Mercados caóticos e o preço de uma açãoOs gráficos existem desde que existem os mercados. Alguns investidores acreditam que os gráficos de preços passados sinalizam o comportamento dos preços no futuro e, por isso, debruçam-se sobre eles na tentativa de identificar padrões que antecipem seus movimentos. Apesar do desprezo com que estes investidores são vistos por seus pares e por muitos acadêmicos, a facilidade de obtenção de informações associada ao aumento da capacidade de processamento de dados faz com que cada vez mais investidores se dediquem à análise gráfica. Além disso, os dados sobre volume de negociações e os mercados de derivativos oferecem aos especialistas em análise gráfica novas sinalizações sobre o futuro.

A antítese da análise gráfica é a idéia de que os preços seguem um caminho aleatório. No caminho aleatório, o preço de uma ação reflete as informações contidas em seus preços passados. O que aconteceu ontem não tem qualquer relação com o que pode acontecer hoje. Esse conceito é amplamente conhecido como a Hipótese do Mercado Eficiente.

Para se compreender a teoria de que o preços seguem um caminho aleatório, vamos supor que os investidores estão constantemente avaliando o valor dos ativos com base em suas percepções do futuro e, ainda, que estas percepções são ao mesmo tempo não-viesadas e racionais, dadas as informações disponíveis. Nestas condições, o preço de uma ativo só mudaria quando surgissem novas informações.

Formalmente, a Hipótese do Mercado Eficiente remonta à dissertação de Eugene Fama, de 1964, ao trabalho do economista Paul Samuelson, ganhador do Prêmio Nobel e a outros estudiosos da década de 1960. Seu pedigree, contudo, retrocede a um passado bem mais remoto, à dissertação de Louis Bachelier, em 1900, aluno do grande matemático francês Henri Poincaré. Interessante e coincidentemente, os atuais trabalhos que contrariam o mercado aleatório, também derivam de profundos estudos de Poincaré, demonstrando de forma inconteste o brilhantismo do trabalho desse gigante da matemática.

As primeiras fissuras nos alicerces da Hipótese do Mercado Eficiente apareceram com a publicação de dois trabalhos do cientista econômico Edgar Peters, que aproveitando das descobertas do hidrólogo Harold Hurst sobre o regime das chuvas, adaptou as equações para o comportamento do mercado e verificou que, assim como as chuvas, séries temporais do mercado também possuíam comportamento viesado, isto é, não eram completamente aleatórios, e não se comportavam de maneira eficiente e racional.

Estava inaugurada, dessa forma, uma nova era de estudos sobre os fundamentos do mercado, utilizando das poderosas ferramentas da Teoria do Caos e Complexidade, que descreve sistemas com comportamentos persistentes, porém não periódicos. Na continuidade deste artigo falarei mais sobre a Teoria do Caos e como seu corpo teórico está dando grandes contribuições para elaboração de estratégias rentáveis, amplamente utilizadas por fundos quantitativos em todo mundo. Abraços a todos.

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Fernando Botti, 30 anos, é bacharel em física pela Universidade de São Paulo e especialista em Gestão Integrada de Processos pela Fundação Vanzolini. Atuando como analista de sistemas especializado em investimentos e finanças, Fernando fundou a empresa Atrattore, que empreende diversas pesquisas sobre análise quantitativa no mercado utilizando caos, inteligência artificial, rede neurais entre outras ferramentas e oferece cursos de diversos níveis sobre o mercado. Conheça o blog do autor: Investimetria.

Crédito da foto para Marcio Eugenio.

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