Este talvez seja o conselho mais importante que recebi quando ainda fazia faculdade, e confesso que na época eu não entendi bem o que ele significava ou qual poderia ser seu impacto em minha vida pessoal e profissional.

Em uma época em que praticamente tudo era motivo para festa e farra, eu dei pouca importância para uma descoberta simples, porém transformadora: a automotivação é a força mais poderosa que existe e só nós podemos despertá-la.

Com o tempo, vivi várias tentativas frustradas de empreender, algumas que deram certo e ainda mantive uma breve carreira na área de tecnologia, com carteira assinada e tudo. Durante todo esse processo, eu tinha dificuldades de concentração e minha capacidade de focar era praticamente nula.

Com 24 anos, descobri que fazia parte do seleto grupo dos portadores do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), naquela época ainda conhecida como Distúrbio de Défict de Atenção (DDA) e tratada de maneira mais profunda (com mais investigação) e cuidadosa.

Fiz terapia durante um ano, tomando inclusive Bupropiona e trabalhando aspectos cognitivos e de concentração. Melhorei e entendi o valor incrível da terapia, mas fiquei irreconhecível com o remédio. Familiares e amigos notaram a mudança e ficaram bastante preocupados.

Com o remédio, eu conseguia ler um livro do começo ao fim (uma atividade que devo ter concluído poucas vezes antes disso), mas minha energia para atividades cotidianas desaparecia rápido demais. Eu me sentia normal, mas apenas porque sabia estar tratando do transtorno.

Na mesma época, descobri que minha saúde não estava nem um pouco legal. Eu fui moleque de jogar bola duas vezes por semana e olhe lá, não curtia ficar fazendo esportes como ciclismo, MTB e achava academia algo muito chato. Esporte é rotina. Eu era um TDAH e não sabia, portanto, qualquer rotina era impossível para mim.

Resumindo, eu era sedentário e estava com elevado percentual de gordura (apesar da magreza característica, o que depois descobri também ser “falso magro”).

Meu terapeuta morreu e meu receituário acabou. Cheguei a visitar outros psicanalistas e psicólogos, mas sem muitas esperanças. Eu não queria tomar remédio, mas ao mesmo tempo me sentia péssimo por não ter capacidade de concentração e foco. Continuei procurando profissionais, inclusive nas capitais. Fui em muitos.

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Faça alguma coisa difícil. Todos os dias. Repita!

Em uma das salas de espera, encontrei em uma revista científica de saúde um artigo que falava da prática de atividades físicas de alta intensidade como parte de uma terapia contra apatia, falta de foco e déficit de atenção.

Um estalo veio à minha mente e lembrei-me imediatamente do conselho que havia recebido na faculdade. “Faça alguma coisa difícil. Todos os dias. Repita!”. Eu paguei a consulta, mas não esperei pelo atendimento. A pressa foi tanta para ir embora que sequer registrei o nome dos autores do texto (que hoje posso afirmar, sem sombra de dúvidas, mudou a minha vida).

No mesmo dia, comprei um tênis de corrida e fiz a minha inscrição em uma prova de corrida de 10 quilômetros, que aconteceria em 30 dias. Estou falando de 2005, quando ainda não havia uma corrida todo fim de semana e as distâncias de 5 quilômetros não eram nem tão populares.

Eu treinei de forma absolutamente tosca e precária, inclusive sem perceber que usava um tênis incompatível com a minha pisada. No fatídico domingo da prova, sofri com o calor e desidratei a ponto de vomitar e precisar caminhar no final do percurso.

Terminei a corrida em 1 hora e 17 minutos, com duas bolhas gigantescas nos pés (uma em cada) e uma terrível dor nos joelhos e na cabeça. Aquele dia foi muito difícil e desafiador, mas ele foi o primeiro em que eu realmente desejei passar por aquilo. Foi um sofrimento deliberado.

Como qualquer TDAH sabe, dormir bem é algo muito difícil para quem tem o transtorno, pois a cabeça simplesmente teima em desligar e as ideias “pipocam” a todo instante. Eu nunca esqueci de como dormi bem no dia em que fiz a minha primeira corrida. Eu acordei absolutamente quebrado e dolorido, mas dormi como nunca na vida.

Praticar um esporte como a corrida me fez aprender a ter disciplina, a valorizar os treinos e a concentrar. Os motivos certamente são óbvios para você, afinal de contas para evoluir em um esporte individual e que exige muito do corpo e da mente, é preciso muito esforço e dedicação.

De lá para cá, são mais de 10.000 km rodados, uma família incrível formada, negócios que prosperam, amizades fabulosas e uma saúde equilibrada, com direito a novas descobertas no esporte, agora com o ciclismo e a natação, além da corrida – o triathlon.

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O que aprendi ao lidar com o TDAH através do esporte

Eu entendi que preciso fazer o que deve ser feito, sem exceção ou sem deixar para depois, mas sempre prestando atenção aos sinais. Valorizando-os. Explorando-os e vendo até onde eles podem me levar. Em essência, deixei de lado esse papo de acaso e resolvi encarar praticamente tudo como aprendizado.

Aceitei que eu não tinha talento para o esporte (eu nunca fui destaque em nada neste sentido) e agarrei o esforço como forma de superar uma deficiência clara: a falta de foco e a desatenção. Eu queria superar a falta de disciplina e abracei os treinos de corrida com toda a força que eu tinha.

Fazer algo difícil não é necessariamente difícil. No início, o sacrifício é muito mais psicológico e emocional, quando ficamos presos nas armadilhas sociais (“o que vão pensar”, “ninguém vai me ajudar” e por aí vai).

Eu logo percebi que não precisava saber correr, mas estar disposto a melhorar e evoluir, sem desistir dos MEUS objetivos. O difícil não é começar, é persistir e evoluir. Ou se preferir de outra forma: desistir sempre é mais fácil que decidir seguir. Cuidado com esse fato!

Terapia, remédios, leitura, cursos, treinamentos, tudo é válido e ajuda muito, mas eu só entendi mesmo o valor disso quando fui humilde o suficiente para perceber que estava doente e precisava de ajuda. Primeiro eu tive que reconhecer esse fato e delinear o problema. E pedir ajuda. Sozinho.

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Se conselho fosse bom, seria vendido, não é isso que dizem por aí? É verdade! Ainda assim, o conselho que recebi quando ainda tinha menos de 20 anos mudou a minha vida e seria egoísmo demais guardá-lo apenas para mim.

Portanto, sugiro que você comece a fazer algo difícil. Agora. Hoje. Logo. E faça isso todos os dias. Um ano. Dois. Três. Cinco. Dez. Uma vida de coragem, determinação, resiliência e desafios vencidos é uma vida rica. Tudo o que você realmente quer será consequência dessa decisão, pode acreditar!

Conrado Navarro
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