Poupança - Importante para o futuro!Eric diz: “Navarro, lendo alguns de seus artigos mais antigos percebi que é importante levar em consideração a inflação ou não estaremos observando a rentabilidade real de nossos investimentos. É isso mesmo? Gostaria que explicasse um pouco melhor essa relação e falasse sobre a visão crítica que devemos desenvolver para não achar que ‘vamos bem’ com o investimento e sermos surpreendidos com um parco poder de compra no futuro. Grato.”

Eric, você usou algumas palavrinhas mágicas muito importantes. A principal conjunção delas, poder de compra, deve ser uma das grandes preocupações quando o assunto é poupar e investir nosso suado dinheiro[bb]. Interessante notar que a inflação era uma variável bastante comentada antes do Plano Real, fruto das combalidas e malucas políticas econômicas de outros tempos. Imagine você, caro jovem investidor (como eu), que a inflação foi de 2.477,15%, ou 3,20% ao dia, em 1993. Já em 1995, apenas dois anos depois e já com a circulação do Real, vimos a inflação cair para 22,41% ao ano. Assombroso, não?

A hiperinflação acabou, a inflação não!
É comum encontrar investidores de mais de 35 anos que consideram importante as leituras sobre inflação quando estão por decidir sobre o destino de seu dinheiro. No entanto, é visível a reação de pouco caso da nova geração, que ainda não percebeu “na pele” o poder do dragão. O importante não é apenas preocupar-se com ela ou achar que o dragão está hibernando, mas sim ter esta certeza. Para isso é preciso considerar a inflação um risco. Paulo Barcellos, economista-chefe do Banco Cooperativo Sicredi, concedeu ao periódico Estadão Investimentos uma recente entrevista sobre isso:

“Há quem pense que se trata de um problema do passado, totalmente controlado, mas não é bem assim”

Em suma, é ótimo que a economia e os preços estejam mais estáveis e previsíveis. Apesar da recente crise hipotecária norte-americana, recebemos as excelentes notícias sobre a expansão da economia brasileira em 2007, da queda consistente dos juros básicos (taxa Selic) e da grande oferta de crédito à população. No entanto, os preços de muitos insumos, produtos, commodities e bens de consumo subiram em 2007. Como exemplo, o Índice de Preços do Atacado – IPA-DI, medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), subiu 14,48% em 2007. Alta expressiva, já que em 2006 o índice cresceu apenas 1,31%.

Corroendo o poder de compra
Com a alta dos preços, fica fácil notar o enfraquecimento do poder de nosso dinheiro[bb]. Essa relação não é tão clara para os mais novos, acostumados apenas com a rapidez da Internet, mas ainda tentando aprender a correta velocidade do dinheiro. Estraçalhando de vez com o “economês”, imagine que você tem R$ 10,00 e que um pacote de macarrão custe, hoje, R$ 9,50. Você decide guardar estes R$ 10,00 debaixo do colchão e com eles enterra a idéia de que o valor é suficiente para comprar uma boa massa daqui há algum tempo.

Se levarmos em conta uma inflação média de 4% para os próximos cinco anos, veremos o macarrão subir R$ 0,38 todo ano. Passados 5 anos, o pacote custará R$ 11,40. Quanto estará valendo sua nota de R$ 10,00 guardada debaixo do colchão? Claro que os mesmos R$ 10,00! Duh!!! Você comprava o mesmo pacote de macarrão com os R$ 10,00, agora não compra mais. Bem-vindo ao mundo real, onde a inflação, ainda que controlada e pequena, ataca sem dó.

O mesmo vale para os investimentos de longo prazo
A história foi bem básica, é verdade, mas agora pense no seguinte: você, ainda sem se preocupar com a inflação, decide colocar seu dinheiro na caderneta poupança pelos próximos 10 anos. A partir daí, verá seu dinheiro rendendo algo próximo de 7% ao ano e, considerando sua aversão ao risco, vai se dar por contente. No entanto, passados todos estes anos você percebe que o dinheiro que possui em mãos compra pouca coisa e culpa as lojas, governo e empresas “pelos juros altos e pela inflação”. Inflação? Você disse inflação? E como foi que se esqueceu de considerá-la 10 anos atrás?

Seu amigo, mais precavido, resolveu investigar e ler sobre a inflação e outras alternativas de investimento[bb]. Ele percebeu que havia uma certa tendência e que a inflação se estabeleceria entre 4% e 5% ao ano durante os 10 anos seguintes. Assim, ele optou por usar a média, 4,5%, para seus cálculos iniciais. Lápis em punho, ele viu que a poupança lhe daria uma rentabilidade real (rentabilidade menos inflação) de apenas 2,5%. “É pouco”, concluiu. Assim, resolveu arriscar-se em fundos de ações, títulos públicos indexados aos índices de inflação (garantem rentabilidade real) e fundos multimercado.

Quem terá mais dinheiro depois destes hipotéticos 10 anos? Que tal preocupar-se com outra pergunta: qual dos dois investidores está mais preocupado com o investimento de seu dinheiro e o raciocínio financeiro necessário para fazê-lo multiplicar-se? As variáveis envolvidas são várias e meu objetivo aqui não é menosprezar o risco, as escolhas pessoais de cada um ou as alternativas conservadoras. No entanto, é indiscutível que o seu amigo foi mais inteligente nos argumentos e escolhas realizadas, dado o prazo e as opções levadas em consideração.

Chega! Não quero provar nada!
Acredite, tudo que este artigo pretende fazer é apenas alertá-lo para a inflação, que promete ser maior em 2008 do que foi em 2007. Com isso, a rentabilidade real de suas aplicações cairá e cabe a você preocupar-se em reavaliar suas posições e percentuais. Será que não é hora de mover parte do dinheiro da caderneta de poupança para um CDB DI ou título público? Será que não é hora de começar a investir em ações e ativos de maior risco pensando no longo prazo? Estas são algumas perguntas que posso ajudá-lo a responder, mas antes você precisa aprender a fazê-las sozinho. Aceita o desafio?

PS: O título deste artigo originalmente é “O investidor inteligente sempre pensa na inflação”, mas resolvi alterá-lo para que haja uma conexão com a realidade da hiperinflação ocorrida no país nas décadas passadas. Então lembre-se, o investidor pra valer sempre se dá ao trabalho de consultar o dragão (ops).

Crédito da foto para Márcio Eugenio.

Conrado Navarro
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