O cartão de crédito dos meus sonhosSemana passada, quando li a notícia sobre o novo cartão de crédito que oferece parcelamento das compras em até 200 meses, enviei um e-mail para o Navarro perguntando se eu poderia escrever alguma coisa para o Dinheirama nesse sentido.

Inicialmente a minha ideia era falar um pouco sobre as armadilhas dessa nova modalidade de crédito (nem tão nova assim) e confrontar a ideia defendida por alguns de que o problema não é o cartão, mas o uso que as pessoas fazem dele.

Mas…

Resolvi falar um pouco sobre o cartão de crédito dos meus sonhos, um cartão de crédito que não existe no mercado, mas que deveria existir.

Não se trata de um cartão que oferece juros menores do que os cobrados no rotativo atualmente, nem um maior prazo de parcelamento, nem custos reduzidos de aquisição e operação para os lojistas.

É um cartão de crédito que realmente funcione para todos como uma ferramenta capaz de ajudar no controle das finanças e não como um perigo potencial para o superendividamento.

O meu cartão de crédito dos sonhos é um cartão que vem com algumas opções pré-estabelecidas, mas que podem ser modificadas pelo titular do cartão através de um SAC, após o pagamento da primeira fatura. Entre essas opções estariam:

  • Limite de 10% da renda do titular;
  • Bloqueio para compras parceladas onde incidam juros;
  • Bloqueio para pagamento mínimo;
  • Bloqueio para saque.

A ideia aqui é utilizar o viés do status quo, ou seja, fazer uso (ético e sustentável) daquela nossa tendência de deixar as coisas como estão.

Algumas empresas utilizam esse viés quando nos oferecem, por exemplo, um bem ou serviço com um preço absurdamente inferior ao normalmente praticado (ou até mesmo gratuitamente) por um determinado período de tempo. Ao término deste período, o preço volta ao normal, mas você continua recebendo o bem ou serviço (e pagando por ele) – a menos que você procure cancelar o contrato. As assinaturas de revistas são o exemplo clássico.

A probabilidade de você continuar pagando o preço cheio pelo bem ou serviço (manter as coisas como estão) é muito maior do que a probabilidade de você se dar ao trabalho de cancelar o contrato.

A razão de ter as opções pré-estabelecidas atreladas ao limite e ao parcelamento está ligada à nossa incapacidade de substituir as contas mentais pelas continhas de somar e subtrair com lápis e papel (ou planilhas, como queira).

A grande maioria das pessoas decide se compra ou não em função do valor da parcela e, o que é pior, normalmente se esquece de somar a nova parcela às anteriores dentro de seu fluxo de caixa. E, quanto menor o valor da parcela, maiores são as chances de você usar a conta mental.

O comércio varejista sabe bem disso. Basta prestar um pouco de atenção às propagandas para perceber que o valor em destaque (e em alguns casos o único valor mencionado verbalmente) é o da parcela.

Já que as contas mentais são um perigo – e não, nós não vamos substituí-las pelas contas de lápis e papel só porque temos um cartão de crédito ou só porque sabemos que esse é o melhor caminho –, o cartão de crédito dos meus sonhos exibe em cada comprovante de compra o limite disponível atualizado.

Bem, e só para provocar mais um pouquinho, o contrato do meu cartão de crédito dos sonhos é automaticamente cancelado pela operadora se o titular efetuar o pagamento mínimo por cinco vezes, consecutivas ou não, nos últimos 12 meses de vigência do contrato.

A inspiração aqui veio da Lei 9.656 sobre a regulamentação dos planos de saúde. Em seu artigo 13, parágrafo único, inciso II, a Lei 9.656 proíbe a suspensão ou rescisão unilateral do plano, “salvo por fraude ou não pagamento da mensalidade por período superior a 60 dias, consecutivos ou não, nos últimos 12 meses de vigência do contrato, desde que o consumidor seja comprovadamente notificado até o quinquagésimo dia de inadimplência”.

Acho que para aqueles que já sabem utilizar um cartão de crédito, essa nova modalidade não seria problema algum. Mas, para aqueles que não sabem fazer um uso adequado da ferramenta, acho que seria um grande empurrão para escolhas mais acertadas.

Em meio a tantas iniciativas no setor das finanças, como a proposta do Código de Defesa do Consumidor enviada ao Senado que visa a atacar o superendividamento das famílias e a regulação das instituições financeiras do país (um dos aspectos que compõem o tripé de atuação da ENEF), quem sabe alguém não se inspira nas minhas provocações…

Afinal, sonhar não custa nada (nem endivida ninguém!). Você não gostaria de usar um cartão de crédito assim, dos sonhos?

Foto de sxc.hu.

Adriana Spacca Olivares Rodopoulos
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