e tem o crédito pré-aprovado para isso. As operações de longo prazo, que têm maior valor, costumam ser mais racionais porque não envolvem uma decisão impulsiva. Ninguém compra um imóvel por impulso. O carro talvez não se enquadre nisso, apesar do valor maior. É bem comprado para mostrar a ascensão social”

A reportagem completa da Folha traz ainda exemplos de cidadãos informados – a maioria cursando o terceiro grau – que realizaram financiamentos de automóveis cujas taxas de juros são desconhecidas. Cada entrevistado afirmou ter se preocupado apenas com o tamanho da parcela dentro do orçamento doméstico, mesmo sabendo que o valor pago pode ser muito alto ao final dos usuais cinco anos. Ninguém se recordava da taxa de juros assinada no contrato.

O puxão de orelha fica por conta de três atitudes que me incomodam bastante:

  • Passividade nas negociações. Onde está a paixão demonstrada pelo bem quando se trata de pagá-lo e honrar sua suada jornada de trabalho? Somos demasiado passivos nas negociações[bb] e esquecemos de levar em conta a verdadeira capacidade de fluxo de caixa da família. Coloque a energia do desejo também para negociar o preço e as condições de pagamento.
  • Falta de informação. Salvo raríssimas exceções, vendedores normalmente informam dados e aspectos da compra que apenas reforçam a melhor alternativa para o lojista. Cabe a nós, cidadãos preocupados com as finanças da casa, pesquisar alternativas e discutir pontos não abordados pelo profissional que nos atende.
  • Ausência de percepção financeira. Um juro de 2,15% ao mês é um juro alto ou baixo? Precisamos estar preparados para responder essa e outras perguntas. Interesse pela matemática financeira[bb] básica do dia-a-dia deveria ser hábito de todos. A propósito, 2,15% é um juro alto (minha humilde opinião).

Então ficamos combinados que entre juros mais baixos (uma compra mais coerente) e prazos mais longos, o melhor é pagar menos e pagar logo. Nada de “encaixar” a parcela em seu orçamento ou usar o crédito fácil só porque ele é fácil. Lembre-se o fácil quase sempre custa mais caro e traz mais efeitos colaterais. Esforço para poupar só faz bem, experimente.

Os resultados da pesquisa realizada pelo Ibmec-SP mostram clara deterioração da consciência financeira ao longo dos anos. Ficamos mais previsíveis e, ao mesmo tempo, mais irracionais. Dan Ariely explica algumas razões dessa importante realidade através do livro “Previsivelmente Irracional”, lançado este ano. E eu? Eu continuo motivado, com a esperança de que o Dinheirama ajude a mudar parte deste cenário. Será?

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Crédito da foto para stock.xchng

Conrado Navarro
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