O endividamento, o legado e as escolhas de consumoO Ano Novo se aproxima e com ele a hora de renovar as promessas e os desejos pessoais e familiares. Na virada, nos dedicamos aos votos de um ano novo repleto de realizações, melhoras e muitas mudanças. Como sempre, voltar (ou começar) para academia, iniciar e manter a dieta, caminhar mais, passar mais tempo com a família/amigos e livrar-se das dívidas são alguns dos juramentos mais comuns nesta época.

Felizes daqueles que conseguem colocar em prática a mudança de atitude e comportamento necessária para transformar as promessas em ações – especialmente em se tratando da saúde física, emocional e financeira. Dívidas, muitos brasileiros querem aproveitar o ano que começa para traçar planos e estratégias[bb] a fim de liquidá-las. Será?

Uma recente matéria veiculada na Folha Online dá conta que a dívida dos brasileiros anda crescendo em ritmo maior que o de sua renda. Em um país cujo crescimento econômico sustentável demorou a “vingar”, a notícia talvez não surpreenda tanto. De fato, não assusta. No entanto, ao observarmos com mais atenção os dados do Banco Central, cabem algumas ressalvas.

Perfil do endividado
O número de brasileiros com dívidas acima de R$ 5.000,00 mais que dobrou nos últimos cinco anos. O total de brasileiros neste grupo passou de pouco menos de 10 milhões em 2004 para 23 milhões este ano – o total de endividados, incluindo dívidas de valores menores, ultrapassa 80 milhões. O total em crédito para o grupo de 23 milhões de brasileiros que devem mais de R$ 5.000,00 chega a R$ 430 bilhões, algo em torno de R$ 20 mil por devedor.

Os níveis de inadimplência continuam próximos dos valores auferidos no auge da crise, muito embora haja consenso de que este percentual tende a aumentar em 2010, justamente por conta da crescente procura por empréstimos e financiamentos. Muita gente está comprando agora o que já queria ter comprado no começo do ano – a crise atrapalhou um pouco – e a conta fica para o ano que vem.

A alta é compreensível – tem relação com a forte expansão do crédito para a pessoa física, especialmente para compra de veículos e imóveis -, mas, ainda assim, me preocupa. Ressalto que não se trata de criticar o consumo, afinal, aceito e lido bem com a relação econômica entre o crédito e a expansão do país. Sinto falta de esforços no sentido de orientar melhor os tomadores de dinheiro[bb] e, principalmente, seu processo de tomada de decisão.

Crédito versus planejamento
Atender famílias e pessoas com problemas financeiros tem me dado alguma autoridade para avaliar as decisões econômicas e suas conseqüências no âmbito familiar. Neste sentido, três observações merecem destaque:

  1. Ainda são raros os casos de famílias que mantém um orçamento financeiro detalhado, com previsões de gastos e análises sobre a evolução das despesas. Muita gente sabe quanto ganha, quanto gasta e seu perfil de consumo, mas não age de forma a comparar e acompanhar a evolução média dos gastos. O debate poderia começar de forma simples: “por que gastamos mais com supermercado este mês?” ou “O que houve com a conta de telefone celular[bb], que aumentou tanto?”. E ainda “Na média, estamos extrapolando o gasto com lazer. Por que?”
  2. Poucos poupam e investem parte do que ganham para projetos e objetivos futuros. Ainda que o crédito represente a oportunidade de adiantar o consumo, seus benefícios não podem ser estendidos para as fases de emergência ou para o momento em que a saúde necessitar de maiores cuidados (geralmente, na terceira idade). Os montantes pagos pelas aposentadorias oficiais são muito menores que os valores necessários para sustentar o padrão de vida da maioria dos aposentados, que muitas vezes recorrem aos empréstimos para se sustentar. E seus anos restantes são dedicados apenas ao pagamento de dívidas;
  3. Somente nos últimos anos temos visto iniciativas voltadas para a educação financeira da população. Agir de forma a educar nossos cidadãos traz benefícios para a nação como um todo. Não significa usar menos o crédito, mas valorizá-lo de forma que seu uso seja racional, inteligente e sempre de forma a garantir mínimo estrago no orçamento e máxima realização, qualidade de vida. Não raro, nos vemos envolvidos no consumo que nada agrega em nosso bem-estar – muito embora seja isso que defendemos quando gastamos.

Tais comentários são pontuais. Com isso, quero dizer que foram elaborados a partir de avaliações críticas e práticas da realidade, mas sob a minha ótica, de educador financeiro, alguém que acredita que a disciplina, aliada a projetos suficientemente fortes de vida, pode transformar vidas e hábitos em razão de alegria, sucesso e felicidade.

Devemos comemorar o acesso ao crédito por uma parcela maior da população, assim como devemos comemorar a democratização do consumo de inclusão social. Devemos comemorar, é claro, o crescimento do Brasil e ascensão social proporcionada pelas mudanças econômicas. Devemos comemorar o amadurecimento da indústria, dos serviços e do comércio, hoje representativos e grandes geradores de empregos. Pois é, devemos mesmo comemorar a economia brasileira[bb] como um todo.

Só não podemos nos ver tão maravilhados com as possibilidades a ponto de esquecer que o mais importante de viver bem uma vida não são as coisas que conseguimos comprar ou ter, mas o legado familiar e o exemplo que deixamos. Viver de posses além da conta representa o desejo de deixar impressões, distorções, enquanto viver a vida como ela é justifica o que realmente se pode ter. Defendo que tenhamos tudo aquilo que desejamos ter, desde que isso seja possível – e, felizmente, quase sempre é.

Porque viver com o dinheiro dos outros é fácil, mas significa deixar um rastro de dívidas e credores. Viver dentro de seus limites pode parecer frustrante, mas dignifica, dá significado ao esforço que tanto empreendemos no dia a dia e em nossa vida profissional. E só assim se constrói algum patrimônio. Não interessa o que vão pensar, desde que a família tenha a exata noção de que trata-se do máximo possível.

Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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