Mercosul: aventuras e desventuras de um bloco econômicoPor Gustavo Chierighini, fundador da Plataforma Brasil Editorial.

Não é preciso ser dotado de profundo conhecimento em economia, e nem tão pouco ser formado em uma boa escola de relações internacionais, para identificar, com uma razoável chance de acerto, quais são as características dominantes para que um bloco econômico de integração regional seja bem-sucedido ou para antever complicações futuras (às vezes imediatas) ao observar idiossincrasias patentes.

Para dar cetro, a receita é simples e composta de um elenco pequeno de boas práticas, tais como:

  1. Boas relações internacionais entre seus membros, com o mínimo de conflitos e seguindo uma doutrina diplomática de aversão a hostilidades e profundo respeito à soberania nacional;
  2. Economias sólidas – e, se não totalmente, ao menos a caminho da robustez;
  3. Sistemas financeiros e modelos bancários bem regulamentados e equipados com boa governança;
  4. Bom intercâmbio tecnológico e científico;
  5. Senso patriótico, no lugar do apego nacionalista;
  6. Democracia liberal ou constitucional, plena, abundante, sacramentada e com profundo respeito ao direito de propriedade e a liberdade[bb] de expressão na mais ortodoxa filosofia voltairiana, eternizada na frase “Posso não concordar com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo” – este um fator determinante que, por sua vez, detém o poder de influir em todos os anteriormente citados.

Mas a receita para o buraco é bem mais simples: basta praticar a antítese das boas práticas e adicionar uma pitada de incoerência na condução da política de relações exteriores, junto com uma boa dose de populismo. Pronto, eis que surge uma grande sopa de vinagre.

Como está o Mercosul?
Em meio a isso, enquanto o Bloco se forma, ganha status operacional, respeitabilidade global e amadurecimento na sua condução, navega-se numa zona sombria de riscos, encrencas, acertos e erros. Uma verdadeira corda bamba. E a música segue.

No recente “tango-samba-joropo” (joropo é um estilo musical típico venezuelano) do Mercosul, a corda tremeu como nunca em seus vinte e um anos de história. Um contexto complexo, que exige análise geopolítica aguçada, e muita, mas muita autocrítica para compreender se os fundamentos de uma boa união estão presentes.

O fato é que o populismo crescente nas democracias e “democracias” parceiras do bloco vem enfraquecendo processos construídos em um ambiente onde se conjugou a mínima disputa por poder e influência com o máximo de paciência para com os processos políticos internos de cada país membro.

Com o avanço deste fenômeno, aliado ao forte apelo ideológico reinante, observamos a diluição do conceito de uma diplomacia[bb] de Estado comprometida com o longo prazo, dando lugar a uma diplomacia partidária que, embora possa estimar influir “ad eternum”, não deixa de ser imediatista e sujeita a rompantes que em nada agregam ao processo.

A geografia se mistura com a economia
De um lado o Paraguai, com sua circunstancial fragilidade econômica (circunstancial sim, pois em geopolítica o espaço de análise não é inferior a 30 anos, por isso recomenda-se cautela e caldo de galinha), ofendido por não ver respeitada a sua particularidade constitucional – e, segundo seus diplomatas, nem mesmo o ordenamento interno do Mercosul – que se dá por um regime presidencialista onde o congresso detém maciço poder, permitindo o impedimento imediato de um presidente da república.

Do outro lado a Venezuela[bb], forrada de petróleo em sua petroleira estatal bolivarianamente administrada, com seu projeto de oposição ocidental (fortes aliados do Irã, mas sem representação diplomática em Israel) e com seu líder, que se pretende também “ad eternum”, em pleno processo de disputa eleitoral (e pela primeira vez correndo o risco de fracassar no pleito).

Na ponta de lança o Brasil, com sua crescente influência regional e global e, para completar, sendo o único que detém fronteiras com todos os participantes da encrenca.

Para nossos analistas, um conjunto de escolhas que sinalizam riscos e oportunidades diferentes. Uma gestão complicada que não combina com imediatismos, nem com jogos partidários, mas que deve se ater a um projeto de Estado não ideológico, mas que mire o futuro e, principalmente, o teatro da competição onde se insere cada vez mais, com alguns atores fortes a saber: China, Rússia, índia e EUA.

Aguardemos as cenas dos próximos capítulos. É o que nos resta fazer. Até a próxima.

Foto de sxc.hu.

Plataforma Brasil
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