dinheirama-post-livros-gringo-conradoEvandro comenta: “Navarro, uma das coisas que eu tenho percebido ao ler sobre educação financeira é que muitas ‘dicas’ de autores estrangeiros não se aplicam ao cenário econômico brasileiro. Algumas regras parecem simples em economias com juros civilizados e um sistema bancário diferente, mas não aqui. Estou certo? O alerta não é importante para o leitor brasileiro? Obrigado”.

O Brasil é mesmo um país muito diferente. Tomemos como referência a possibilidade de investir em um produto de baixíssimo risco e receber 7% mais inflação (IPCA) por ano, durante 20 anos. Isso mesmo: poder de compra garantido e ainda 7%, todo ano, por muito tempo. Tamanho retorno real, sem risco e com o risco mais baixo possível só existe aqui.

O exemplo acima ilustra a realidade brasileira em termos de juros: trata-se da NTN-B Principal, um título público com vencimento em 2035 – e qualquer brasileiro pode fazer esse investimento, hoje popularizado sob o nome Tesouro Direto (clique para mais detalhes).

Enquanto isso, títulos com características parecidas, mas nos Estados Unidos, oferecem hoje retorno real de 1,5% ao ano, aproximadamente, no longo prazo. E a caderneta de poupança? Atualmente, aqui ela está em 6,5% ao ano (com inflação de 6%); lá em 1% (inflação de 1,5%).

Então, sim, cuidado com a literatura de educação financeira traduzida, especialmente no que tange aos temas “investimentos”, “mercado imobiliário”, “tributação” e “Imposto de Renda”.

Vimos o exemplo dos investimentos, agora é hora de resumir o que acontece com os imóveis: lá fora você toma dinheiro emprestado a 4,5% ao ano para comprar um imóvel e consegue isso ou mais ao alugar esta mesma propriedade.

Lá, o aluguel paga as parcelas do financiamento – e depois do término do pagamento das parcelas, começa a renda passiva. Aqui não é existe isso: as taxas para financiar são mais altas (8% a 12%) e você não consegue compensá-las com o aluguel (não na realidade atual).

E vale lembrar que se o propósito é proteger o patrimônio, há aplicações mais seguras pagando o dobro da média de aluguel (Tesouro Direto, que vimos acima).

Em termos de tributação e Imposto de Renda, é comum nos Estados Unidos que as alíquotas para empresas e renda passiva sejam diferentes e cheias de brechas para diminuição do imposto pago.

Ganhos de capital (carteiras de investimento, por exemplo) costumam ter tributação mais elevada. Quem tem propriedades para alugar também tem benefícios e um tratamento diferenciado.

No Brasil, a diferença nas alíquotas entre as modalidades é menor e a tributação da renda como um todo é mais uniforme – infelizmente para o lado pior, o de alta carta tributária.

Máximas tipo “Renda passiva é muito mais interessante que pensar em ganho de capital” não podem ser vistas como verdades absolutas aqui. Há que se estudar e fazer algumas continhas.

O alerta é importante, afinal há muitos brasileiros lendo o excelente “Pai Rico Pai Pobre” e sua coleção, bem como Dave Ramsey, Suze Orman etc. e querendo “implementar” seu estilo de negócios aqui.

São ótimas referências? Sem dúvida. Suas lições funcionam? Claro. No entanto, é preciso interpretar bem a leitura e aplicá-la de acordo com a diferença de realidades, aproveitando o que cada uma oferece de melhor.

Como “Pai Rico” gosta de dizer quando alguém pergunta e justifica que suas sugestões só funcionam nos EUA, “Se você não consegue fazer onde vive, eu consigo. Educação financeira é colocar em prática a oportunidade de gerar renda passiva de forma sustentável”.

O que ele quer dizer é: estude as opções disponíveis de forma que você consiga maximizar seus ganhos, gerar renda passiva e pagar o mínimo exigido de impostos – isso é educação financeira. Ora, isso todo mundo consegue fazer.

Que tal? Você já se viu discutindo práticas comuns lá fora, mas não tão óbvias por aqui? Tem alguma opinião sobre isso? Compartilhe-a conosco no espaço de comentários abaixo. Obrigado e até a próxima.

Foto Shutterstock. Law book library.

Conrado Navarro
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