Empreender não tem a ver apenas com o lado bom dos negócios. E ignorar isso pode ser um perigoso erro ao ingressar nesta jornada.

Com o aumento do interesse pelo empreendedorismo e pelo modelo de negócio das startups, não há uma semana sequer que não se leia ou se discuta sobre as características em comum entre os empreendedores de sucesso.

A fórmula parece insuperável; o sucesso, garantido. No entanto, a realidade não é tão simplista assim. O que pouco se fala é o preço psicológico do empreendedorismo, que pode ser caro e brutal.

Falhar pode ser algo natural, mas não para quem é treinado apenas para vencer, e esse pode ser um perigoso erro. Empreender não tem a ver apenas com o lado bom dos negócios. A importância de desenvolver uma estrutura emocional para transpor as dificuldades impostas neste percurso é muitas vezes ignorada nos manuais de “sucesso”.

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Essa falta de transparência ao tratar sobre o assunto pode desencadear o chamado viés heurístico da representatividade, tratado no ramo das finanças comportamentais.

Este viés se refere ao julgamento baseado em estereótipos, em que não se avalia a representatividade do tamanho da amostra. Em outras palavras, as pessoas julgam os eventos pela sua aparência e semelhança, não pela probabilidade deles realmente acontecerem.

Atenção aos casos de fracasso

Ao se deparar com uma listagem de casos de sucesso, e os pontos em comuns entre eles, um jovem julga que a probabilidade de ocorrer algo similar é elevada. Contudo. não levam em conta os inúmeros casos de fracassos que não foram noticiados.

Esta contradição gerada pelo viés da representatividade e a dura realidade de sobrevivência pode ter impactos severos na saúde mental dos empreendedores.

Pesquisa atualizada em abril de 2015, realizada por Michael A. Freeman, da Universidade da California São Francisco e colegas da UC Berkeley, sob o título “Are Entrepreneurs touched with fire?” e que contou com a participação de 242 empreendedores, apontou que 72% dos empreendedores são afetados direta ou indiretamente por problemas de saúde mental, sendo que o grupo não empreendedor utilizado na comparação, apresentou um percentual bem inferior, 48%.

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Exceto a ansiedade que é presente no mesmo percentual em ambos os grupos, os empreendedores lideraram em relatos de depressão (30% versus 15% dos não empreendedores), déficit de atenção (29% versus 5% dos não empreendedores) e doença bipolar (11% versus 1% dos não empreendedores).

Conclusão

Uma maneira de ajudar profissionais que têm interesse em ter seu próprio negócio é começar a abordar com mais transparência a questão sobre a qualidade da saúde emocional envolvendo o empreendedorismo.

Não podemos prosseguir pressionando os jovens a empreender, sem avançar no preparo da parte mental. E isso não se refere a replicar características tidas como padrões entre os bem-sucedidos. Mas sim em como não negligenciar a própria saúde e a felicidade em troca de um sucesso futuro que pode nunca chegar.

Richard Rytenband
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