Livro - O Economista ClandestinoLivro: O Economista Clandestino
Autor: Tim Harford
Editora: Record
Páginas: 330
Preço: R$ 33,44

Por que os ricos são ricos, os pobres são pobres e você nunca consegue comprar um carro usado decente?
A economia é um assunto riquíssimo, mas por vezes muito complexo e de difícil entendimento. Pensando nisso, Tim Harford, que já lecionou na famosa Oxford University e assina uma coluna no jornal Financial Times, decidiu desmistificar alguns dos pontos mais desafiantes da economia sob o ponto de vista e a ótica do cidadão comum. “O Economista Clandestino” vai levá-lo em uma viagem que vai desde os princípios econômicos existentes por trás de um simples cafezinho até a complexa relação entre países pobres, corrupção e economia mundial.

Por que as coisas são caras?
Talvez a pergunta possa ser melhor formulada: por que, muitas vezes, as mesmas coisas são mais caras no supermercado de seu bairro que no supermercado da periferia da cidade? O livro nos brinda com algumas palavras sobre a política de preços de algumas empresas e do mercado em geral, dando forte ênfase ao conceito de poder de escassez. Em poucas palavras, nem sempre a pessoa ou empresa de posse do recurso que desejamos tem tanto poder como se presume. Daí, conclui-se que o poder de barganha advém da escassez. Compramos e pagamos mais caro ou porque a comodidade “compensa” ou porque há “certa exclusividade”. Ou ambos.

“Negócios com poder de escassez não podem nos forçar a pagar preços ilimitados por seus produtos ou serviços, mas podem escolher uma variedade de estratégias para que paguemos mais. A verdade é que qualquer negócio bem gerido tentará cobrar o máximo possível que cada cliente esteja disposto a pagar; e eles cobram”

Quer pagar quanto?
No final, acabamos muitas vezes optando por pagar mais ou menos depois de levar em consideração aspectos socio-psicológicos e fatores emocionais de pouca relação com a matemática ou economia como ciência. Isso leva as empresas inteligentes a avaliar cada cliente como um indivíduo e cobrar de acordo com o quanto ele está interessado em pagar. Em suma, procura-se quem quer pagar mais, não quem pode pagar mais. Pense e faça uma reflexão diante duas opiniões polêmicas de Tim:

“As pessoas já esperam pagar muito pelo vinho no restaurante e pela pipoca no cinema antes de irem a esses lugares”

“A qualidade questionável da maioria dos terminais de embarque de aeroportos em todo mundo é certamente parte do mesmo fenômeno. Se a área de embarque gratuita se tornasse mais confortável, as linhas aéreas não iam conseguir vender bilhetes de classe executiva, que permitem que seus passageiros aguardem o embarque em saguões especiais. E isso também explica por que alguns comissários de bordo impedem fisicamente que passageiros da classe econômica desembarquem antes dos passageiros da classe executiva e da primeira classe. Isso é um ‘serviço’ cujo alvo não é o passageiro da classe econômica, mas sim os outros”

A economia são as pessoas!
O livro defende, com razão, que muitas das decisões que tomamos são os grandes motores das mudanças econômicas mundiais. A constatação soa óbvia, é bem verdade. No entanto, não nos damos conta desse importante axioma da economia: ninguém tem mais zelo e preocupação por seus interesses pessoais do que você mesmo. As coisas acontecem porque permitimos que elas aconteçam, se me permitem banalizar ainda mais o conceito trazido pelo autor. Você já parou para refletir sobre seu papel na economia de seu bairro, cidade ou país? Reparem como é difícil tomar uma decisão hoje em dia:

“Num mundo em que a questão ambiental é simplesmente uma questão moral, nem os próprios ambientalistas podem chegar a uma conclusão sobre o impacto de nossas decisões diárias. O que é pior: fraldas descartáveis, que entopem os aterros sanitários, ou fraldas de pano, que no processo de lavagem usam energia e detergentes poluentes? Mesmo com a melhor boa vontade do mundo, é difícil saber como tomar a decisão correta”

Os bastidores e o risco moral
Partes fundamentais dos melhores capítulos do livro, os trechos onde o autor explica as relações entre nossos desejos e o mercado são essenciais para se compreender porque certas coisas acontecem ou deixam de acontecer. Um exemplo simples mostra que quando você está com pressa, está mais propenso a pagar mais caro por um café. Consequentemente, o aluguel de uma loja de café é mais alto nos locais onde as pessoas andam com pressa. Interessante? Óbvio?

Aprofundando mais, noto que muito se fala no Brasil sobre os programas assistencialistas do governo e sua eficácia. Obviamente, não cabe aqui entrar no âmbito político ou social da questão. Que impacto econômico podemos notar a partir destas atitudes? O autor chama essa tênue e perigosa linha de risco moral:

“O conceito é simples. Se você recompensar as pessoas quando ruim lhes acontece, elas podem se tornar descuidadas”

Qual a fila mais rápida?
Interessante notar as explicações técnicas, econômicas e de mercado para as oscilações de mercado, nos preços das ações e situações de aleatoriedade mostradas pela obra. De uma forma divertida, Harford explica que quanto mais racional for o comportamento dos investidores, mais errático será o comportamento do preço das ações. A famosa Teoria dos Jogos é explicada de uma maneira simples e sua aplicação desafiada em alguns estudos de caso. Ainda igualmente paradoxal e desafiador, o autor simplifica muitas das questões do dia-a-dia no incrível exemplo das filas:

“Qual é a fila mais rápida? A resposta é que não vale a pena se preocupar com isso. Se fosse óbvia qual a fila que andasse mais rápido, as pessoas entrariam nela, e ela não mais seria a mais rápida”

Avaliação final
Todas as frases e palavras encontradas entre aspas, nesta resenha, são citações fiéis de trechos do livro. Você, como eu, deve ter notado algumas estranhezas no português usado em algumas sentenças. Este é realmente um ponto fraco do livro. A tradução está confusa em diversos trechos e torna a leitura um pouco cansativa, especialmente quando exemplos são mesclados com os teoremas econômicos.

O exemplar que possuo é da primeira edição e notei, visitando recentemente uma livraria, que a última impressão melhorou o aspecto gramatical e contextual em alguns capítulos. No entanto, a tradução continua a desejar. Isso, claro, não tira o brilho do autor e sua obra e reflete apenas a minha opinião. O livro é excelente e os conceitos econômicos existentes no nosso dia-a-dia são magistralmente explorados e explicados, com muita paciência e propriedade, pelo competente Tim Harford. Notas:

  • Linguagem e narrativa: 8
  • Exemplos práticos: 9,5
  • Temas abordados: 9
  • Preço: 8
  • Média: 8,6

Bastante denso e perspicaz, “O Economista Clandestino” derruba muitos mitos que gravitam em torno das controvérsias econômicas contemporâneas, nos diz como podemos melhorar nossa capacidade de entender de economia e ainda esclarece como algumas empresas obtêm altos lucros de forma inocente, enquanto outras o fazem de forma ilícita. Harford tem o grande mérito de levar a economia do bairro, do país e do mundo para o cidadão comum. Recomendo!

Conrado Navarro
Aviso: Os textos assinados e publicados no Dinheirama.com não representam necessariamente a opinião editorial do Blog. Asseguramos a qualquer pessoa, empresa ou associação que se sentir atacada o direito de utilizar o mesmo espaço para sua defesa. Também ressaltamos que toda e qualquer informação ou análise contida neste blog não se constitui em solicitação ou oferta de seu autores para compra ou venda de quaisquer títulos ou ativos financeiros, para realização de operações nos mercados de valores mobiliários, ou para a aplicação em quaisquer outros instrumentos e produtos financeiros. Através das informações, dos materiais técnicos e demais conteúdos existentes neste blog, os autores não estão prestando recomendações quanto à sua rentabilidade, liquidez, adequação ou risco. As informações, os materiais técnicos e demais conteúdos existentes neste blog têm propósito exclusivamente informativo, não consistindo em recomendações financeiras, legais, fiscais, contábeis ou de qualquer outra natureza.

Comentários