O crédito consignado, as armadilhas mentais e a produtividadeJá tinha pensado em escrever um artigo falando um pouco mais sobre os efeitos psicológicos que a palavra crédito tem sobre a maioria de nós. Numa coincidência bastante feliz, tive a oportunidade de bater um papo há uns dias atrás com alguns conhecidos do ramo da saúde e o artigo que eu tinha em mente tomou forma. Hoje vamos falar sobre os efeitos do crédito consignado sobre empregados e empregadores.

Só para situar você, leitor, trata-se de um hospital na grande São Paulo onde apenas os sócios não estão endividados. Até aqui nenhuma grande novidade, já que o endividamento parece ter se tornado parte integrante da vida da maioria dos brasileiros – lembre-se que compras a prazo (inclua-se aqui o cartão de crédito), financiamentos, parcelamentos, empréstimos, tomada de crédito são apenas expressões diferentes para designar a mesmíssima coisa: E-N-D-I-V-I-D-A-M-E-N-T-O.

Neste caso específico, o endividamento se deu em função da tomada de crédito consignado. Essa modalidade de empréstimo apresenta dois grandes atrativos para a maioria de nós pobres mortais: taxas de juros menores e débito automático (na folha de pagamento).

Só um detalhe técnico: o empréstimo consignado oferece taxas de juros mais atraentes justamente porque as parcelas são descontadas em folha e, consequentemente, o risco (embutido nas taxas de juros) é quase inexistente, ou seja, o calote é quase impossível.

Pois bem, no artigo anterior (clique aqui para relembrar) falamos que quando entendemos a tomada de crédito como um ganho, nós invariavelmente tentamos maximizá-lo; em se tratando de empréstimo, a única forma de maximizar é pagar menos juros, ou parcelas menores: ponto para o consignado!

Débitos automáticos também são bastante simpáticos, porque não dão o menor trabalho. Eles caem bonitinho, no dia certo sem que tenhamos que nos lembrar deles, providenciar o dinheiro, nos deslocar ou alocar um tempo que seja para efetuar o pagamento. Neste aspecto, o consignado é uma “mão na roda”.

Agora vejam que interessante. Este grupo de empresários me revelou que uma vez que as parcelas começam a ser debitadas do salário, as pessoas passam a ver esse desconto como uma perda salarial. O efeito psicológico aqui é de que elas estão ganhando menos! Isso gera insatisfação, que gera queda na produtividade, menor comprometimento, ambiente de trabalho desfavorável e por aí vai.

Como o que mais levamos em consideração é o tamanho da parcela e não os juros, a minha suspeita é que as pessoas estão fazendo uma conta mental perigosa: elas deduzem a “parcelinha” do empréstimo do salário bruto, ou no máximo do líquido, quando na verdade deveriam deduzir do dinheiro que fica disponível depois de terem pago todas as contas do mês.

Sim, porque é muito diferente ter R$ 1.000,00 e deduzir R$ 200,00 de parcela do que deduzir os mesmos R$ 200,00 de R$ 300,00, que é o que sobra no mês. Certo?

E aí, o que fazer? Do ponto de vista individual, ler a coluna de Psicologia Econômica (clique para mais artigos) para entender um pouco melhor como funciona a nossa cabeça e passar a perceber o crédito como endividamento, e ponto.

Do ponto de vista empresarial, levando-se em conta que o endividamento em massa de funcionários está cada vez mais comum, programas de educação financeira que contemplem os aspectos psicológicos da tomada de decisão seriam de grande eficácia.

Insisto nos aspectos psicológicos abordados pela Psicologia Econômica porque informação não basta para modificar comportamento, é preciso que as pessoas sejam capazes de desarmar suas próprias armadilhas para que, assim, tenham uma vida financeira mais saudável e sustentável.

Até a próxima!

Foto de freedigitalphotos.net.

Adriana Spacca Olivares Rodopoulos
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